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Arquiteto suíço reforma Scala de Milão

Mario Botta e as obras de renovação do Scala de Milão.

(Keystone)

Mario Botta, o mais famoso arquiteto suíço vivo, é o autor do projeto, polêmico, de modernização do principal teatro lírico do mundo.

A estréia do novo Scala está marcada para 7 de dezembro.

O som não é do violino mas da britadeira, da furadeira, do ferro batido e da lixa raspando o piso de pedra. A iluminação tem fonte humilde, na solda que une vigas ou nas lâmpadas penduradas no teto. Por enquanto, nada de spots revolucionários, de última geração.

A acústica do teatro ainda não foi testada, será realiza no final, mas a orquestra de ruídos ecoa em cada metro quadrado do canteiro de obras montado dentro do teatro La Scala.

A polêmica dos opositores

O ritmo dos trabalhos de reforma do principal símbolo da cidade de Milão, junto com a igreja do Duomo, prossegue com a precisão suíça do arquiteto de Lugano, Mario Botta. Ele é o autor do projeto, polêmico, de modernização do principal teatro lírico do mundo.

“Acho importante que duas linguagens, a contemporânea e a clássica, possam dialogar entre si. Esta foi a minha proposta. A fachada histórica não foi mexida e pode perfeitamente coexistir com a nova torre cênica”, rebate Mario Botta aos críticos, num italiano claro, mas com sotaque.

O barulho, maior do que o do bate-estacas no canteiro, é provocado por manifestantes contrários às duas enormes estruturas que emergem na parte de trás do teatro, sobre o teto.

Uma tem a forma de um círculo e outra de um paralelepípedo. Ambas, lado a lado, abrigam os camarins, os camarotes, os escritórios, os vestiários e o refeitório. Todos foram transferidos do térreo e do subsolo para os novos andares de cima. Antes eles roubavam um bom pedaço do território dos artistas e dos músicos em cena aberta.

Mais espaço

Os volumes geométricos são parcialmente visíveis da praça em frente ao teatro, e este é o palco da discórdia. Já os outros três palcos, esses no interior do La Scala, passam a ocupar juntos uma área de 1.600 mts quadrados. Em forma de “L” eles formam o a maior espaço cênico do mundo.

Os palcos são independentes um do outro, e assim podem ter os cenários montados com bastante antecedência. O palco principal, o lateral e o retropalco podem se sobrepor um ao outro, graças a um fosso escavado embaixo da boca de cena e, ao mesmo tempo, elevado às alturas.

Ele tem 18 metros de profundidade e 38 de altura, o equivalente a um prédio de seis andares para baixo e de treze para cima. Ao final de um ato, o palco de cena desce enquanto o lateral se desloca para ocupar o lugar do anterior, como uma plataforma móvel. A torre cênica hidráulica é única no mundo e foi construda para se moldar na estrutura criada pelo arquiteto.

Esta foi a única solução encontrada para ampliar o La Scala, sem demolir a vizinhança das vias Filodrammatici e Verdi, e colocá-lo como “prima donna” no mundo internacional da ópera. Impossibilitado de crescer para os lados o jeito foi descer e subir, criando espaços aonde não existiam ou eram mal dimensionados.

Resgate da história

Mario Botta tentou ser fiel ao projeto original do arquiteto neoclássico Giuseppe Piermarini e, depois de pagar caro em meio a tanta discussão, devolve ao público uma obra à imagem e semelhança de 1778, ano da inauguração.

“Tivemos um grande cuidado com o interior do teatro. Descobrimos cores, pinturas e afrescos do século 18 que, por um motivo ou outro, foram apagados pelas reformas passadas. Acho que resgatamos a história do La Scala. Chegamos a encontrar mármore embaixo de 14 camadas de tinta”, afirma o arquiteto suíço.

O teatro foi bombardeado pela aviação inglesa nos dias 15 e 16 de agosto de 1943. Logo após a Segunda Guerra Mundial a reconstrução foi realizada com dinheiro contado e muitas obras foram feitas sem o cuidado necessário. A riqueza dos detalhes se perdeu no meio dos recursos escassos.

Ele só reabriria em maio de 1946, sob a batuta do maestro Arturo Toscanini, num concerto histórico.

Um céu estrelado

Reerguê-lo era uma questão de honra para a população e uma metáfora da reconstrução italiana do período pós-guerra. Pequenas maquiagens foram feitas ao longo das décadas posteriores, mas nada chega perto desta cirurgia plástica arquitetônica.

“Esta foi uma intervenção legítima, sinal dos nossos dias e que, como uma obra de Lorenzetti(pintor italiano do século 14), se integra à paisagem urbana da cidade, com as suas torres de água, por exemplo, no alto dos edifícios”, comenta Mario Botta.

“Quero um efeito de céu estrelado na iluminaçao noturna dos novos volumes, mas ainda estamos na fase de testes”, acrescenta o arquiteto.

Hoje, em meio a poeira, já é possível ver o piso em pedra ou cerâmica, chamado de “medone”, antes escondido sob o carpete. Nos corredores dos palcos ressurge o pavimento de figuras de Veneza e as paredes se redescobrem com o “marmorino” amarelo.

O “foyer” ganhou uma sala com telões para que os atrasados não percam o espetáculo. O veludo vermelho e as tintas douradas continuam sendo os tons do interior do La Scala. Alguns camarotes estão sendo decorados tais como foram personalizados pelos antigos príncipes, duques e barões, frequentadores das noites de gala. Todas as instalações hidráulica, elétrica e sanitária são novas.

Ato final

O La Scala ainda está ocupado pelos peões de “ópera” e especialistas de restauração. Eles formam um exército de 210 pessoas, sendo 80 carpinteiros, trabalhando dia e noite.

No momento, os músicos afinam os instrumentos no moderno teatro Arcimboldi, construído para abrigar as temporadas líricas enquanto durasse a reforma e também depois dela. Os trabalhos do velho teatro entram na reta final de acabamento, dois anos e 56 milhões de euros depois do início da reforma.

“Estou de olho na meteorologia. Mas agora estamos caminhando para uma bela estaçao e o calor vai enxugar a umidade interna, o pior já passou”, afirma Mario Botta, olhando para o céu nublado, na sacada do La Scala torcendo para a chegada do outono, para quando está previsto o término dos trabalhos.

A estréia está marcada para o dia 7 de dezembro com a ópera “A Europa Reconhecida, de Antonio Salieri, a mesma da inauguração de 1778. Nesta data, o arquiteto vai sair de cena e passar a batuta ao diretor musical, o mítico maestro Riccardo Muti. Bravo, bravo!

swissinfo, Guilherme Aquino, Milão

Breves

Números da obra:

- duração dos trabalhos: 912 dias
- horas de trabalho: 600.000
- cabos elétricos: 600km
- aço para cimento armado: 2.000 ton.
- aço para estruturas metálicas: 700 ton.
- potência elétrica instalada: 4.000 kw
- altura da torre cênica: 18 + 38 mts
- dimensão do palco cênico: 20x18 mts
- Custo da reforma: 56 milhões de euros

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