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Centenas de pessoas exibem cartazes e fotos de vítimas, em Buenos Aires

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Centenas de pessoas, entre elas familiares das vítimas e sobreviventes do atentado contra a associação mutual judaica AMIA em Buenos Aires, em 1994, recordaram com o soar de sirenes e na ausência de funcionários do governo os 20 anos do ataque, que deixou 85 mortos e 300 feridos.

O ato oficial foi convocado pela liderança da comunidade judia e ocorreu às 09H50 local (mesmo horário de Brasília), no momento em que a bomba explodiu em 18 de julho de 1994 em Once, tradicional bairro comercial judeu de Buenos Aires.

Diante da reconstruída sede da Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), os oradores renovaram seu pedido de justiça em memória das vítimas e as críticas ao governo de Cristina Kirchner.

Ralph Thomas Saieg, vice-presidente da AMIA, criticou as autoridades que pouco fizeram nos últimos anos para esclarecer a origem do atentado.

Cristina Kirchner não assiste aos atos pela data desde 2011, como não fará este ano, segundo o chefe de gabinete da presidência Jorge Capitanich, que deu como desculpa para a ausência a visita do presidente chinês ao país.

O papa Francisco, por sua vez, pediu que se faça justiça em uma mensagem em que também classifica o ataque à AMIA "como uma loucura".

"Nos 20 anos da tragédia da AMIA, quero fazer chegar minha proximidade à comunidade israelense argentina e a todos os familiares das vítimas, sejam judeus ou cristãos", afirmou o papa em uma mensagem gravada no celular do diretor do Congresso Judeu Latino-americano, Claudio Epelman, transmitida no ato oficial em Buenos Aires.

"O terrorismo é uma loucura. O terrorismo somente sabe matar, não sabe construir, só destrói", afirmou ainda.

Críticas ao governo

A liderança da comunidade judia, que com 300.000 membros é a maior da América Latina, rejeitou categoricamente um memorando que o governo assinou em 2013 com o Irã, país que a Argentina acusa de ser o autor intelectual do ataque, apesar das negativas de Teerã.

A justiça argentina atribuiu o atentado à ação de oito iranianos, entre eles o ex-ministro da Defesa Ahmad Vahidi, o ex-presidente Ali Rafsanjani (1989-1997) e o ex-conselheiro cultural iraniano na Argentina Moshen Rabbani.

Sem presos e com o caso paralisado, a Argentina aceitou assinar um memorando com o Irã para acertar a formação de uma comissão investigadora formada por especialistas de outros países.

O acordo, que o governo defende como a única forma de avançar em uma causa judicial estancada desde 2006, autoriza o juiz argentino encarregado da causa a viajar a Teerã para interrogar os ex-funcionários iranianos acusados por Buenos Aires.

O convênio foi aprovado pelo Congresso argentino, de maioria governista, mas foi declarado inconstitucional por uma Câmara Federal.

As organizações de familiares das vítimas criticam a direção judaica, que, por sua vez, também está dividida.

O grupo Memória Ativa convocou seu ato diante dos Tribunais, pela primeira vez na mesma hora do ato oficial, já que acusa a liderança judia de ter "ajudado a encobrir o atentado".

A Associação 18J, por sua vez, apoiou o memorando com o Irã e convocou um ato para as 13H00 na Plaza de Mayo, enquanto que a Apemia (Agrupação pelo Esclarecimento do Massacre Impune da AMIA), a mais radical, fará seu ato às 18H00 diante do Congresso.

A Apemia exige do Estado a abertura dos arquivos para esclarecer o atentado, e promove a formação de uma comissão investigadora da verdade, com especialistas e autoridades, "para superar 20 anos de impunidade".

Em 2004, vários policiais acusados de dar apoio logístico para realizar o atentado foram absolvidos em um julgamento com irregularidades grosseiras e que terminou com a exoneração do juiz Juan Galeano.

Outro acusado, o advogado Carlos Telleldín, um ex-informante da polícia vinculado a grupos de ultra-direita, também foi absolvido, mas voltará ao banco dos réus por homicídio qualificado, segundo uma decisão de Ariel Lijo, o atual juiz encarregado do caso AMIA.

Desde março de 2012, espera-se a data do julgamento contra o ex-presidente Carlos Menem (1989/99), acusado de "acobertamento qualificado" da chamada "conexão local".

AFP