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A estrela nigeriana do afropop, Phizbarz, no dia 26 de abril de 2017

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Aos 23 anos, Phizbarz torce para virar a próxima estrela do popular afropop nigeriano, e para tornar seu trabalho conhecido e ganhar a vida, utiliza a telefonia móvel, o maior distribuidor de música da Nigéria.

Twitter, Facebook, Instagram... O jovem de Lagos inunda as redes sociais com seus vídeos, em que aparece de rapper cercado por dançarinas atraentes ou vestido de xeique com joias de ouro.

Na Nigéria, os artistas reclamam há tempos da falta de um mercado estruturado, impotentes diante do alcance da pirataria que representa a maior parte da venda de discos. Nas ruas de Lagos, a capital econômica da Nigéria, as cópias de discos são vendidas a carros entre os pacotes de bala, cigarros e DVDs das últimas estreias do cinema, igualmente pirateados.

Phizbarz ganha apenas "50.000 nairas (163 dólares) por mês", um salário "decente" para um artista novo, segundo ele, tirado do que recebe graças à telefonia móvil. Ele nunca produziu um álbum, mas compôs uma centena de canções que se transformaram em melodias de chamada para as operadoras telefônicas. Elas são vendidas por unidade e são parte dos lucros, de cerca de 60%, a ser compartilhados com sua gravadora.

Na capital africana da engenharia e da criatividade, "você tem que impressionar se quiser existir", explica o jovem artista, que recorre às ruas da efervescente Lagos em uma Mercedes vermelha brilhante, emprestado por sua manager.

- Boom da internet móvel -

Há três anos, existe uma revolução na indústria musical nigeriana, graças às vendas digitais e sobretudo à telefonia móvel, gerando receitas que não param de crescer.

"No momento a indústria musical vale 43 milhões de dólares em 2015, mas essa cifra deve duplicar-se para 2020", segundo o relatório do escritório PricewaterhouseCoopers (PwC) publicado no final de 2016.

Esses bons resultados se devem à forte penetração da internet móvel no continente, que explodiu nesses últimos dez anos principalmente nos "dragões" africanos (Nigéria, Quênia e África do Sul), estimulando todo o setor do entretenimento.

Enquanto na África do Sul, mais comparável ao mercado europeu, os downloads 'online' e o 'streaming' impulsionam o crescimento da indústria musical, a Nigéria é um exemplo disso: "as receitas da música dependem das melodias e da música de espera", afirma PwC.

Agora, os operadoras oferecem download pelo smartphones de novos ritmos da cena musical por poucas nairas.

- 'Una fórmula de sucesso' -

As operadoras -com a gigante sul-africana MTN na liderança - detectaram o potencial da Nigéria, país de 190 milhões de habitantes onde a música é quase uma religião.

Com mais de 60 milhões de assinantes em todo o país, a MTN se apresenta como "a maior distribuidora de música", por meio da venda de melodias (a 50 nairas, 0,25 dólares a unidade), e por su plataforma de download "MTN Music Plus", que compete com os líderes mundiais da música 'on-line' como o iTunes.

"Há muitos músicos com talento no mercado -(...) que não conseguem vender sua música. Nós permitimos que eles rentabilizem seu trabalho", explica à AFP Richard Iweanoge, diretor-geral de marketing da MTN Nigeria.

"É uma fórmula de sucesso", disse, sem revelar os lucros para a MTN. "Na verdade, os nigerianos tinham vontade de comprar música, mas não tinham os meios para fazer isso legalmente", acrescentou.

- Glamour e marca -

Grandes estrelas do afropop nigeriano, como D'banj e Davido, se beneficiaram enormemente desse novo mercado. Segundo a PwC, um único download pode gerar até 350.000 dólares por ano.

O sucesso ultrapassa as fronteiras nacionais. A produção dos artistas nigerianos é feita na Europa e nos Estados Unidos. Eles são cada vez mais seduzidos pelas gravadoras americanas e seus 'hits' são reproduzidos em casas noturnas de Johannesburgo a Cotonou, passando por Kinshasa.

O sucesso de Wizkid, um rapaz dos bairros populares de Lagos que recentemente assinou contrato com a Sony Music, "inspira milhões de nigerianos", conta Sam Onyemelukwe, diretor-geral da Entertainment Management Co.

"Em um país onde os jovens não encontram trabalho e não sabem o que fazer com suas vidas, todos querem se tornar cantores, ter um monte de namoradas e comprar um jatinho privado: é glamour", revela Onyemelukwe.

Mas embora "qualquer um possa gravar uma canção por milhares de nairas e vendê-la na internet - há talvez um milhão de 'artistas' na Nigéria-, muito poucos conseguem" triunfar, afirma.

O jovem Phizbarz sabe disso muito bem. Sem descanso, o artista continua publicando fotos e vídeos nas redes sociais, invade os pequenos palcos locais e os estúdios de rádio, com a esperança de atrair a atenção dos "ogas" (grandes) da música.

Porque se quiser ser famosos e ganhar dinheiro, o cantor sabe que deverá vender suas músicas, mas também "vender sua marca". "É preciso conhecer muitos "managers", apresentadores de rádio. Mesmo que o seu som seja bom, o que conta primeiro é quem você conhece na indústria: é negócio", diz perspicaz.

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