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Foto tirada em 24 de maio de 2017 mostra funcionárias sociais cuidado de bebês na Jusarang Community Church, em Seul

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Nas imagens das câmaras de segurança é possível ver uma mulher subir as escadas com passos inseguros, abrir uma portinhola em um muro decorado como o de uma creche e deixar seu bebê.

A mulher vai embora, e em nenhum momento olha para trás. Provavelmente, não voltará a ver o bebê que acaba de deixar na "roda dos enjeitados" de Seul.

A Coreia do Sul, país destruído pela guerra (1950-1953) conseguiu se erguer de forma espetacular à posição de quarta economia do continente.

E durante um tempo foi um dos principais países onde os estrangeiros encontravam crianças para adotar. A pobreza e a escassa regulamentação, em um país conservador no que diz respeito às linhagens familiares "puras", onde se cultiva a ideia de uma homogeneidade étnica, fazem deste um lugar onde as crianças indesejadas são legião.

Desde a década de 1950, 110.000 crianças sul-coreanas foram adotadas nos Estados Unidos.

Mas, paradoxalmente, as mudanças legislativas destinadas a reforçar os direitos das crianças tiveram como resultado um aumento dos abandonos e das entradas em orfanatos, ao mesmo tempo em que a quantidade de adoções diminui.

Assim como a mulher gravada pelas câmeras de segurança, mais de 1.000 sul-coreanos abandonaram seus filhos desde 2010 na "roda dos enjeitados".

Trata-se de um nicho retangular com temperatura controlada em um muro de uma casa de dois andares que foi transformada por uma pequena igreja de Seul em abrigo para bebês abandonados.

Os administradores do local cuidam dos bebês por alguns dias e depois os levam a orfanatos.

- Cordão umbilical -

O mecanismo, controverso, garante o anonimato e permite que o abandono seja feito nas melhores condições de segurança e higiene possíveis.

Em média, quatro bebês chegam por semana, alguns ainda com o cordão umbilical.

O pastor Lee Jong-Rak, da igreja da comunidade de Jusarang, um bairro popular no sul da capital, criou o dispositivo em 2010, após ficar sabendo que os bebês eram abandonados nas ruas.

"Algumas adolescentes dão à luz em casas vazias ou em banheiros públicos. Vestem o bebê e o trazem para nós", conta à AFP.

Um dia chegou um bebê coberto de terra. Seu pai tinha decidido enterrá-lo vivo, lembra. "A mãe, ao ver a primeira pazada, não aguentou e resgatou o bebê", comentou.

Os sul-coreanos que não desejam ficar com seus bebês podem entregá-los às agências de adoção, deixando um consentimento por escrito. Até pouco tempo atrás, as agências não checavam a veracidade das informações dadas.

Mas em 2012 uma lei proibiu estritamente as agências de aceitarem bebês sem os documentos necessários e exige que as adoções sejam decididas pela justiça.

- Vazio jurídico -

O objetivo era se adaptar à Convenção de Haia de 1993 sobre a proteção das crianças, cujas metas incluem permitir aos adotados poder um dia encontrar seus pais biológicos.

Em 2010, quando a "roda" foi instalada, quatro bebês foram depositados. Em 2013, foram 224.

Isso se deve, principalmente, à situação das mães solteiras pobres, visto que criar um filho sozinha na Coreia do Sul continua sendo um fator de exclusão.

A "roda" funciona em um vazio jurídico. As autoridades não podem aprová-la, mas também não a condenam, já que esta permite objetivamente salvar bebês, reconhece Kim Hye-Ji, responsável do Ministério de Assuntos Sociais.

A lei de 2012, que endureceu as obrigações sobre a adoção, reduziu em três quartos as adoções por estrangeiros, passando de 916 a 236 em 2013.

As autoridades sul-coreanas esperam ratificar, no final do ano, a Convenção da Haia, segundo a qual as crianças devem ser adotadas de preferência em seu país de origem.

Também regularão todas as etapas do processo de adoção: entender as razões do abandono, avaliar os pais que querem adotar e se assegurar de que, uma vez adultas, as crianças possam encontrar suas famílias de origem.

Cho Tae-Seung, colega do pastor Lee, teme que toda esta regulamentação incite ainda mais as mães a se desfazerem de seus filhos de forma ilegal e perigosa.

"É muito difícil encontrar um equilíbrio entre as normas de adoção internacionais e a realidade", aponta.

AFP