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Manifestação dos índios mapuches em Santiago do Chile, no dia 12 de outubro de 2015

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Mais de 200 caminhões e dezenas de templos religiosos queimados nos últimos quatro anos: o sul do Chile arde em meio ao conflito não resolvido com os indígenas mapuche, que se sentem como filhos "bastardos" em um país que não reconhece seus direitos.

Vinte e nove caminhões florestais foram incendiados na madrugada de segunda-feira na região de Los Ríos, no sul do Chile, em uma ação qualificada de "atentado" pelas autoridades de Santiago.

Outras 18 máquinas arderam 10 dias antes na região de Araucanía em ataques reivindicados pelo "Weichan Auka Mapu", ou "Luta do território rebelde", um novo grupo mapuche radical.

Enquanto os grupos empresariais falam de "terrorismo" - 209 caminhões foram queimados na zona desde 2013 -, os mapuches reivindicam a restituição de terras que consideram suas por direitos ancestrais, e que hoje estão nas mãos de empresas florestais.

"A problemática sempre está latente e, portanto, de tempos em tempos as pessoa se manifestam contra estas empresas", disse à AFP o "lonko", ou chefe mapuche, Juan Pichun.

As empresas florestais "chegaram arrasando tudo e dentro da cosmovisão mapuche isso alterou questões como o uso das ervas medicinais e os locais sagrados. Hoje em dia há a questão da falta d'água e a mudança climática que está gerando nas florestas a monocultura do pinheiro", acrescentou Pichun.

Os empresários, por sua vez, pedem a intervenção do governo para mediar este conflito centenário sob pena de convocar uma greve nacional.

"Pedimos novamente ao governo que use todas as ferramentas que tenha em mãos para acabar com o flagelo do terrorismo no sul do Chile", alertou o presidente da "Multigremial de la Araucanía", Luciano Rivas.

- Gente da terra –

Os mapuches, "gente da terra" em sua língua nativa, foram os primeiros habitantes do Chile e de parte da Argentina. Lutaram contra os conquistadores espanhóis até que, no final do século XIX, foram submetidos pelo Exército chileno à chamada "pacificação de Araucanía".

Reduzidos a 700.000 pessoas, dos 17 milhões de habitantes do Chile, em sua maioria moram em pequenas comunidades nas regiões da Araucanía e Los Ríos, a 600 quilômetros ao sul de Santiago.

Embora nos últimos dois anos a pobreza nos povoados originários tenha caído de 23,4% para 18,3%, continua sendo mais alta do que no resto da população, 11%, segundo dados oficiais.

Sobre as terras, menos de 15% do solo da região da Araucanía está nas mãos de comunidades mapuche e outros 20% pertencem a empresas florestais. Cerca de 100.000 pessoas, em sua maioria mapuche, sofrem com a falta d'água para o uso básico em diferentes zonas rurais devido ao impacto da monocultura e à mudança climática, segundo a Rede de Defesa dos Territórios.

Há dois meses, ao apresentar um plano integral para a região da Araucanía, a presidente Michelle Bachelet reconheceu que o país "falhou" com povo mapuche e pediu perdão "pelos erros e horrores" cometidos, em uma tentativa de começar a saldar uma velha dívida com a maior etnia chilena.

O plano inclui a criação de um Ministério de Povos Indígenas e de um Conselho de Povos Indígenas, além de oficializar o uso do mapudungún, a língua mapuche, na região da Araucanía, assim como estabelecer o 24 de junho o Dia Nacional dos Povos Originários.

Em relação à restituição de terras, um comitê interministerial atualizará o cadastro e águas indígenas. Nos últimos 25 anos foram comprados, subsidiados ou regularizados quase 230.000 hectares de terras ao povo mapuche, donos de boa parte do território chileno até a chegada dos espanhóis.

Uma solução que não é suficiente para os mapuches.

"Enquanto não existir uma responsabilidade pelos danos que causaram às florestas haverá uma indignação não apenas dos mapuches, mas da população em geral", disse o lonko Pichún.

Também querem ser reconhecidos como povo na Constituição do país, uma velha dívida que não foi saldada em quase três décadas de democracia.

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AFP