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Artes plásticas O suíço da Babilônia: Karl A. Meyer, o Macunaíma ao avesso

O morro da Babilônia, no Rio de Janeiro, vai ganhar uma ampla visibilidade internacional. Uma exposição do artista suíço Karl A. Meyer carimba o passaporte da comunidade para o mundo europeu das artes. Ela cria uma ponte imaginária entre realidades muito diferentes e abate distâncias conceituais.

Fabio “Nativo” Ventura posa para a Polaroid de Meyer diante de um mural pintado numa quadra esportiva, ao lado de um posto policial.

Fabio “Nativo” Ventura posa para a Polaroid de Meyer diante de um mural pintado numa quadra esportiva, ao lado de um posto policial.

(swissinfo.ch)

A favela da Babilônia fica no morro atrás da praia do Leme, na zona sul do Rio de Janeiro. Aqui do alto tem-se uma vista privilegiada, de frente para o mar. Os prédios lá embaixo parecem de miniatura. Os barracos tomam conta da paisagem e formam um mosaico de tijolos, lajes e degraus. Por entre eles escorre a vida de milhares de pessoas, como a de Karl A. Meyer, um artista plástico da Basileia com um pé na colina carioca e outro nos Alpes. “Como artista estamos sempre buscando novas imagens, pessoas e situações”, explica ele para a swissinfo.ch através de Skype feito do seu ateliê, na Basileia.

O entusiasmo pela vida numa realidade tão difícil vai mais além: “O que eu vejo num dia na Babilônia, eu não vejo nem em toda a minha vida aqui na Suíça. É um cotidiano muito, muito e muito rico. Tudo ali é vivo demais”, afirma Karl A. Meyer, em português bem aprendido com os locais durante suas estadias.

“É muito importante para mim falar a língua. Sem isso não dá. Nos primeiros três, quatro anos tive muita dificuldade. Comecei a falar com a gente da Babilônia e fui melhorando. Irei fazer um curso na universidade quando eu voltar lá”, lembra ele depois da oitava temporada carioca. “Desembarquei na Ilha Grande e me disseram para conhecer o morro da Babilônia, no Rio. E eu vim e fiquei”, conta o artista.

Como um “Macunaíma” pelo avesso - o anti-herói brasileiro por excelência literária - Karl A. Meyer absorveu as influências cariocas e se transformou quase em nativo. Primeiro foi chamado de “gringo”. Depois, mais integrado e aceito pela comunidade, ganhou o apelido de “pai”, “mas às vezes me chamam de carioca falsificado”, conta sorrindo.

Caos sustentável

Ele fez do choque cultural a sua força motriz. Ao chegar de uma sociedade rica e estável, Karl A. Meyer deparou-se com o caos. “Para mim, este é o contraste contra esta vida bem organizada na Suíça um pouco chata, às vezes. E na Babilônia me sinto muito vivo”, diz ele.

No começo não foi fácil compreender a dimensão e mergulhar na complexidade da vida no Rio de Janeiro. “Olha só, no início eu não podia fazer nada no Rio. Era tudo muito complicado e diverso como um caleidoscópio. E era um problema transferir o que eu via num trabalho artístico. Levei quase seis anos para encontrar uma solução. E na Babilônia tive a possibilidade de fazer as fotos das pessoas. Isso não pode, normalmente, entende?! Assim, eu comecei”, lembra ele.

A experiência anterior de ter vivido na cidade de Nova York, nos anos 80 (tempo da Factory de Andy Warhol) e 90, ajudou a preparar Karl A. Meyer para o inesperado e futuro encontro com o Rio de Janeiro. “Cheguei em Nova York para ficar seis meses e acabei vivendo 17 anos ali. Era uma fuga daqui da Suíça. E para mim, o Rio de Janeiro tem muitas semelhanças com Nova York. Essa diversidade cultural, todas essas coisas diferentes que existem. Não tem um Rio, têm milhares de “Rios”, entende?! Nova York também é assim. Por isso me sinto muito em casa quando estou no Rio”, afirma o artista para a swissinfo.ch.

Vidas alheias e cruzadas

O conjunto arquitetônico parece ter saído de um quadro de Escher e chama em causa as leis mais elementares da física. O labirinto de vielas e escadarias sem fim é um desafio à logística mais suíça. Por ali, Karl A. Meyer equilibra-se num cenário de eterna luta entre o bem e o mal, no meio da pobreza, da violência, das dificuldades pela sobrevivência dentro e fora da lei. “Todos sabem dos problemas mas eu quero mostrar o lado poético daqui”, diz ele.

