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Vítimas do conflito armado na Colômbia (E-D:) Alfonso Mora, Nelly Gonzalez, Leyner Palacios e Janete Bautista concedem coletiva de imprensa em Havana, Cuba, durante as negociações de paz

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As vítimas do conflito armado na Colômbia, que deram seu testemunho no sábado aos negociadores do governo e da guerrilha em Havana, lançaram uma mensagem comovente de reconciliação e instaram seus compatriotas a apostar na paz.

"Se nós, os que fomos afetados pela violência, damos um passo determinante (...) por que não o faz o resto do país, por que o resto da Colômbia não há de perdoar?", perguntou Constanza Turbay, que perdeu oito familiares nas mãos da guerrilha das Farc, incluindo dois irmãos e sua mãe.

Nesta comovente sessão de depoimentos, que durou quase nove horas, falaram 12 vítimas do conflito armado que já dura meio século.

Não demonstraram nem ódio, nem desejo de vingança e, apesar de terem visões políticas diferentes, declararam que tinham "disposição de unidade".

"Temos um compromisso grande com o nosso país e esse sentimento está acima dos nossos sentimentos pessoais", afirmou Angela Maria Giraldo, irmã do deputado estadual Francisco Javier Giraldo, assassinado pelas Farc em 2007, que antes o manteve sequestrado cinco anos na selva.

"Os que não apostam na paz é porque nunca viveram o que nós vivemos. Eu acredito na paz e não é justo que as pessoas que se opõem a este processo acabem com um sonho", acrescentou, embora tenha admitido que nem toda a sua família compartilha da sua posição.

"A morte afeta a todos"

Os 12 fizeram declarações semelhantes, embora tenham sido vitimizados por diferentes atores armados: guerrilha, militares, paramilitares e narcotraficantes.

"A morte afetou todos os grupos (...): levou líderes de direita, de esquerda, jornalistas, membros das forças militares até membros das forças insurgentes", disse Constanza Turbay, acrescentando que "não se justifica este derramamento de sangue".

As palavras dos 12 afetados contrastaram com a polarização vivida na Colômbia, ao começar a última semana sobre a reparação das vítimas, o ponto mais sensível das negociações de paz iniciadas em 2012.

Também com o turbulento clima da campanha eleitoral colombiana, que terminou em junho com a reeleição do presidente Juan Manuel Santos, na qual a principal polêmica foi o processo de paz.

"Acabar com o círculo da violência"

As 12 vítimas - escolhidas pela ONU, a Universidade Nacional e a Conferência Episcopal da Colômbia - pediram para que se ponha um fim ao "círculo da violência", que deixou 220 mil mortos e cinco milhões de deslocados em meio século.

Seu testemunho impactou os delegados de paz e inclusive o representante da ONU em Bogotá, Fabrizio Hochschild, um veterano que serviu nos anos 1990 como comissário para os refugiados na Bósnia-Herzegovina, devastada por um sangrento conflito étnico.

"Eu trabalho há 30 anos com vítimas em todos os continentes, em muitas situações de conflito, e esta foi uma das experiências mais comoventes", contou Hochschild à AFP.

Cada vítima teve apenas 15 minutos para relatar seu caso e apresentar suas demandas, com a esperança de que sejam incluídas em um eventual acordo de paz.

Mas esclareceram que buscam reparação moral, não dádivas.

"Não estamos aqui pelo dinheiro, apostamos em um processo de paz duradouro", disse Luz Marina Bernal, cujo filho deficiente mental foi sequestrado e assassinado em 2008 por militares que o apresentaram como um guerrilheiro morto em combate.

"Heróis de um conflito sem heróis"

Na emotiva sessão, algumas vítimas estiveram pela primeira vez frente à frente com os representantes de seus algozes.

"Iván Márquez (chefe negociador das Farc) se aproximou e me pediu perdão. Disse-me que foi um erro o que cometeram contra a minha família", contou Turbay, para quem este reconhecimento foi o fato "mais transcendental" de sua vida.

Experiência similar viveu o suboficial reformado Alfonso Mora, cujo filho - que era um miliciano urbano das Farc - foi sequestrado, torturado e assassinado por militares. Ele contou que, após expor seu caso, os generais Oscar Naranjo e Jorge Mora, os militares da delegação do governo, "se aproximaram de mim (...) e muito respeitosamente me escutaram com muita atenção".

Hochschild afirmou que na Colômbia, "onde houve atrocidades de todos os agentes armados, é difícil falar de heróis".

"Os verdadeiros heróis e as verdadeiras heroínas deste conflito, para mim, são precisamente as vítimas como eles, que conseguiram transcender sua dor (...) para se transformar em lutadores para a paz", disse à AFP.

AFP