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(A partir do topo) Ludmila Profit, David Goeppinger, Stephanie Zarev e Laura Leveque

(afp_tickers)

Desde que foi "sepultada" sob uma montanha de corpos na casa de shows parisiense Bataclan, Laura Levêque tem a "impressão de carregar sobre os ombros o peso de 130 cadáveres". "Logo, por que não deixar marcado na pele?", questionou a si própria.

Assim como ela, dezenas de sobreviventes dos atentados em 13 de novembro de 2015, em Paris, fizeram tatuagens com os objetivos de "nunca esquecer" a fatalidade e "voltar a aprender a viver".

"Fiquei coberta de sangue e (pedaços de) carne. Os mortos entraram em mim", disse à AFP. Porém, suas tatuagens ajudaram essa mulher, atualmente com 32 anos, a "recuperar o seu próprio corpo" e a "transformar o (momento) pavoroso em algo belo".

Agora, ela exibe um enorme corvo no ombro, rodeado de pequenos desenhos que remetem a um eclipse, além de uma ouroboros, uma cobra mordendo a própria cauda, que simboliza o "ciclo da vida", e "flores que crescem em um campo de batalha".

Três meses após a carnificina a que sobreviveu com apenas 19 anos, Nahomy Beuchet carrega em seu braço um desenho do Bataclan, acompanhado da data do ataque e das palavras "Peace, Love, Death Metal", que pode ser traduzido em português para "Paz, Amor e Metal (rock)".

Esse é o nome de um álbum do Eagles of Death Metal, a banda californiana que se apresentava no Bataclan quando os responsáveis pelo ataque entraram no local e massacraram 90 pessoas.

Para a jovem de 21 anos, que considera atualmente o tempo como sendo "um pouco abstrato", a tatuagem é "uma âncora histórica".

- 'Minha cicatriz' -

"Essa é a minha cicatriz", disse Manon Hautecoeur a respeito do leão e o emblema de Paris "Fluctuat nec mergitur" ("Atingida pelas ondas, mas não afundada"), que exibe em seu braço.

"Quando as suas feridas são 'apenas' psicológicas, você tem a impressão de não ser realmente uma vítima porque não possui lesões físicas", explica essa jovem de 20 anos que estava próximo ao restaurante Petit Cambodge, local também alvejado pelos terroristas.

David Fritz Goeppinger, que sobreviveu ao Bataclan, sente o mesmo. "Não estava ferido. Precisava de algo", conta esse jovem de 25 anos, que agora tem marcado em seu braço numerais romanos que representam a data do atentado.

Alexandra, uma sobrevivente cujo sobrenome preferiu omitir, foi atingida por um tiro em seu cotovelo quando estava no bar Carillon, em frente ao Petit Cambodge. Depois de retirada a bala que a feriu, também decidiu tatuar o emblema de Paris próximo a sua cicatriz.

Ruben, que desde julho faz parte do grupo que possui uma tatuagem do emblema da capital francesa, passou seis meses hospitalizado. "Queria ter algo registrado, mas sem que fosse algo que dissesse 'estive no Bataclan'".

"A tatuagem é uma forma de modificar a pele, (passar por uma) metamorfose", acrescenta David Le Breton, um sociólogo especialista em arte corporal. Permite que as pessoas possam "se reapropriar da tragédia, homenagear os mortos e deixar registrado o fato de que estiveram muito próximas à morte".

Stephanie Zarev, 44 anos, tem uma fênix tatuada ao braço no qual foi atingida por partes de uma bomba de estilhaços, feita para mostrar que "apesar do terror existente naquela noite, ainda há muito para se viver".

- 'Iluminar minhas feridas' -

Sophie foi atingida por duas balas em uma perna e atualmente não consegue mover o pé. Ela tatuou em sua coxa uma enorme e esquelética "Catrina", a tradicional caveira mexicana, além de um girassol no pé.

"Eu não quis sublimar minhas feridas, mas sim iluminá-las", relatou a mulher de 33 anos.

Maureen, que desde a tragédia faz um trabalho fotográfico sobre as tatuagens do grupo de sobreviventes 'Life for Paris', levou um tempo até decidir entrar na lista dos tatuados. Carrega na lateral do seu tronco a seguinte frase: "Sobreviver: renascer, crescer e morrer mais tarde".

Floriane Beaulieu nunca esquecerá como foi afortunada em conseguir sair do Bataclan, e por isso decidiu tatuar um trevo de quatro folhas, uma pomba da paz e "a palavra 'esperança', escrita dentro de um símbolo do infinito".

"Era uma sexta-feira 13, éramos 13 amigos presentes no show, e todos nós sobrevivemos", relembra Ludmila Profit, 24 anos, que já tinha um trevo tatuado atrás da orelha. Depois do ataque, adicionou o número 13 e a palavra 'Fuck' para dizer "fodam-se os terroristas" e mostrar seu "orgulho de poder viver por aqueles que não estão mais aqui".

Além dos sobreviventes, aqueles que perderam familiares no ataque também acabaram se rendendo às agulhas.

Florence Ancellin fez uma cenoura em seu tornozelo, junto ao apelido de sua filha Caroline, que tinha apenas 24 anos ao morrer no atentado.

Os três filhos de Maryline Le Guen, com idades entre 15 a 29 anos, foram todos ao Bataclan. O mais velho, Renaud, não retornou do show. Passado um mês do ataque, Le Guen tatuou em árabe o nome dele, "para que possa tê-lo sempre comigo", contou.

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AFP