Conteúdo externo

O seguinte conteúdo vem de parceiros externos. Nós não podemos garantir que esse conteúdo seja exibido sem barreiras.

Pessoas com um carrinho com pacotes de comida, em Caracas, no dia 16 de agosto de 2017

(afp_tickers)

A aposentada venezuelana Miriam de Rengifo, de 69 anos, busca, regularmente, a cesta de alimentação que o governo vende a baixos preços. Chavista, ela aplaude esse programa, mas admite que ele não lhe entrega o suficiente para sobreviver.

O pacote inclui atum enlatado, arroz, massa, feijão, farinha, azeite, leite, açúcar, entre outros. Mas só chega a cada um mês e meio. Miriam tem que fazer malabarismos para comprar o restante de alimentos, medicamentos e produtos de higiene.

O presidente Nicolás Maduro prometeu aos venezuelanos que a Assembleia Constituinte, que rege o país há duas semanas, vai resolver a situação.

Quando fazia um discurso contra a ameaça do presidente americano, Donald Trump, de usar a "opção militar" na Venezuela, Maduro foi interrompido por gritos da população.

"Baixem os preços!", pedia o público. "Vamos conseguir", respondeu o mandatário. "Que a Constituinte ouça isso, essa é a prioridade, isso, sim, que ninguém se desespere".

A Constituinte eleita entre denúncias de fraude e rechaço internacional tem entre suas tarefas conceber um sistema econômico "pós-petroleiro".

A Venezuela vive uma grave crise econômica por causa da queda dos preços do petróleo, fonte de 96% das suas divisas. Por isso, o governo, que desde 2003 monopoliza os dólares com controle férreo dos câmbios, reduziu suas importações e as atribuições do setor privado.

A escassez de alimentos, remédios e outros bens básicos é crônica. Para piorar, muitos empresários precisam importar matérias-primas e produtos em dólares do volátil mercado negro, o que dispara a inflação, projetada pelo FMI em 720% para esse ano.

- Déjà-vu -

Essa instabilidade gera especulação. A cesta subsidiada, chamada CLAP, custou 10 mil bolívares a Miriam (cerca de quatro dólares, na taxa oficial), enquanto um quilo de arroz em um mercado no abastado bairro de Chacao, em Caracas, pode chegar a 15 mil.

O custo de vida e o desabastecimento, mais que a insegurança e a crise política, são a maior dor de cabeça dos venezuelanos.

Gladys Villegas trabalha na entrega do CLAP no bairro popular de El Valle, em Caracas, e diz que se prepara para "lutar a grande batalha de reduzir os preços" com a Constituinte.

"Vai ser implementada uma lei para todos que especularem serem presos", afirmou Villegas, ainda que até agora Constituinte não tenha anunciado suas medidas neste tema.

O economista Asdrúbal Oliveros considera que, de fato, "o controle de preços voltará". Ele tinha sido um pouco relaxado por uma leve redução da escassez. "Será um déjà-vu do que já vivemos, mas pior".

Opositores temem que, com a Constituinte, se instaure um Estado comunista e encerre a propriedade privada, o que foi negado por Maduro.

Francisco Cabezas, um guarda de segurança de 46 anos, concorda. Ele recebe a CLAP, mas passa duas horas na fila para ver o que consegue em um supermercado e garante que os controladores vão provocar o ressurgimento do mercado negro. "E não se alcança o salário mínimo".

O autônomo Centro de Documentação e Análise Social estimou que a cesta básica de alimentação vale 1,4 milhões de bolívares (470 dólares), quase seis vezes mais que o salário mínimo integral.

- 'Muito pouquinho' -

A AFP acompanhou a entrega da CLAP de Gladys, que chega a 96 famílias. As pessoas vão cedo com seus carrinhos, entregam a identificação e esperam para receber sua cesta.

Alguns não querem falar com medo de deixar de receber o benefício, outro para nãos serem julgados por colegas de trabalho. Mas todos concordam que é uma ajuda e pedem para ser distribuída a cada 15 dias.

Maduro pediu que a CLAP e o resto dos programas sociais criados desde o governo de seu antecessor e padrinho político, Hugo Chávez, estejam na nova Constituição.

O programa espera beneficiar seis milhões de famílias, praticamente toda a população do país, explicou seu diretor, Freddy Bernal, em janeiro. Oliveros estima que a CLAP chegue a apenas 30% da população.

Miriam está feliz. Nessa entrega, tinha pão, que também é um bem escasso. Agora, ela volta às ruas. Já não toma há 15 dias seu remédio para a tireoide.

"Me disseram que em frente a Miraflores (o palácio presidencial), há uma farmácia. Vou para lá".

Neuer Inhalt

Horizontal Line


subscription form

formulário para solicitar a newsletter

Assine a newsletter da swissinfo.ch e receba diretamente os nossos melhores artigos.

swissinfo.ch

Banner da página Facebook da swissinfo.ch em português

AFP