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(Arquivo) O secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper

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O secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper, que questionou o impeachment da presidente Dilma Rousseff, revelou nesta terça-feira que se reuniu ontem em Paris com o chanceler brasileiro, José Serra, numa tentativa de diminuir a tensão com o governo interino.

"Ontem tive a oportunidade de dialogar (...) com o chanceler Serra aqui mesmo em Paris. Foi um diálogo muito cordial e muito sincero sobre os pontos de vista de um lado e do outro", disse o ex-presidente colombiano (1994-1998) em uma entrevista à AFP.

O Senado brasileiro abriu no dia 12 de maio um julgamento de impeachment contra Dilma por suposta manipulação das contas públicas. A presidente foi afastada de seu cargo e substituída pelo vice-presidente Michel Temer, à espera de que o Senado determine em até 180 dias se é culpada das acusações formuladas contra ela.

Na ocasião, Samper advertiu que o julgamento poderia representar uma ruptura e expunha o Brasil à aplicação da cláusula democrática da Unasul, que contempla sanções aos países que se afastam da ordem constitucional.

O ministério brasileiro das Relações Exteriores respondeu com uma dura nota, na qual afirmava que os argumentos de Samper, "além de errôneos, deixam transparecer juízos de valor infundados e preconceitos contra o Estado brasileiro e seus poderes constituídos".

Na entrevista desta terça-feira, Samper disse que suas reservas não impediam o trabalho conjunto com o governo interino de Temer.

"Esperamos que respeitem este direito de defesa (de Dilma) e, evidentemente, enquanto isso seguimos trabalhando com o governo interino", declarou.

"Mantemos em vigor nossa preocupação, que não tem outro objetivo que não seja garantir que o desenvolvimento e o desenlace deste episódio seja um desenlace democrático e ajustado ao Estado de direito brasileiro", disse Samper.

"Expressamos isso ao chanceler Serra e ele compartilha a necessidade de que este julgamento contra a presidente seja realizado dentro do rígido respeito à institucionalidade brasileira", concluiu.

Reunião sobre a Venezuela

Samper também revelou que na próxima semana realizará uma nova reunião de mediação entre o governo e a oposição da Venezuela.

"Na próxima semana está previsto um segundo encontro" sobre a Venezuela, anunciou Samper, que participa da Semana da América Latina e Caribe organizada pela França.

"A primeira reunião foi de diálogos alternativos entre os três mediadores com o governo e a oposição. Esperamos que já na próxima semana possa haver uma reunião entre eles", acrescentou.

O secretário-geral da Unasul indicou que o papa Francisco, com quem na semana passada teve uma audiência no Vaticano, "se colocou a disposição para ajudar no que fosse necessário" para superar a grave crise na Venezuela.

Em paralelo, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, convocou nesta terça uma "reunião urgente" do Conselho Permanente da organização para discutir a situação na Venezuela, invocando a Carta Democrática Interamericana.

A oposição tramita a realização de um referendo revogatório do presidente Nicolás Maduro, mas o governo considera o processo inviável.

O país enfrenta uma grave escassez de alimentos e medicamentos, com uma inflação considerada a mais alta do mundo (180,9% em 2015 e projetada pelo FMI em 700% para 2016) e altos níveis de insegurança.

Trump 'Godzilla'

Na entrevista à AFP, Samper também equiparou a eventual eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos com "a chegada de Godzilla à política mundial".

E indicou que na Unasul, a organização que reúne os doze países da América do Sul, já existe uma reflexão sobre a eventualidade de que Trump, que só espera sua indicação formal como candidato republicano para as eleições de novembro, vença a provável candidata democrata Hillary Clinton.

"É claro (que estamos refletindo). Não apenas refletindo, mas aterrorizados, aterrorizados", disse Samper.

Trump varreu todos os seus adversários nas primárias republicanas, em uma campanha na qual não hesitou em insultar as mulheres, os mexicanos e os muçulmanos. Entre suas promessas figuram a construção de um muro na fronteira mexicana, fazendo o México pagar por ele, e expulsar dos Estados Unidos 11 milhões de imigrantes ilegais, em sua maioria de origem latino-americana.

"Acredito que (Trump) representa o que existe de mais mesquinho na política americana", disse Samper, também comparando o magnata ao best-seller dos anos 1950 (adaptado ao cinema) "Quando Irmãos se Defrontam", que satiriza a arrogância e a incompetência de um diplomata americano em uma intervenção militar no sudeste asiático.

Trump "representa todos os capítulos deste livro", disse Samper.

AFP