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Cartazes do lado de fora do Teatro Delacorte, no Central Park, em 12 de junho de 2017

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A polêmica está aberta: o empresário loiro que vive Julio César na obra de Shakespeare apresentada estes dias ao ar livre no Central Park, e que é esfaqueado por mulheres e outras minorias, se parece muito com Donald Trump.

Depois de protestos enfurecidos da Fox News, de cidadãos e do filho de mais velho do presidente americano, Donald Trump Jr., nas redes sociais, a Delta Airlines e o Bank of America, duas grandes empresas que patrocinavam a obra do festival "Shakespeare no parque", do diretor Oskar Eutis, anunciaram no domingo a retirada de seu apoio.

A "gráfica" representação da obra "não reflete os valores da Delta", disse a companhia aérea em um comunicado. "Sua direção artística e criativa cruzou a linha do bom gosto", considerou.

Para o Bank of America, a obra pretendia "provocar e ofender". "Se tivessem nos comunicado desta intenção, teríamos decidido não patrociná-la", declarou o banco.

A Fox News informou no domingo que a obra parece representar o presidente americano "sendo brutalmente esfaqueado até a morte por mulheres e minorias". E, em um tuíte, Donald Trump Jr. se questionou sobre o financiamento da obra.

Outras cidadãos pediram nas redes sociais que fizessem doações ao Public Theater, responsável pela apresentação da obra.

A polêmica recorda o ocorrido no fim de maio, quando a comediante Kathy Griffin divulgou um vídeo em que levanta uma falsa cabeça de Trump decapitada, fazendo com que ela fosse difamada e demitida pela CNN, onde conduzia a cada ano a transmissão de Ano Novo.

O Public Theater não respondeu imediatamente um pedido de comentário da AFP.

Mas em seu site assegura que a obra de Shakespeare "nunca se sentiu mais contemporânea". Julio César possui "uma personalidade magnética, irreverente" e está "obcecado pelo poder absoluto", explica.

"Julio César versa sobre o quão frágil é a democracia", assegura Eutis no mesmo site.

"As instituições com as quais crescemos, que herdamos da luta de muitas gerações de ancestrais, podem se esvair a qualquer momento", alerta o diretor.

"Julio César pode ser lido como uma parábola de advertência para aqueles que tentam brigar pela democracia pelos meios não democráticos. Lutar contra o tirano não significa imitá-lo", afirmou.

A obra, escrita em aproximadamente 1599 e que se passa no ano 44 a.C., é apresentada em Nova York desde 23 de maio e continuará em cartaz até 18 de junho.

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