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O presidente Michel Temer, no dia 18 de maio de 2017, em Brasília

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O presidente Michel Temer se agarrava nesta quinta-feira ao cargo, apesar das graves acusações de corrupção surgidas contra ele, e a debandada de sua base aliada, que já impulsionou a primeira baixa em seu gabinete: a do ministro da Cultura.

"Não renunciarei, repito, não renunciarei!", exclamou o chefe de Estado, em pronunciamento à nação, depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a abertura de um inquérito sobre as denúncias surgidas na véspera.

Temer foi gravado por um empresário quando supostamente dava o seu aval ao pagamento de propina para comprar o silêncio do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e para seu homem de confiança, ambos presos durante a Operação Lava Jato. A gravação foi entregue à Justiça.

O presidente, com a popularidade em baixa, assegurou ser inocente e reivindicou "o otimismo" gerado por sua gestão, que pretende tirar o Brasil da pior recessão de sua história a partir de medidas de austeridade e de reformas conservadoras.

O mandatário citou melhoras nas cifras de inflação, de desemprego e do iminente crescimento, após um retrocesso do PIB de 3,8% em 2015 e 3,5% em 2016, desde que há um ano assumiu o poder.

Mas uma "conversa gravada clandestinamente trouxe de volta o fantasma da crise política de proporção ainda não dimensionada", lamentou Temer.

"Não podemos jogar no lixo a história de tanto trabalho feito em prol do país", afirmou o presidente que, ao se manter no poder, conserva seu foro privilegiado evitando ser julgado pela justiça comum.

De fato, exigiu ao STF uma investigação "plena e muito rápida" para provar que não teve "nenhum envolvimento" com os feitos que lhe são atribuídos.

Enquanto os partidos que apoiam seu governo estudam se irão manter seu apoio, o ministro da Cultura, Roberto Freire, do Partido Popular Socialista (PPS), renunciou ao cargo, segundo confirmação de fontes da dependência à AFP.

Entretanto, oito deputados já apresentaram pedidos de impeachment e vários partidos, incluindo alguns que votaram pela destituição de Dilma Rousseff, se apressam para solicitar o mesmo tratamento contra Temer, que se propõe a passar o comando do país para o vencedor das eleições presidenciais de outubro de 2018.

- "Diretas já!" -

Mas nas ruas, milhares de pessoas protestaram nesta quinta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro aos gritos de "Fora Temer!" e "Diretas já!", uma expressão que mobilizou os brasileiros ao fim da ditadura militar.

"Acredito que deve haver eleições diretas já. É muito duro, porque o Brasil precisa melhorar em vários aspectos, mas a única medida razoável é que as pessoas escolham um novo presidente", disse à AFP Patricia Zerbinato, uma produtora de cinema de 44 anos, que se manifestava no Rio.

Os movimentos que levaram milhões de pessoas a pedir a saída de Dilma também pedem que o povo volte às ruas para punir os "corruptos".

Diante da incerteza, a Bolsa de São Paulo suspendeu suas operações por meia hora durante a manhã e fechou com uma queda de 8,8%. O real também caiu 7,55%, na pior desvalorização diária desde 1999.

Os mercados temem que os imbróglios políticos dificultem ou bloqueiem o avanço das reformas do sistema previdenciário e de flexibilização da legislação trabalhista propostas por Temer.

- O futuro de Temer -

A agitação judicial, política, social e econômica gera todo o tipo de especulação sobre o desenrolar desta crise.

Embora Temer tenha anunciado que não renunciará, muitos se questionam o que poderia acontecer no caso de o STF o condenar mais rapidamente do que o esperado ou de o mandatário sofrer um impeachment.

A Constituição prevê que no caso de vacância da Presidência durante a segunda metade do mandato, o Congresso prevê a escolha de um nome para completá-lo. Uma perspectiva preocupante, dado o elevado número de legisladores sob suspeita de corrupção. Existem interpretações e propostas que também permitiriam adiantar as eleições.

"Temer não tem imunidade, mas pode contar com uma proteção política mais ou menos forte, dependendo do apoio político que tenha no Congresso. Hoje, a grande pergunta é se os partidários que formam a base do governo deixarão ou não o governo", disse à AFP Thomaz Pereira, professor de Direito Constitucional da Fundação Getúlio Vargas.

Entretanto, a Polícia Federal realizou pela manhã dezenas operações em Brasília, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Vários procedimentos tinham como alvo propriedades do senador Aécio Neves, candidato derrotado na eleição de 2014 e presidente do PSDB, aliado-chave do governo Temer.

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