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A cozinheira Tia Zélia prepara uma rabada em seu restaurante próximo ao Palácio da Alvorada, em Brasília

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"Deus me livre de ver ele atrás das grades", suplica Zélia, cozinheira baiana que preparava delícias nordestinas para o ex-presidente Lula, condenado essa semana a 9 anos e seis meses de prisão por corrupção.

Os intensos aromas da culinária nordestina emanam da cozinha do modesto restaurante a poucos quilômetros do centro político de Brasília, no bairro popular Vila Planalto.

Ali, Maria de Jesus Oliveira - apelidada por sua mãe e conhecida por todos como "Tia Zélia" - supervisiona um grupo de mulheres que preparam pratos à base de carne de vaca, bacalhau, legumes e o clássico arroz com feijão que não falta na mesa de qualquer brasileiro.

De origem humilde, Zélia chegou a Brasília há mais de 40 anos com nada além de seus dois filhos e a esperança de superar a pobreza que castiga os nordestinos há séculos.

Primeiro trabalhou como empregada doméstica e, pouco a pouco, começou a vender comida caseira para os amigos, que a incentivaram a abrir seu próprio negócio em 1997.

Depois de ser fotografada junto com Lula em 2008, seu restaurante se encheu figurões da política em Brasília, de terno e gravata, ansiosos para provar "as delícias baianas" de que tanto ouviram falar na imprensa.

- Amiga de Lula -

Zélia lembra como se fosse hoje e se emociona falando do primeiro encontro com Lula, depois que um chef da cidade para quem trabalhou escreveu uma carta para o então presidente recomendando que provasse as comidas daquela mulher de voz firme, bom caráter e bom humor.

Ao chegar ao palácio do Planalto, "ele mesmo, o Lula, abriu a porta e disse "Entra, companheira". Aí, eu entrei… Meu irmão, quando eu entrei, a emoção foi muito grande… Aí, eu vi aquele gabinete, a coisa mais linda do mundo! Parecia que ali era um pedacinho do céu", lembra.

Depois dessa primeira reunião, Lula procurou por Zélia quando quis levar para um fim de semana de pesca uma rabada caseira "sem muita gordura" e devidamente condimentada.

Especialista nesse prato tradicional, Zélia superou as expectativas do então presidente e, desde então, cozinhou para ele com frequência.

Essa semana, Lula foi condenado a 9 anos e 6 meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro e poderá recorrer em liberdade, mas isso pode ameaçar sua eventual candidatura nas eleições de 2018.

"Estou muito triste, mas muito, muito, muito, muito, porque ele foi condenado. Ele é um bom ser humano, é humilde", lamenta.

"Tantos presidentes, tantos, tantos, e eu só chegava pra ver a cara pela televisão. E Lula, eu estive com ele corpo a corpo, abracei ele assim. Tem um mês e oito dias que ele veio aqui me visitar", conta.

No restaurante, uma parede vermelha cheia de fotografias mostra as vezes em que se encontraram e as entrevistas que Zélia deu a grandes jornais.

- Cozinhar para 'a nata' -

"Aqui só vem a nata. Aqui vem deputado, senador, ministro, desembargador... Meu pessoal é um pessoal muito bonito", orgulha-se.

Uma das fotos autografadas em sua parede mostra a ex-presidente Dilma.

Zélia diz que, com a saída do PT do poder, suas vendas caíram pelo menos 30%. Garante que, pouco a pouco - e "graças a Deus" -, está-se recuperando.

Um dos motivos é o fato de Zélia não eleger partido político na hora de atender seus clientes.

"Eu não sou política, sou comerciante. Não posso tratar ninguém com indiferença", explica.

Apesar de seu negócio depender em grande parte dos homens e mulheres no poder, quem rege sua vida é Jesus, cujo retrato está na parede acima das outras fotos.

No final das contas, como a maioria, Zélia carrega em seus suspiros uma profunda decepção com a política.

"É uma vergonha. A política de hoje é só para lavar dinheiro. E sabe quem sofre? Nós que somos pobres", desafaba.

Nas eleições de 2018, os políticos não conseguirão ganhar, com facilidade, o voto de Zélia.

"Quando é a época de eleição, eles vêm e tratam a gente, prometem mundos e fundos, abraçam, beijam...", queixa-se.

"Mas os políticos no ano que vem não vão me abraçar nem beijar, porque eu não vou dar esse lugar. Eu não vou votar mais. Para quê? Para ter a mesma decepção?", questiona.

AFP