Conteúdo externo

O seguinte conteúdo vem de parceiros externos. Nós não podemos garantir que esse conteúdo seja exibido sem barreiras.

Membros das Forças Armadas em operação na favela da Rocinha no Rio de Janeiro, no dia 23 de setembro de 2017

(afp_tickers)

A afirmação do general Antonio Hamilton Mourão de que o Exército cedo ou tarde se verá obrigado a buscar uma solução para a atual situação política brasileira causou preocupações e, para espanto de muitos, não foi alvo de qualquer tipo de sanção pública.

O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, em compensação, se viu obrigado a afirmar na sexta-feira, uma semana depois das polêmicas declarações de Mourão, que sua instituição está "comprometida com a consolidação da democracia".

Mourão havia afirmado que se a crise que sacode o país - onde os principais dirigentes no poder e a oposição enfrentam graves acusações de corrupção - não encontrasse uma solução, o Exército acabaria por resolver o problema.

"Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso", declarou Mourão na reunião de uma loja maçônica divulgada na internet.

Em seu comunicado, Villas Bôas recordou que apenas ele está habilitado para manifestar "o posicionamento institucional da Força" e indicou que já havia informado ao ministro da Defesa, Raul Jungmann, sobre "as circunstâncias e as medidas adotadas sobre o episódio envolvendo o general Mourão".

A assessoria de imprensa do Exército, consultada pela AFP, se limitou a dizer que as medidas mencionadas "foram tomadas no âmbito interno do Exército" e que o comandante Villas Bôas "considera encerrado o episódio".

Jungmann convocou na segunda-feira Villas Bôas "para esclarecer os fatos" e falar "sobre as medidas pertinentes a serem tomadas". Na sexta, indagado pela imprensa, afirmou igualmente que Villas Bôas já havia "tomado todas as medidas necessárias e o caso está encerrado".

A Procuradoria Geral de Direitos Humanos, subordinada ao Ministério Público Federal, não se mostrou tão convencida disso e, na quarta-feira, afirmou em uma nota que "não existe na ordem constitucional brasileira a hipótese de intervenção autônoma das Forças Armadas, em situação interna ou externa, independentemente de sua gravidade".

- Militar intocável -

Não é a primeira vez que Mourão, de 64 anos, desafia a hierarquia. Em 2015, foi afastado do comando da Região Sul por ter criticado a classe política, em plena tempestade do escândalo do Petrolão.

No mesmo ano, um quartel sob seu comando prestou homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi, centro de detenção e tortura do regime militar (1964-85).

Mourão foi transferido para a Secretaria de Finanças do Exército, uma função considerada burocrática, mas, mesmo assim, goza de um prestígio que faz dele praticamente intocável, como revela o recente episódio.

"Mourão é um grande soldado, uma figura fantástica, um gauchão", declarou Villa Bôas em uma entrevista.

"Se fosse castigado, ocorreria provavelmente uma insubordinação, especialmente entre os jovens oficiais, do maior para baixo, porque Mourão é um homem de tropa, não de gabinete. E representa o pensamento da tropa", declarou à AFP o analista Nelson Düring, editor do site especializado DefesaNet.

Para o jornalista Merval Pereira, colunista de O Globo, "a impossibilidade de punir o general mostra que, com o agravamento da crise e o crescente envolvimento de seus principais nomes, inclusive o do próprio presidente Michel Temer, o governo está esgotando sua legitimidade para mediar confrontos".

O Exército foi mobilizado nos últimos meses para dar apoio à polícia na grave crise de segurança pública provocada pelas guerras entre traficantes de drogas em Estados como o Rio de Janeiro, Espírito Santo ou Rio Grande do Norte.

As Forças Armadas são a instituição de maior prestígio no Brasil, em um momento de grande desgaste dos demais poderes.

Segundo pesquisa Datafolha de junho, 43% da população confiam "muito" na instituição militar, 40% confiam "um pouco" e 15% "não confiam".

A pesquisa mostra de 65% "não confiam" na Presidência e 69% também "não confiam" em nenhum partido político.

A crise econômica e de segurança, conjugada com as denúncias de corrupção, deram asas ao deputado de extrema-direita Jair Bolsonaro, segundo nas intenções de voto para 2018.

Quem o supera é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), que poderá ter sua candidatura impugnada e ser preso se condenação ditada pelo juiz Sérgio Moro a quase dez anos por corrupção passiva for confirmada em segunda instância.

Neuer Inhalt

Horizontal Line


subscription form

formulário para solicitar a newsletter

Assine a newsletter da swissinfo.ch e receba diretamente os nossos melhores artigos.

swissinfo.ch

Banner da página Facebook da swissinfo.ch em português

AFP