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Moradores participam de protesto contra a violência no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em 3 de abril de 2015

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Balas perdidas, moradores e policiais mortos e feridos: a volta da violência às comunidades pacificadas do Rio de Janeiro levou as autoridades a anunciar um reforço policial quase um ano antes dos Jogos Olímpicos, mas especialistas alertam que isto será insuficiente a longo prazo.

O epicentro da violência é o Complexo do Alemão, com mais de uma dúzia de favelas onde vivem 70.000 pessoas e onde a morte recente de um menino de 10 anos, supostamente pelas mãos da polícia, causou grande indignação.

Faz três meses que os moradores do Alemão convivem com tiroteios praticamente diários entre traficantes e policiais e a violência voltou também a outras comunidades, como a Rocinha e o Complexo da Maré.

"O medo e o terror são constantes aqui (...). Todos os dias tem troca de tiros porque vivemos em um território de cães e gatos e estamos presos no meio", contou à AFP Zaquel Nunes, de 33 anos, um vendedor ambulante do Alemão que na semana passada correu para socorrer uma vizinha que levou um tiro e morreu a caminho do hospital.

Desde 2008, o governo do Rio recuperou dezenas de favelas que estiveram por mais de 30 anos sob o domínio do tráfico, e a taxa de homicídios tem caído desde então. Hoje, 38 Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), com mais de 10 mil policiais, supervisionam 264 favelas pacificadas do Rio, onde moram mais de um milhão e meio de pessoas.

"Estamos em um momento difícil, mas não vamos recuar para a situação de sete anos atrás. É impossível impedir as balas perdidas enquanto houver confrontos com os traficantes. São eles que usam a população como escudo em meio aos tiros", disse na segunda-feira à AFP o major Marcelo Cobrage, que coordena todas as UPPs no Complexo do Alemão.

"As UPPs estão em processo de reestruturação. Vamos substituir os contêineres (onde funcionam atualmente) por cabines blindadas. A polícia não vai recuar", afirmou.

Lógica militar

"Tem havido muitos tiroteios, mortes de policiais, mortes de moradores e a morte deste menino recentemente, que destaca a deterioração progressivo da situação" no Alemão, disse à AFP Ignacio Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

"A continuidade no estado atual não é uma opção", mas "infelizmente o aparato de segurança e os políticos funcionam com uma lógica militar de ocupação de território e para eles sair seria uma derrota", acrescentou.

A cada ano, ele defende uma retirada "pelo menos de alguns territórios" do Alemão porque, se o objetivo é diminuir a violência, "é absurdo" manter uma presença policial que piora a situação.

O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, anunciou no domingo "a reocupação" do Alemão com mais policiais.

Isto poderá reduzir os tiroteios a curto prazo, mas nenhum reforço dura para sempre, advertiu Cano. "Precisam de um plano que inclua melhorar as relações com a comunidade", assegurou.

A força do tráfico

O Alemão é uma região complexa, enorme, onde "o narcotráfico faz parte da comunidade", explicou Michel Misse, sociólogo especialista em violência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

"Há jovens que vivem na favela que viram oportunidades para recomeçar a traficar e também há policiais que aceitam subornos e fecham os olhos para o narcotráfico", disse.

"O problema é que nenhuma profissão paga tanto quanto o tráfico de drogas. A atração é enorme para os jovens e não só por causa do dinheiro, mas pelo tipo de vida, com gangues, aventura e perigo", acrescentou Misse.

A antropóloga Alba Zaluar, da UERJ, destaca que depois da ocupação policial, favelas como a Maré, a Rocinha e o Alemão "perderam dinheiro, prestígio e poder" e os traficantes, que antes passeavam armados como reis e senhores, se viram confinados a pequenas ruelas.

Mas após os protestos de 2013, muitos dos quais acabaram em violência, os traficantes viram a possibilidade de recuperar o terreno perdido, observou.

"Os policiais das UPPs foram chamados para reprimir estas manifestações que desmoralizaram a polícia, toda a imprensa falou mal deles", disse. Os policiais das UPPs "foram rapidamente contaminados por práticas de outros policiais, nem sempre ortodoxas, e os traficantes se sentiram mais fortes, os moradores ficaram contra a polícia".

Uma pista seria averiguar como chega uma enorme quantidade de armas às comunidades pobres, sugeriu Zaluar. "Caso contrário, só restaria essa coisa ridícula de reprimir nas favelas", concluiu.

AFP