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A presidente brasileira Dilma Roussef, em Brasília, no dia 24 de junho de 2015

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Aliado estratégico da Venezuela na região, o governo de Dilma Rousseff observa com cautela a situação política do país caribenho, e guarda um silêncio "inexplicável", segundo a oposição, que aproveita sua suposta passividade para armar outra frente de batalha.

"Quem cala, consente. O silêncio do Brasil é constrangedor e imoral", afirmou nesta semana Aécio Neves, para quem a prisão de opositores na Venezuela é uma "causa humanitária".

A Venezuela atravessa um período de turbulências, com políticos e estudantes contrários ao governo de Nicolás Maduro presos, em meio a uma queda acentuada das receitas do petróleo e da insatisfação popular com a disparada da inflação e a escassez de produtos básicos.

Liderado por Aécio, um grupo de senadores da oposição e da base aliada do governo viajou na semana passada a Caracas para pedir a libertação dos opositores.

Os parlamentares pretendiam visitar o líder radical Leopoldo López na prisão. Mas a comitiva brasileira não pôde chegar à prisão devido a protestos pró-chavistas que impediram sua passagem e a manifestantes que atacaram o veículo em que eles estavam.

Cinco horas depois de aterrizar, tiveram que voltar atrás e retornar ao Brasil.

O episódio acendeu o debate e colocou novamente o governo Dilma na berlinda: por que não condena as detenções na Venezuela?

Intervir, às vezes

"O cálculo estratégico do Brasil está preso a esta leitura: [o país] tem uma aliança estratégica com a Venezuela na América do Sul e deve ter cuidado com as posições que adota", explicou à AFP Thiago Gehre Galvão, doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.

Segundo essa lógica, para Gehre, pode-se esperar que o Brasil canalize suas ações através dos blocos regionais Mercosul e Unasul, para "blindar-se politicamente" e evitar um confronto direto com seu parceiro.

"Mas o silêncio não significa despreocupação", apontou. "O Brasil tem uma visão sistêmica da região e sabe que qualquer tipo de problema na vizinhança lhe afetará", acrescentou.

Dilma chegou a manifestar, em entrevista à CNN, em abril, seu desejo de que Venezuela liberte aos políticos opositores presos, mas em nenhum momento criticou explicitamente o governo de Nicolás Maduro.

Em um diálogo mais recente com a televisão alemã, voltou a defender sua intenção de manter a não interferência: "No Brasil não somos golpistas. Não somos a favor de interferências e intervenções em países irmãos".

Essa afirmação lhe valeu reclamações sobre a postura adotada pelo Brasil quando o ex-presidente do Paraguai Fernando Lugo (2008-2012), também de esquerda, foi destituído de forma sumária pelo Congresso.

Em represália, Argentina, Brasil e Uruguai suspenderam temporariamente o Paraguai do Mercosul, aproveitando sua ausência para incluir a Venezuela no bloco, uma decisão à qual o Paraguai era contra.

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, criticou nesta sexta-feira o modo como a Venezuela entrou no bloco e a "contaminação da política exterior com a ideologia". "O Mercosul deixou de ser um bloco comercial para se transformar em um bloco político", argumentou.

"A tempestade perfeita"

A chancelaria brasileira ressaltou que pediria explicações a Caracas sobre os "atos hostis" sofridos pelos legisladores brasileiros durante sua viagem. No entanto, as reações não passaram dali, tanto do lado brasileiro como do venezuelano.

"Houve um incidente diplomático muito sério e nossa resposta foi muito tímida", disse à AFP Rubens Barbosa, que foi embaixador do Brasil em Londres e Washington entre 1994 e 2004.

"Em circunstâncias normais, o Brasil teria chamado o embaixador em Caracas para consultas", opinou. "Mas o país se relaciona com a Venezuela com base em uma visão ideológica de afinidade com o governo", lamentou.

Na quinta-feira, outra comitiva de legisladores brasileiros, desta vez de governistas, viajou à Venezuela para se reunir-se com representantes do governo, da oposição, e até com as esposas dos líderes presos.

Durante a visita, quatro senadores, liderados por Lindbergh Farias (PT), se reuniram com dirigentes do partido Vontade Popular, chefiado pelo líder opositor radical Leopoldo López, preso há 16 semanas e acusado de incitar a violência em protestos antigovernamentais que deixaram 43 mortos entre fevereiro e maio de 2014.

Também participaram da reunião Lilian Tintori, esposa de López, e Mitzy Capriles, esposa de Antônio Ledezma, prefeito de Caracas detido em 19 de fevereiro deste ano por suposta conspiração, que cumpre prisão domiciliar desde abril.

Os senadores também conversaram com membros da Mesa da Unidade Democrática (MUD), coalizão opositora ao governo de Nicolás Maduro, e com vítimas das chamadas "guarimbas" (bloqueios de ruas e protestos violentos) durante 2014.

"Nossa viagem foi sofrida. Eles agora surfam na onda preparada", ironizou um dos senadores da oposição, que denunciou um "tratamento VIP" à comitiva pró-governo.

"É a tempestade perfeita", avaliou Gehre. "Com sagacidade, a oposição está aproveitando a conjuntura crítica da Venezuela "para criar um novo campo de batalha política contra o governo".

AFP