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Sebastián Piñera, o presidente bilionário sufocado pela crise no Chile

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, em 26 de outubro de 2019 em Santiago afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 05. novembro 2019 - 21:26
(AFP)

Um dos homens mais ricos do Chile, pertencente à elite que é alvo das reclamações dos manifestantes que não abandonam as ruas, o presidente Sebastián Piñera, no poder desde março de 2018, viu sua imagem desmoronar devido a uma crise social sem precedentes.

Poucos dias antes do início dos protestos em 18 de outubro, o presidente considerou o Chile como "um oásis" na América Latina. Quase três semanas depois, enquanto muitos chilenos expressam sua raiva contra o governo e grande parte da classe política, o chefe de Estado descarta pedir renúncia.

Há 20 dias, enquanto Piñera degustava de uma pizza em um restaurante em uma área nobre, Santiago entrava em convulsão. A imagem do presidente cercado dos netos num local caro foi para a maioria dos 17 milhões de habitantes deste país um reflexo da divisão entre uma elite desconectada da classe média e da classe trabalhadora.

Visivelmente surpreso com o movimento social, o presidente teve que desistir de suas maiores aspirações internacionais e cancelar a organização da reunião dos líderes da APEC (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) e da cúpula da ONU sobre mudanças climáticas COP-25, que colocaria o Chile em um papel central nas próximas semanas.

Nenhuma de suas medidas ou correções ao longo das quase três semanas conseguiu amenizar os protestos que deixaram 20 mortos num país que, até há pouco, era um modelo de estabilidade política e econômica na América Latina.

O primeiro presidente de direita desde o retorno da democracia, em 1990 (quando chegou ao poder em seu primeiro mandato, de 2010 a 2014, antes de ser eleito novamente no final de 2017) personifica a trindade na raiz da fratura da população e líderes: poder econômico, político e institucional.

- Empresário -

Aquele que muitos consideram ser mais um homem de negócios do que um político tem uma fortuna estimada em 2,7 bilhões de dólares, segundo a Forbes, em um país onde o salário mínimo é de 418 dólares (cerca de 1.660 reais) e onde a renda per capita de 23.000 dólares anuais (cerca de 91.700 reais) escondem profundas desigualdades.

Este homem que pilotava seu próprio helicóptero, que foi acionista da empresa aérea chilena LAN - agora LATAM -, um canal de televisão e um clube de futebol, levou tempo para desistir de seus investimentos quando foi eleito pela primeira vez para a presidência.

O homem feito por si mesmo, de 69 anos, com quatro filhos e nove netos, foi reeleito em dezembro de 2017, depois de deixar seu primeiro governo com 50% de popularidade. Agora, tem a menor aprovação nas pesquisas entre todos os presidentes desde o retorno da democracia (13%).

Quando começaram os saques, incêndios e confrontos, o presidente com um sorriso fácil, que se apresentou como líder de uma direita renovada e afastada da herança de Pinochet, apressou-se em declarar o estado de emergência ao considerar que era um grande problema de desordem pública.

Os soldados voltaram a patrulhar as ruas de Santiago com toque de recolher noturno pela primeira vez desde o final da ditadura, um medida que não agradou a uma boa parte da população.

- "Em guerra" -

No dia seguinte ao primeiro primeiro protesto, Piñera anunciou a suspensão do aumento da tarifa do metrô - que desencadeou as manifestações -, mas o país já estava em rebelião.

Suas declarações posteriores não contribuíram para diminuir a insatisfação popular, quando afirmou que "a democracia tem a obrigação de se defender".

A infeliz afirmação de que o país enfrenta uma "guerra", três dias após o início da crise, virou um mantra para seus adversários nas ruas que desde então gritam lemas afirmando o contrário.

Dois dias depois, ciente do desastre de sua mensagem, ele convoca os partidos políticos para tentar encontrar um "acordo social" e pede desculpas ao país.

A seguir executa uma reforma no ministério -substituindo um terço dos titulares das pastas- e anuncia uma bateria de medidas sociais, que não amenizam os protestos e nem a tensão.

Em 25 de outubro, uma grande manifestação reuniu mais de um milhão de pessoas na Praça Itália, o epicentro dos protestos. Através do Twitter, Piñera diz que "ouviu a mensagem" do povo.

Mas, ainda nos rostos dos representantes do governo prevalecem sinais de preocupação e arrependimento sobre o cancelamento de dois eventos internacionais que teriam permitido que o Chile brilhasse no cenário internacional e que levariam Piñera a se equiparar a sua antecessora, a líder socialista Michelle Bachelet, nomeada após deixar o cargo como Alta Comissária para os Direitos Humanos das Nações Unidas.

A perspectiva de um aperto de mão com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a cúpula cancelada da APEC poderia ter lhe dado uma nova legitimidade que agora parece distante.

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