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Refugiados etíopes de Tigré recebidos de braços abertos no Sudão

Refugiados etíopes que fugiram da violência na região de Tigré no acampamento de Um Raquba, na província de Gedaref (leste do Sudão), em 18 de novembro de 2020 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 24. novembro 2020 - 10:15
(AFP)

Ao fugir da guerra na região dissidente de Tigré, na Etiópia, Sejamara e o marido não sabiam o que encontrariam no Sudão, nem imaginavam a hospitalidade com que seriam recebidos do outro lado da fronteira.

Famintos, com sede e cansados, eles chegaram à empobrecida localidade sudanesa de Hamdayit após uma caminhada de várias horas, que incluiu atravessar o rio Sietet.

Tudo que o casal desejava era um local para dormir, longe dos refúgios improvisados do centro de trânsito de Hamdayit, lotados.

"Pensávamos em alugar uma casa, mas as pessoas nos alojaram de modo gratuito", conta Sejamara, em uma modesta cabana de palha que tem uma cama.

O jovem casal está entre as milhares de pessoas que foram obrigadas a fugir em consequência do conflito em Tigré, norte da Etiópia, onde o exército iniciou uma ofensiva em 4 de novembro contra as forças locais dissidentes.

A ONU advertiu que na região de fronteira estava nascendo uma "crise humanitária em larga escala". Centenas de etíopes fogem a cada dia dos combates e bombardeios, deixando tudo para trás.

"Podem ficar aqui o tempo que desejarem", afirma a anfitriã, Mariam Abubakr, que mora com o marido em uma pequena casa de adobe, ao lado.

Como os outros refugiados, Sejamara e o marido se inscreveram nas organizações humanitárias para receber as refeições diárias do centro de trânsito.

"Talvez, se as coisas se acalmarem em Tigré, nós consigamos retornar para casa. Se isso não acontecer, não teremos escolha a não ser morar em um campo de refugiados", explica Sejamara.

Apesar da pobreza, muitos moradores de Hamdayit receberam os etíopes em suas casas modestas e dividiram os alimentos.

"Há muitas pessoas, mas são nossos convidados", afirma Issa Hassan, um agricultor de Hamdayit.

Esta região do leste do Sudão é conhecida por sua hospitalidade. Desde 1967, em consequência da guerra e da fome, já abrigou centenas de milhares de de etíopes e eritreus.

Com o conflito de Tigré, quase 36.000 etíopes migraram para o Sudão, de acordo com a Comissão de Refugiados, mas a ONU adverte que o número pode alcançar 200.000 nos próximos seis meses.

O centro de trânsito de Hamdayit recebeu mais de 24.000 refugiados desde o início dos combates.

Os moradores da região lamentam apenas que a chegada dos refugiados provocou um aumento dos preços.

"Os preços das verduras, frutas, carne e até da água aumentaram consideravelmente", afirma Issa Hassan, que cita o quilo da banana, que passou de 70 a 150 libras sudanesas (de 1,24 a 2,70 dólares).

- "O medo em seus rostos" -

No centro de recepção "Aldeia 8", no estado de Gedaref, muitos etíopes se declaram comovidos com a generosidade dos sudaneses.

"Muitos deram comida de suas fazendas e alguns nos ofereceram colchonetes para dormir, outros nos permitiram utilizar seus banheiros", conta Adam Youssef.

"Foram muito generosos", completa.

Vários sudaneses que moram perto do campo de refugiados de Um Raquba, a 80 km da fronteira, distribuíram alimentos.

"Observamos o medo em seus rostos e muitos caminhavam descalços", recorda Ahmed Abdalla Ismail.

"Sentimos pena, tentamos ajudar o máximo que podemos", afirma.

Mas nos acampamentos de trânsito, a situação é mais difícil: os refúgios são pequenos, com pouca água corrente e os banheiros ainda não foram construídos.

Alguns agricultores sudaneses temem a propagação de doenças, como o novo coronavírus.

"Chegaram muitos e agora vivem sem instalações sanitárias. É extremamente insalubre", adverte o agricultor Omar Hussein.

O camponês Gamal Adam está preocupado com a possibilidade de que muitos refugiados sejam obrigados a viver nos campos, o que "arruína as colheitas".

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