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A ex-procuradora-geral interina de Justiça Sally Yates, durante testemunho no Senado americano, em Washington, D.C., em 8 de maio de 2017

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Em janeiro passado, o governo de Donald Trump recebeu pelo menos duas advertências sobre os contatos entre o então conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, e funcionários russos - garantiu a ex-procuradora-geral interina Sally Yates, em testemunho no Senado nesta segunda-feira (8).

Em um esperado testemunho feito sob juramento, Yates garantiu que, seis dias depois da posse do novo governo, teve uma reunião com assessores da Casa Branca e lhes informou que Flynn estaria exposto à "chantagem" por parte da Rússia.

Um dia mais tarde, Yates participou de uma segunda reunião na Casa Branca, com os mesmos interlocutores, para discutir a situação de Flynn.

O então conselheiro foi demitido apenas 18 dias mais tarde, depois que seus contatos com o embaixador russo em Washington foram revelados pela imprensa.

Yates deu essas declarações na Comissão de Assuntos Jurídicos do Senado, que investiga a suposta interferência russa na eleição presidencial de novembro do ano passado nos Estados Unidos.

De acordo com a ex-funcionária, ela e sua equipe chegaram à conclusão de que a situação de Flynn havia se tornado crítica para a Casa Branca.

"Isso era um problema, porque não apenas acreditamos que a Rússia sabia disso, mas que também, além disso, tinha provas. E isso gerava uma situação de compromisso, no qual o conselheiro de segurança poderia ser chantageado pelos russos", declarou Yates.

A então secretária de Justiça foi demitida em 30 de janeiro, depois de fazer circular um memorando interno no Departamento de Justiça, orientando sua equipe a se distanciar do primeiro decreto presidencial com vetos ao ingresso de imigrantes e refugiados de vários países de maioria muçulmana.

"As histórias de conluio entre Rússia e Trump são uma piada total", reagiu o presidente agora à noite em uma série de tuítes, nos quais comentou essa audiência de três horas.

"Quando essa piada às custas do contribuinte vai parar?", indignou-se Trump, visivelmente incomodado com as investigações em curso no Senado, na Câmara de Representantes e no FBI (a Polícia Federal americana) sobre uma eventual "coordenação" entre algumas das pessoas próximas ao presidente e Moscou.

- Obama alertou Trump

Hoje, um ex-funcionário do governo disse à AFP que o próprio Obama chegou a advertir Trump sobre Flynn.

Obama chegou a nomear Flynn em 2012 para ficar à frente da Agência de Inteligência da Defesa, mas o presidente o removeu do cargo em 2014.

Segundo essa mesma fonte, o democrata alertou seu sucessor sobre o crescente papel de Flynn na equipe de transição, durante a reunião que tiveram no Salão Oval da Casa Branca pouco depois das eleições.

Na mesma comissão do Senado, James Clapper também prestou testemunho hoje, sob juramento. Clapper foi diretor-geral de Inteligência durante o governo Barack Obama.

No final de 2016, Clapper expressou sua convicção de que altos funcionários do governo da Rússia haviam autorizado a invasão dos e-mails do Partido Democrata e seu vazamento para afetar a candidatura presidencial de Hillary Clinton e ajudar Trump.

Em menor grau, essa convicção foi compartilhada por várias agências de Inteligência. As provas nunca foram divulgadas, porém, devido à sensibilidade do caso.

Enquanto isso, Trump recorreu à sua arma favorita - o Twitter - para atacar Yates e Clapper com mensagens que questionam a integridade dos dois ex-funcionários da gestão anterior.

De acordo com Trump, "Flynn recebeu a mais alta autorização de segurança por parte do governo de Obama".

Em outra mensagem, o republicano sugeriu aos senadores que perguntem a Yates, "sob juramento, se sabe como é que a imprensa recebeu informação 'reservada' pouco depois que ela se apresentou a funcionários da Casa Branca".

Na semana passada, Hillary Clinton disse ter certeza de que sua derrota na eleição presidencial resultou, em parte, do vazamento de e-mails de seu comitê de campanha no WikiLeaks. A iniciativa foi atribuída à Rússia.

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