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O chefe da delegação das Farc nos diálogos de paz, Iván Márquez, em Havana, no dia 14 de abril de 2016

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O suposto dinheiro escondido das Farc está no centro dos debates na Colômbia nos últimos dias, depois que reportagens atribuíram à guerrilha uma fortuna milionária, sobre a qual as autoridades não têm provas, mas que seria estratégica para indenizar as vítimas.

A recente publicação de um artigo na revista britânica The Economist, que, com base em estimativas oficiais, calculava que em 2012 as Farc tinham guardados 10,5 bilhões de dólares, pôs o país a discutir a respeito dos supostos bens e ativos desta guerrilha, que está na reta final de negociações de paz com o governo.

Especialistas e fontes próximas ao governo consideraram esta cifra exagerada, mas não duvidam que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc, marxistas) possam ter acumulado em mais de meio século de conflito um capital importante que, apesar de sua origem ilícita, poderia ser usado para implementar um eventual acordo de paz.

Quando a polêmica veio à tona, o presidente Juan Manuel Santos disse não haver "a menor dúvida de que possivelmente (as Farc) estão guardando dinheiro em algum lugar". Mas assegurou que "o governo não tem esta informação", apesar de tê-la procurado.

Para Gustavo Duncan, estudioso da relação guerrilha-narcotráfico, "a estimativa dos recursos das Farc será sempre especulativa" e, além de quantos recursos tenham, para o governo e a sociedade colombiana, "o que importa é a disponibilidade destes recursos no âmbito da negociação" de paz.

"Que este dinheiro sirva para reparar vítimas e não para aumentar fortunas pessoais" de líderes guerrilheiros, disse à AFP Duncan, professor da Universidade EAFIT, na Colômbia.

As Farc, no entanto, negam ter cifras milionárias de dinheiro e seu chefe nas negociações de paz, Iván Márquez, escreveu a esse respeito no Twitter: "Que pífia a The Economist. Deveria revisar suas fontes e não acreditar em histórias sobre fortunas imaginárias da insurgência".

"Um problema ético-moral"

O professor da Universidade Externado da Colômbia, Frederic Massé, disse à AFP que "seria importante que as Farc declarassem o que têm porque a posição deles de dizer que não têm nada, que são pobres, também parece exagerada pois se sabe que viveram do sequestro, da extorsão e do narcotráfico".

"Quanto mais disserem a verdade, mais legitimidade vão ganhar a médio e longo prazo, isto é, se continuarem mantendo segredos e não disserem tudo o que têm, acho que a população vai continuar pensando que as Farc a enganou de alguma maneira", disse Massé, especialista em solução de conflitos e negociações de paz.

"Estamos diante de um problema ético-moral e se quiserem realmente ganhar votos de forma democrática (após assinar a paz e se desmobilizar), deveriam realmente por as cartas na mesa e dizer o que têm", sentenciou.

Declarados ou não, já são muitos os que estão atrás do dinheiro desta guerrilha - que pode estar enterrado nas montanhas ou investido em bens no exterior - e autoridades nacionais e estrangeiras já o deixaram claro.

"Se as Farc cogitarem em ficar com alguma coisa, que obviamente terá sido adquirida de forma ilegal, o Estado vai utilizar todas as ferramentas (...) para apreendê-la", disse dias atrás, durante um fórum, o Alto Comissário para a Paz e negociador do governo com as Farc, Sergio Jaramillo.

O procurador Jorge Perdomo também afirmou que desde que começaram os diálogos com as Farc em Cuba existe "uma linha investigativa que tem a ver precisamente com o financiamento" desta guerrilha.

"Temos informação sobre investimento e bens (das Farc) no exterior, na América Central sobretudo", disse esta semana.

Até os Estados Unidos estão atrás desse dinheiro: o embaixador americano na Colômbia, Kevin Whitaker, afirmou na quarta-feira que seu país tem muitas ferramentas para colaborar com as autoridades colombianas "para buscar qualquer recurso da guerrilha".

Isto é importante porque as Farc "fizeram vítimas e têm a responsabilidade de repará-las", disse a jornalistas.

A Colômbia vive há mais de meio século um conflito armado que começou como um levante camponês nos anos 1960 e já deixou 260.000 mortos, 45.000 desaparecidos e 6,8 milhões de deslocados.

AFP