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Assédio virtual Deputada suíça se defende contra ataques via internet

Zwei Frauen mit Blumen

Políticos na Suíça sofrem também do assédio virtual, o uso de tecnologias de informação e comunicação para ataques pessoais ou ameaças. 

(Keystone / Laurent Gillieron)

A deputada-federal Ada Marra causou uma sensação na semana passada no Parlamento suíço ao divulgar uma longa lista de insultos aos quais é regularmente submetida. Em entrevista à swissinfo.ch ressaltou que não aceita ser intimidada e espera apoio ao trabalho das mulheres na política.

Para os políticos suíços, a omnipresença das redes sociais é uma bênção e uma ameaça, ao mesmo tempo. Se plataformas como Facebook, Twitter ou Instagram dão visibilidade, elas também permitem que usuários mal intencionados se aproveitem do anonimato para atacar vozes contrárias.

Filha de imigrantes italianos, Ada MarraLink externo tem uma forte inclinação para a esquerda. Ela geralmente é alvo de insultos e ataques pessoais pelas posições que defende publicamente. Agora decidiu quebrar a "lei do silêncio", pedindo ao Parlamento que criasse um serviço encarregado de preparar possíveis denúncias para as ameaças e insultos recebidos por parlamentares no exercício das suas funções.

Em 4 de março a deputada-federal desistiu de apresentar seu projeto de lei, mas antes, tornou público parte dos insultos que recebeu nos últimos meses. 

>> Ada Marra explica por que desistiu do projeto

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swissinfo.ch: Qual foi sua mensagem nas redes sociais transmitida na semana passada?

Ada Marra: A ideia surgiu ao longo do dia de mobilização contra a violência sexual contra as mulheres, no final de 2019. Perguntei-me o que poderia fazer graças ao meu mandato. Medidas contra o assédio sexual no Parlamento já haviam sido tomadas. Mas e a violência verbal?

Muitas pessoas pensam que é normal ser insultado como político. Hoje, esse tipo de insulto não é mais verbalizado. Quando os narrei em voz alta no plenário, as pessoas puderam sentir seu peso e desumanização causada. Essa foi a razão para o meu ato. No entanto, hesitei por muito tempo antes de dar este passo.

swissinfo.ch: Por que você desistiu do projeto de lei?

A.M.: Eu sabia que a mesa do Conselho Nacional (Câmara dos Deputados) queria rejeitar a moção e não correr o risco de o Parlamento dizer "não" à proposta.

A minha decisão também foi motivada pelo fato de a mesa ter ouvido meu pedido e estar atenta a estas questões. Com isso ela demonstrou estar interessada em apoiar os parlamentares e dar-lhes instrumentos para denunciá-los à polícia. Seus membros também propuseram organizar eventos de sensibilização para a luta contra o assédio e recolher mais informações e dados sobre o tema. No entanto, considero que existe uma falta de conhecimento dos poderes do Parlamento nessa questão. É preciso informar. 

Os serviços precisam de se coordenar melhor entre si. Eu contatei o serviço jurídico ou as autoridades de segurança do Parlamento em várias ocasiões, mas sempre diziam para eu esquecer o tema. Agora precisamos de uma resposta coletiva. Já não é apenas uma questão individual de um parlamentar, mas sim um problema da democracia. Você acha que uma jovem mulher gostaria de entrar na política se soubesse que seria insultada meses seguidos?

A deputada-federal Ada Marra (Partido Socialdemocrata) foi eleita a primeira vez em dezembro de 2007. Seus temas são imigração e luta por justiça social.

(Keystone / Alessandro Della Valle)

swissinfo.ch: Parlamentares devem receber um tratamento especial?

A.M.: Eu dou um exemplo. No cantão de Vaud foi criado um fundo especial para os trabalhadores da construção civil, a partir do qual eles recebem apoio quando não podem trabalhar em períodos de mau tempo. Trata-se de uma medida específica para uma categoria profissional. 

Como parlamentares e figuras públicas, estamos sujeitos à violência verbal. Não me parece, portanto, que seja uma aberração tomar medidas inerentes à nossa profissão.

swissinfo.ch: Existe um debate entre deputados e senadores suíços sobre a questão do assédio virtual?

A.M.: Esse assunto é um tabu. Sabemos que existe, mas também temos a consciência de que, como parlamentares, pertencemos a uma classe privilegiada. privilegiados. Não é fácil, então, se queixar disso.

