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Painéis da Avianca no aeroporto internacional de Maiquetía, próximo a Caracas, Venezuela, no dia 27 de julho de 2017

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Jeanne Costes passou seis dias em Caracas depois do encerramento das operações da Avianca, a mais recente de um grupo de companhias aéreas que abandonaram a Venezuela devido aos milhões de dólares em dívidas do Estado, à convulsão social e à segurança.

Assim que a jovem francesa chegou de Paris para fazer uma conexão em Bogotá, a empresa colombiana suspendeu voos na Venezuela, onde operou por seis décadas.

A interrupção estava prevista para 16 de agosto, mas a Avianca adiantou para 27 de julho, segundo a empresa, para "preservar a segurança" ante "limitações operacionais" que não detalhou.

Para Costes, empresária turística de 26 anos radicada no Peru, o calvário terminou em 1º de agosto, quando conseguiram embarcá-la em outra companhia via Panamá. Outras pessoas do grupo de 60 que estava na mesma situação que ela só deixaram o país em 4 de agosto.

Ela passou esses dias trancada em um hotel, de onde ouvia as explosões e os confrontos entre militares e manifestantes opositores durante os protestos contra o governo, que deixaram 125 mortos desde abril.

"Queremos processar a Air France (que fez o trecho Paris-Caracas) e a Avianca, que sabiam muito bem o que ia acontecer quando estivéssemos ali", disse Costes à AFP.

- Rentabilidade ou riscos -

O êxodo de linhas aéreas internacionais começou em 2014, quando os preços do petróleo - fonte de 96% das divisas do país - começaram a cair.

Isso levou a uma seca de dólares - que o governo monopoliza desde 2003 mediante um controle de câmbio - e a um acúmulo de 3,8 bilhões de dólares em dívidas com as companhias, segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA).

Impossibilitadas de repatriar seus lucros, a maioria deixou de vender passagens em bolívares em 2016, segundo uma fonte da indústria, recebendo apenas pagamentos em dólares e online.

Entre 2014 e 2015 deixaram o país Air Canada, Aeroméxico, Alitalia, Lan (Chile), Tam, Tiara (Aruba) e Gol. Em 2016, foi a vez da americana Dynamic e da alemã Lufthansa. Neste ano, seguiram-nas United e Delta (EUA) e Avianca (Colômbia).

"Decidiram isso porque a rota não era rentável para justificar os riscos que assumiam", disse à AFP Humberto Figuera, presidente da Associação de Linhas Aéreas da Venezuela (ALAV).

Uma fonte do setor não descarta que o caso da Avianca esteja ligado à deterioração das relações entre Venezuela e Colômbia, que acusa o governo de Nicolás Maduro de instaurar uma ditadura.

Em outubro de 2016, a Avianca suspendeu brevemente suas operações na Venezuela, após uma aeronave militar do país voar perto de um avião que fazia o trajeto Madri-Bogotá, em uma aparente confusão.

- Panorama obscuro -

O déficit de lugares nos voos e de rotas diretas é crescente: são apenas 121 frequências semanais e cerca de 19 mil assentos, frente 57 mil em 2013, disse Figuera.

Isso aumenta o tempo e o preço. Enquanto uma passagem Caracas-Miami custa 860 dólares, o trecho Bogotá-Miami sai a 390 dólares pela Copa.

Ainda somam-se a isso os reparos técnicos.

A Aerolíneas Argentinas suspendeu seu voo de 9 de agosto a Caracas - segundo uma fonte da empresa - porque faltam produtos, reposições, combustível e alimentos para a população no aeroporto Maiquetía.

Mas Figuera garante que não foram relatados problemas com a aeronavegabilidade, o controle aéreo, o estado da pista ou a variedade e qualidade do combustível.

Contudo, os custos por uso do aeroporto e taxas de sobrevoo são mais altos que em outros países da região, completou.

Para Henry Harteveldt, presidente da Atmosphere Research Group, a situação pode piorar.

"Nenhum diretor executivo vai por em risco a vida de seus colegas ou correrá o risco de que seus aviões fiquem presos em um país que pode entrar em colapso", afirmou.

- Medo -

Uma dúzia de companhias aéreas estrangeiras ainda operam na Venezuela. Algumas reduziram sua frequência e suas rotas, como American Airlines, TAP, Air France e Iberia.

Copa e Air Europa também ainda operam, mas pediram para seus pilotos suspenderem os voos com pernoite na Venezuela ou dormirem em outro país diante da escalada de violência.

A Iberia mudou seu pernoite para Santo Domingo, segundo Figuera.

Os temores não são em vão. Em 8 de agosto, um venezuelano foi assassinado a tiros diante de um mostrador do aeroporto de Maiquetía.

Um funcionário de uma companhia ficou ferido no incidente, atribuído a uma vingança. Em março de 2016, um egípcio também foi assassinado após reagir a um assalto em frente ao terminal.

A Venezuela é considerada um dos países mais perigosos do mundo, com 21.752 homicídios em 2016, taxa de 70,1 por cada 100.000, nove vezes maior que a média global.

Ainda que fosse apenas em uma conexão, Jeanne sempre quis conhecer a Venezuela. "Quero voltar um dia, quando isso tudo acabar", disse.

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AFP