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Para Donald Trump, o Acordo de Paris sobre o clima só permitiria evitar uma elevação de 0,2º C da temperatura, um cálculo que os especialistas rejeitam, insistindo nos benefícios deste pacto para o planeta, inclusive os Estados Unidos.

Qual temperatura alcançar?

"Se todas as nações aplicassem o Acordo de Paris, a temperatura mundial só diminuiria 0,2º C até 2100! Uma quantidade minúscula, minúscula!", afirmou na quinta-feira o presidente americano, ao anunciar que seu país deixará o pacto.

"É falso!", respondem os cientistas.

O mundo caminha para uma temperatura 4º C superior em 2010 à média anterior à Revolução Industrial. As promessas de redução de emissões de gases de efeito estufa apresentadas em Paris por cada país puxam esta elevação a uns 3º C. Isto é, cerca de 1º C menos (e não 0,2º C), segundo os pesquisadores: enquanto a ideia é reforçar esta ambição ao longo dos anos.

Desde quinta-feira, pesquisadores do Massachussetts Institute of Technology (MIT), que a Casa Branca citou como fonte, se apressaram em destacar em um comunicado que seus trabalhos revelavam uma redução de 0,9º C e não de 0,2º C.

Qualquer décimo conta. Com o +1º C atual, o aquecimento global já é percebido: secas, inundações, perdas de recifes de corais.

Quanto ao impacto da retirada dos Estados Unidos, provocaria, segundo a Organização Meteorológica Mundial, uma elevação de temperatura adicional de 0,3º C no planeta até 2100, se nenhuma cidade ou empresa americana compensar a medida federal. Algo improvável.

- O que acontece com o financiamento? -

"O Fundo Verde (da ONU) sobre o clima custa uma fortuna aos Estados Unidos", declarou o ocupante da Casa Branca. "Teremos que pagar (...) potencialmente dezenas de bilhões" de dólares ao Fundo Verde.

Para o ex-presidente da COP21, Laurent Fabius, o americano disse "qualquer coisa" ao falar de um Fundo de 100 bilhões de dólares.

De fato, o Fundo Verde é dotado de 100 bilhões de dólares, US$ 3 bilhões dos quais foram prometidos pelos Estados Unidos, que finalmente pagaram apenas US$ 1 bilhão.

A questão do financiamento é a preocupação mais importante de muitos especialistas, pois os compromissos financeiros são um elemento-chave do Acordo de Paris, ao permitir que os países do Sul se desenvolvam com energias limpas.

Em Paris, os países do Norte prometeram US$ 100 bilhões anuais a partir de 2020 através de diferentes canais. "O problema do financiamento será muito complicado de solucionar. Será preciso compensar", disse Fabius.

Enquanto isso, a China vai aumentando sua influência, contribuindo cada vez mais para o financiamento climático Sul-Sul.

Quanto ao apoio da diplomacia do clima, os Estados Unidos financiavam com 4 milhões de dólares (23%) a secretaria da Convenção do Clima. Na quinta-feira, a Fundação Bloomberg Philantropies propôs aportar US$ 15 milhões.

- Efeito dominó ou de choque?

Com a saída de Washington, também cabe "temer um efeito bola de neve, justo quando se precisaria aumentar as aspirações", disse, preocupado como muitos outros o climatologista Jean Jouzel, pensando principalmente na Rússia.

"Este anúncio pode ser um freio. No entanto, cada ano conta", avaliou.

Para permanecer abaixo do teto de 2ºC fixado por Paris, seria preciso deixar no solo 80% das reservas de energia fóssil (carvão, gás, petróleo). No ritmo de consumo atual, seria preciso deter essa exploração em um prazo de 20 anos.

"Em breve será preciso reduzir as emissões globais 5% ao ano", acrescentou Jouzel.

Há três anos, as emissões de gases de efeito estufa devido às energias fósseis estão paradas, mas sobretudo graças à China, a quem Trump acusou falsamente na quinta-feira de se beneficiar de um tratamento diferenciado no Acordo de Paris.

Em troca, as emissões da Índia crescem e as de outros países podem seguir este caminho.

Mesmo assim, os ambientalistas querem acreditar, ao final desta semana, que o mundo vai trabalhar "ombro a ombro" e que esta crise será "útil e mobilizadora".

"O Acordo de Paris nasceu do multilateralismo, da vontade de encontrar uma solução de cooperação para um problema mundial", comentou o ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, para quem "nenhum país pode desmontá-lo por si mesmo".

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