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Asilados oferecem cozinha apimentada

Na cozinha do La Cultina um aprendiz suíço (esq) trabalha em conjunto com três jovens solicitantes da asilo da África (dir)

(swissinfo.ch)

Estrangeiros, solicitantes de asilo político na Suíça, aproveitam o tempo de espera para aprender os segredos da cozinha e ensinar sua cultura culinária para os suíços.

La Cultina é um restaurante-escola em Berna e parte de um projeto social para melhorar a integração e chances de sobrevivência no retorno à pátria.

A vida de um refugiado não é fácil na Suíça. Ao fugir da pobreza ou das guerras nos seu país, o solicitante de asilo político descobre rapidamente que alguns suíços os vêem, sobretudo, como traficantes de drogas ou encargo financeiro.

Porém os freqüentadores do restaurante La Cultina em Berna não pensam dessa forma: a cada dia os clientes procuram suas mesas para se deliciar com os pratos exóticos preparados por refugiados originários de diversos países da África e da Ásia.

Projeto social

La Cultina é um restaurante-escola integrado num projeto social coordenado pelo Tast Bern, uma organização financiada por governos municipais, instituições de apoio ao migrante e o governo federal.

O principal objetivo do projeto é ocupar o tempo ocioso de solicitantes de asilo que ainda não foram aceitos na Suíça e podem ser expulsos a qualquer hora do país. Ao mesmo tempo, Tast Bern se esforça para melhorar sua integração e as chances de sobrevivência no retorno à pátria.

Criado em 1999 num antigo restaurante de supermercado, o La Cultina recebe anualmente trinta solicitantes de asilo, interessados em receber uma formação básica na área da gastronomia com duração de seis meses. Após a conclusão do curso, o aluno recebe um certificado.

“Aqui eles aprendem não só a preparar alimentos como saladas, pratos principais e sobremesas, mas também a servir e reconhecer os diferentes tipos de talheres e pratos”, explica Marc Wehrli, gerente do La Cultina.

Diariamente são preparados na cozinha do restaurante 200 pratos para os clientes e 50 pratos que são servidos para crianças de uma escola do bairro. O cardápio diário reflete o ambiente multicultural que domina a cozinha e oferece especialidades africanas, indianas, tailandesas, malaias, italianas ou mesmo suíças. Muitos dos 2.500 pratos já preparados no La Cultina foram sugestão dos próprios refugiados.

“Quando eles sugerem uma receita, nós reunimos os ingredientes e preparamos o prato, que é servido como teste para o próprio pessoal. Se aprovado, ele entra no cardápio”, revela Wehrli. “Os suíços gostam, sobretudo, da cozinha asiática”.

A única receita que terminou não sendo aceita foi o “Mole Poblano”, um prato típico no México e que utiliza chocolate amargo como ingrediente no molho. “Os suíços não estão acostumados a comer algo que mistura chocolate com sal”, brinca Wehrli.

Preço popular

Os preços do La Cultina também são populares para padrões suíços. Os pratos mais caros saem por 15 francos (US$ 11,75) e os mais baratos por seis francos (US$ 4,7). Com o rendimento, dois terços dos custos são cobertos. O resto é financiado através da Tast Bern. “Não queremos entrar em concorrência com a gastronomia local, pois somos afinal um projeto social”, afirma o gerente.

Para os solicitantes de asilo que participam do curso, essa é uma oportunidade única.

“É muito melhor trabalhar no La Cultina do que ficar no centro de asilados sem ter nada o que fazer durante o dia”, conta Danise, africana dos Camarões e que já vive há mais de dois anos como refugiada na Suíça, sem saber qual será a decisão para o seu pedido. “Meu sonho seria trabalhar na cozinha de um restaurante, mesmo que seja na faxina”.

Para outros refugiados como Frederic, o trabalho ajuda a esquecer os problemas diários. Há três anos o congolense chegou na Suíça e seu pedido de asilo político acaba de ser recusado pelo órgão responsável. Apesar de ter estudado economia por alguns anos, Frederic nunca encontrou trabalho em Berna.

“Aqui pude fazer algo com as minhas mãos. Não aceito essa idéia de que solicitantes de asilo são pessoas que querem viver às custas do suíço. Nossa cozinha é a prova de que podemos também colaborar”.

swissinfo, Alexander Thoele


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