O endereço deste suíço é um hostel, o Chill, em frente ao bar do “Didi”, na subida da Ladeira Ary Barroso, um prédio erguido em 1956 pelo arquiteto Oscar Niemeyer. “Sabe, amigos de Ipanema dizem que sou maluco porque moro na favela, mas maluco é quem vive ali na praia e nunca subiu o morro. Eu acordo, faço um cafezinho aqui no hostel, depois desço na padaria para comer algo. Todo os dias são diferentes, não existe uma rotina como aqui na Suíça os dias são os mesmos. Você vai ver uma amiga, tirar umas fotos, visitar um amigo em Ipanema, neste sentido, não existe uma rotina fixa. E isso é lindo pois você acorda e não sabe o que vai acontecer e nem encontrar na favela, particularmente.”, conta ele.

Um desses encontros foi com Fabio Nativo, um jovem mulato, nascido e criado no morro da Babilônia. “Ele precisava falar, se comunicar como estava sofrendo. Estávamos jogando bola na laje do hostel quando ele apareceu. Nos apresentamos e fiquei espantado quando me disse que conhecia Basquiat que eu também conheci quando estive em Nova York. Fiquei surpreendido, pois quem na favela sabia sobre este artista, o Basquiat? Ninguém, somente o Nativo. Ele é um modelo antes de tudo. É um personagem incrível”, diz o suíço.

Fabio “Nativo” Ventura, 29 anos, nos acolhe na laje de casa, depois de recebermos diversas indicações dos vizinhos mais distantes de como achá-lo. Ainda debaixo do chuveiro, pela janela, ele diz para esperar um pouco e apreciar a vista do mar, mesmo depois de 40 minutos de atraso e longe do local combinado para a entrevista.

Coisas da vida carioca, sem cerimônia ou crítica e bem distante da precisão suíça. Os vergalhões apontados para o céu ainda esperam a obra do segundo andar.

Na sombra de uma imensa árvore, Nativo aparece e logo reproduz uma das poses que fez para as lentes de Karl A. Meyer. Mãos na cintura, olhar determinado, postura impecável, a torso nu e todo tatuado, inclusive uma lágrima no canto do olho esquerdo. “A vida aqui é difícil e tem sempre uma via mais fácil e mais perigosa e violenta. Não vale a pena não”, diz ele com a sabedoria de quem amadureceu antes do tempo pelas circunstâncias de vida.

Hoje, Fabio Nativo é um respeitado atleta profissional de MMA (Mixed Martial Artes) no circuito carioca e brasileiro. A profissão é uma metáfora da sua vida. Casado e com um filho pequeno, Nativo luta pelo futuro da sua família. “Não podia ter perdido a minha última luta. Até o meu adversário veio depois me dizer que esperava levar uma surra e não entendeu nada, nem eu. A minha vida sempre foi uma batalha. Eu perdi no ringue. Fiquei bloqueado. A minha cabeça estava longe. Acho que fiquei muito pressionado, eu me cobrei muito, havia uma expectativa enorme sobre mim e acabei não rendendo o que sabia e fazia nos treinos. Mas agora os patrocinadores se afastam e fico sem condição de treinar direito”, diz a fera ainda lambendo a ferida da derrota. “Ai, ai, ai. Mas ele vai dar a volta por cima, tenho certeza”, diz o amigo de longe Karl A. Meyer.

Fabio Nativo conhece todo mundo. Assim como todos conhecem-se na favela da Babilônia. Mas Nativo incorpora o guerreiro do bem, o guerreiro pela sobrevivência em todos os sentidos, um modelo de bom exemplo e superação ali dentro. “Meu filho Jamal passa o dia inteiro longe, na escola e em atividades extracurriculares. Acho isso muito bom para ele pois o mantém ocupado e longe das tentações e más influências da rua”, diz ele no papel de pai e de quem já esteve do outro lado.

Rio olímpico

A transformação do Rio de  Janeiro através das lentes do fotógrafo suíço Michael von Graffenried.