Não é uma questão de ficar se lamentando. Eu quero simplesmente abordar esse problema. Não para mim, mas para todos. Temos de nos afastar da vitimização e abordar diretamente a questão. E é exatamente pelo fato de sermos privilegiados, que podemos ousar dizer tais coisas.

swissinfo.ch: Homens no Parlamento também sofrem esse tipo de assédio?

A.M.: Pelas conversas eu sei de um caso. Então imagino que haja outros. No entanto, como mostra o estudoLink externo realizado pela União Interparlamentar e a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, as principais vítimas são as mulheres. Além disso, os insultos recebidos pelos meus colegas homens não são de natureza sexual. Penso que seria útil realizar um estudo semelhante no Parlamento suíço, para que todos possam se expressar sobre o assunto.

swissinfo.ch: Por que ainda não foi feito?

A.M.: Muitas pessoas acham que esse trabalho não é necessário. Eles acreditam que é preciso primeiro testar os instrumentos existentes. Eu concordo com isso e considero também importante testar sua eficácia. Mas, como disse no meu discurso, se isso não ocorrer eu voltarei a lançar esse projeto de lei. Na próxima oportunidade, portanto, vou chamar a unidade de crise para testar o processo de A à Z.

swissinfo.ch: Você já tentou apresentar uma queixa à polícia no caso de insultos mais graves (ameaças de morte, intimidação...)?

A.M.: Nunca apresentei uma queixa, mas agora percebo que deveria tê-lo feito. Na próxima ocasião irei buscar o auxílio da Polícia Federal. Ficar em silêncio, ou deixar de reagir, é o mesmo que banalizar a violência. É normal ser insultado ou ameaçado? A resposta é "não". Eu nunca fui insultado na minha vida normal. Já nas redes sociais parece ser comum, não há restrições. Creio, além disso, que muito trabalho educacional precisa ser feito para combater esse problema, particularmente nas escolas.

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Este conteúdo foi publicado em 28 de Maio de 2019 10:44

swissinfo.ch: Como deputada-federal você não deveria dar o exemplo e não permitir que o crime fique impune?

A.M.: Você tem razão. Essa é uma responsabilidade que não assumi até agora, seja por razões materiais, por um lado, ou emocionais, por outro.

Durante muito tempo acreditei que uma pessoa pública deveria ser capaz de suportar esses insultos e ameaças. E se ela não conseguisse, é porque não deveria estar fazendo política. Porém, isso não é verdade.

swissinfo.ch: De forma geral como a questão do assédio virtual é tratada na Suíça?

A.M.: Graças a vários movimentos sociais, partidos políticos e a algumas mulheres muito especiais, a extensão do fenômeno foi trazida à luz do dia. No entanto, ainda há muita descrença e é preciso melhorar nesse sentido. Eu penso especificadamente no fato de que, ao trata do estupro, as leis suíças não integram ainda a questão do consentimentoLink externo.

Creio que ainda há uma grande necessidade de informação, na sociedade e nas empresas, para que as mulheres saibam a que estruturas elas podem recorrer. As poucas medidas postas em prática devem agora ser verificadas para ver se cumprem as necessidades reais.

Quanto maior a presença de mulheres no Parlamento suíço, mais o problema do assédio poderá ser enfrentado. Hoje, como minoria, queremos nos firmar como políticos competentes e não como vítimas. Todavia não considera isso uma solução, pois um não exclui o outro! Só através da sensibilização e verbalização do problema é que poderemos fazer avançar as coisas.

Estudo sobre o assédio 

O estudo "Sexismo, Assédio e Violência contra as Mulheres nos Parlamentos da EuropLink externoa" foi realizado conjuntamente pela União Interparlamentar e a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa em 2016.

O estudo se baseia em entrevistas realizadas com 123 mulheres, de 45 países europeus, incluindo 81 mulheres parlamentares e 42 funcionárias parlamentares.

Em números:

85,2% das mulheres parlamentares entrevistadas relataram ter enfrentado violência psicológica no exercício do mandato.

46,9% receberam ameaças de morte, estupro ou violência física.

58,2% foram alvo de ataques sexistas nas redes sociais.

67,9% foram vítimas de comentários sobre a aparência física ou através de estereótipos de gênero.
▪ 24,7% foram abusados sexualmente.

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Adaptação: Alexander Thoele

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