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O presidente brasileiro, Michel Temer, em São Paulo, em 4 de abril de 2017

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O presidente Michel Temer aposta o legado de seu turbulento governo na aprovação do programa de reformas econômicas liberais enquanto o país prossegue sendo bombardeado pelas revelações de corrupção na política.

Temer tenta conduzir as negociações no Congresso, mas as coisas mudaram drasticamente desde que o STF autorizou a abertura de investigações baseadas nas delações de dezenas de executivos da Odebrecht, que comprometeram a situação de oito de seus ministros, 29 senadores e 42 deputados.

Já em condições normais, realizar reformas trabalhistas na Previdência já não seriam projetos fáceis de promover, mas, em meio à pior recessão da história e com praticamente uma geração política inteira sentada no banco dos réus, o trabalho é muito maior.

O governo teve assim de suavizar suas propostas de reforma previdenciária ante as resistências de sua própria base aliada e da pressão dos sindicatos.

A Câmara de Deputados apresenta divergências na hora de discutir as mudanças trabalhistas e não dá garantias para Temer, que conseguiu aprovar até agora praticamente todos os projetos que enviou ao Congresso.

"A sociedade brasileira não comprou as reformas", resumiu à AFP Sylvio Costa, chefe do portal Congresso em Foco.

- Legado -

Com a maioria do parlamento ainda a seu favor, Temer pretende salvar suas reformas ainda que às custas de remendos grosseiros.

"Meu governo não vai se beneficiar de nada disso. Me resta um ano e oito meses de governo, isso é para o futuro", declarou o presidente em uma entrevista ao canal SBT.

Reforçar a economia com mudanças estruturais que exigem um grande apoio parlamentar tem sido prioridade do governo Temer.

Ele já conseguiu uma emenda constitucional para congelar os gastos públicos por 20 anos e agora pretende aprovar outra para fixar a idade mínima para a aposentadoria de 65 anos para os homens e 62 para as mulheres.

Essas duas medidas, junto a uma lei trabalhista para ampliar o poder dos acordos coletivos e eliminar a contribuição obrigatória aos sindicatos, seriam o legado de uma presidência que começou com o impeachment de Dilma Rousseff.

Mas Temer não é o único pensando no futuro.

Com vários políticos já presos por corrupção, as eleições de 2018 ganham uma importância sem precedentes.

O Brasil renovará 100% de seus 513 deputados e dois terços de seus 81 senadores, e muitos já estão avaliando suas reais chances de serem eleitos de olho no foro privilegiado que garantia o julgamento de alguns pelo STF, um processo muito mais lento do que na justiça comum.

"É um problema para o governo. Reduz fortemente sua legitimidade e sua capacidade de ação. Cada legislador está pensando muito na hora de apoiá-lo, porque talvez um apoio a uma reforma como a da Previdência pode custar seu mandato", explica Costa.

- Paralisia -

O próprio Temer tem seu nome citado em um dos vídeos com as delações da Odebrecht e, embora esses testemunhos não configurem uma prova ainda, a menos que a justiça assim determine, o veredicto social não se prende a tecnicismos.

Temer se viu obrigado a negar que tenha discutido uma contribuição de 40 milhões de dólares de origem duvidosa para aseu partido e também defendeu o Congresso.

"Há muita gente boa no Congresso, que colabora e que permitiu que este governo fizesse o que fez nesses 11 meses", resumiu.

Enquanto isso, o Brasil contabiliza um assustador déficit fiscal de quase 50 bilhões de dólares.

"Não podemos paralisar os trabalhos do Congresso. A Justiça deve cumprir seu papel e nós o nosso, que é votar e deliberar sobre questões importantes das quais depende o futuro do país", afirmou à AFP o deputado Carlos Marun, presidente da comissão de reforma das aposentadorias e aliados de Temer.

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