Arte e cultura

Nos últimos anos, com a Copa do Mundo e a Olímpiada, o Rio de Janeiro foi invadido por turistas e jornalistas. Mas poucos conseguiram penetrar na alma carioca. Karl A. Meyer foi um deles. “Aqui todos gostam dele. Acho que a cultura pode ser um caminho para mostrar como se vive aqui. Para diminuir o preconceito que existe. Temos problemas aqui, mas também temos muitas coisas boas. As pessoas se ajudam, se conhecem. E muita gente que antes morava no asfalto agora está vindo morar aqui”, diz Nativo, com uma ponta de orgulho. “Muitas vezes precisa vir alguém de fora para nos apresentar e valorizar aqui dentro. Aquela casa bacana lá em cima é de um alemão. E esta aqui, de pau a pique, é histórica e uma das primeiras no morro ”, afirma ele.

Karl A. Meyer sabia o que não queria. Pouco a pouco foi constituindo um percurso, um projeto artístico e, ao mesmo tempo, seguiu descontruindo estereótipos e tabus. “Eu ali não estava fotografando a paisagem mas sim as pessoas com amor, como elas sobrevivem. Num certo sentido é um estudo antropológico, como fazem, como eu faria nesta situação, para mim quem vive aqui é herói, quem luta aqui são pessoas muito fortes e impressionantes, a maioria é assim”, conta o artista.

Como um canivete suíço, Karl A. Meyer foi tirando suas ferramentas para entrar no mundo da Babilônia. Simpatia, paciência, curiosidade e uma velha câmera Polaroid foram as suas armas. O uso de uma a uma serviu para “roubar” a alma dos nativos e devolvê-la em forma de arte.

A Polaroid, com a sua poesia e a singularidade de cada foto ser exclusiva, foi o filtro ideal entre o artista e os seus personagens. “A emulsão sensível da Polaroid atende a realidade de uma favela brasileira. Essas imagens não apenas nos tornam conscientes da nossa existência na Europa mas também mostra uma injustiça social difícil de escapar”, afirma ele.

O material voa com o artista de volta para a Suíça. “Saudades do Brasil, sempre. Trago as fotos para o meu ateliê. E pintar é um processo muito solitário, com muito silêncio e tranquilidade. Fico sozinho aqui, às vezes por sete horas seguidas que passam como se fossem cinco minutos”, diz ele sobre o processo de elaboração do seu trabalho ao longo dos meses.

Uma das imagens escolhidas pelo artista foi a de Fabio Nativo diante de um mural na favela que retrata os tipos que vivem ali. A intervenção de Karl A. Meyer foi a inclusão de um Nativo que abre caminho com o seu corpo para quem vem atrás, numa grande pintura, em óleo sobre tela, como se ele saltasse fora dela.

Sobre a obra prima Nativo comenta: “Olha, eu gostei do quadro, aquela minha versão ali que vi apenas por internet e foto. Fico contente de ter sido escolhido. Ele disse que eu, com todas as minhas marcas, tatuagens, cicatrizes e características era a cara da comunidade, do Brasil. A gente fez as fotos aqui. Mas é aquilo, ele é o artista, levou as fotos para lá e criou a obra. Fico curioso com este trabalho. Mas gostei sim. Pode ser que abra alguma porta para mim”, diz Nativo no papel de crítico de arte e torcedor de si próprio, como não podia deixar de ser.

Babilônia internacional

O projeto de Karl A. Meyer é amplo e complexo. “Quero levar artistas brasileiros para a Europa. Estou preparando a exposição Kaleidoscop Rio, com abertura para o dia 24 de julho, em Raiding, Burgenald, perto de Viena, na Áustria”, informa. Mas um dia ele espera desenvolver alguns trabalhos no Brasil. “Ainda não me chamaram. O Rio tem isso, os murais, os grafites, é uma galeria de artes ao ar livre, ao contrário de cidades como Nova York e São Paulo”, conta ele.

São cerca de 20 imagens e duas pinturas, incluindo as fotos de Hugo Carmo, artista carioca. Desta exposição vai ser feito um catálogo. Ela terá a divulgação na imprensa e na televisão.

A ideia é continuar com este trabalho. “Quando eu voltar em novembro, eu quero convidar outros artistas brasileiros e, eventualmente fazer coisas no Brasil também porque acho que pode ser interessante para o brasileiro este ponto de vista, esta perspectiva poética e um pouco nova”, comenta Karl A. Meyer.

O morro da Babilônia vai ganhar uma ampla visibilidade internacional. A exposição carimba o passaporte da comunidade para o mundo europeu das artes. Ela cria uma ponte imaginária entre realidades muito diferentes e abate distâncias conceituais. Karl A. Meyer é a arquitrave desta experiência.


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