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Barulho e improvisação no Brasil chamam a atenção

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Jacqueline Gremaud, de Fribourg, tirou um ano para um trabalho voluntário em São Paulo. De volta à Suíça ela faz um balanço de sua estada na capital paulista.

Este conteúdo foi publicado em 30. dezembro 2003 - 08:40

Ela adorou a experiência. Mas entre os pontos negativos destaca a poluição sonora e a eterna improvisação.

Os brasileiros já estão acostumados a ser criticados na Europa pelos grandes estragos feitos à floresta amazônica, pelo desrespeito aos direitos dos índios, pela corrupção ou pelo aumento da criminalidade.

Não são estes os senões apontados por Jacqueline Gremaud, 39 anos, graduada em Ciências Políticas, que, desde formada, atua na área social.

Ela já conhecia o Brasil em estadas anteriores. Um parente de Nova Friburgo, no Estado do Rio – cidade fundada por suíços em 1818 – já a motivara a participar de uma caravana de compatriotas que visitara a cidade nos anos 90.

Sinal de que gostou: voltou seis vezes ao País, a última para um estágio de nove meses. E se orgulha de ter “amigos fiéis no Brasil”.

Integração complicada

Foi a partir da primeira viagem que Jacqueline teve vontade de conhecer o dia-a-dia do brasileiro, a realidade de trabalhar no País, ou seja, “a vida tal qual ela é, a rotina diária, em suma”, como ela diz.

Foi assim que em 2002 decidiu trabalhar como voluntária para uma organização não governamental (a ONG Brascri, com sede em Santo Amaro, na Grande São Paulo. Dirigida por um compatriota, a organização cuida de menores carentes, em particular crianças surdas, adolescentes grávidas e jovens carentes).

Jacqueline viveu de início uma integração mais difícil que imaginara, tendo em conta a proverbial cordialidade do brasileiro.

Às inevitáveis saudades da família, da pátria e dos amigos, à dificuldade de comunicar-se com os brasileiros, comprovadamente monoglotas, acrescentou-se a desconfiança de colegas que, de princípio, não viam com bons olhos uma estrangeira que possivelmente cobiçasse seus postos de trabalho.

Improvisação batizada de “flexibilidade”

Em conseqüência, achou árduas as primeiras semanas. Pelo menos até que os colegas compreendessem que seus objetivos eram outros, que ela simplesmente buscava uma nova experiência profissional que, aliás se transformou “numa p. experiência de vida”, afirma com convicção.

Só quando isso ficou claro, principalmente depois de apresentar projetos específicos para a ONG Brascri, é que a atmosfera se distendeu.

Nem tudo foi cor de rosa. Originária de um país em que quase tudo é planificado e bem planificado, geralmente com muita antecedência, Jacqueline teve certa dificuldade em enfrentar a improvisação bem característica dos brasileiros.

Mas com um pouco de ironia prefere falar de “flexibilidade”, deixando claro porém que essa “falta de planificação e de comunicação deixa as pessoas sem referências”. Admite, no entanto, que “a improvisação tem seu lado positivo, pois estimula a criatividade”, qualidade de que os brasileiros são bem dotados.

Barulho

No dia a dia, principalmente quando transitava por São Paulo, o maior pesadelo para Jacqueline foi a poluição sonora. Se ela adora a algazarra de crianças, de famílias ou de pessoas em animadas conversas, claramente não aprecia o excessivo barulho do trânsito que, acrescentado às distâncias de um país de dimensões continentais como o Brasil, levam a um cansaço extenuante.

Em contraste com a Suíça, onde o pedestre tem vez, Jacqueline descobriu que o simples atravessar de uma avenida paulista representa uma verdadeira expedição, às vezes com o risco de vida.

Nunca imaginara também que coisas tão corriqueiras na Suíça como andar em calçadas pudessem ser perigosas no Brasil: “vira e mexe eu torcia o pé”, lembrando que os passeios, além de desiguais e freqüentemente esburacados, podem estar atravancados de material de construção, de lixo...

Busca do verde

Jacqueline Gremaud descobriu assim grandes diferenças com seu próprio país onde a maior cidade (Zurique) não tem mais de 700 mil habitantes, mas onde os motoristas geralmente respeitam os pedestres, e andar nas calçadas, desimpedidas, não constitui perigo de facilmente torcer o pé.

Se ela menciona lados negativos do Brasil é sempre com um sorriso nos lábios, como para dizer “gosto do país assim mesmo”. É verdade que numa metrópole bastante árida como São Paulo, tinha “uma verdadeira ânsia pelo verde”. Por isso mesmo gostara do espaço mais respirável do Parque de Ibirapuera.

Quanto à agitação do trânsito, para não dizer que não gostasse de ruído, ela insiste que aprecia “o barulho do povo”, principalmente nos encontros de famílias. E sempre que podia ia encontrar a família do namorado, um recifense, que aparentemente será o homem de sua vida.

Contrastes

Ela gostava também de trabalhar com as famílias dos surdos da instituição a que consagrou quase um ano de sua vida, em Santo Amaro. E ficou impressionada com “a simplicidade dessas pessoas pobres que se contentam com tão pouco”.

É um contraste chocante com os ricos, constata Jacqueline que diz não ter se acostumado com as diferenças sociais do País: “é difícil sair de um shopping abastecido de tudo e constatar, de imediato, na rua a pobreza”, observa ainda.

Felizmente o país oferece um clima que adora (menos o frio invernal que detesta). Outra compensação foi a música popular brasileira. Ela aprendeu a gostar de artistas como Djavan, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Lenine e Pepeu Gomes...

swissinfo, J.Gabriel Barbosa

Breves

A BRASCRI – abreviação de Brasil Criança – é uma organização não governamental de caráter social, existente há 11 anos. Ela foi fundada em 1992 por um pastor evangélico e sua esposa.

- Com sede em Santo Amaro, São Paulo, essa ONG, sem fins lucrativos, presta serviços a crianças surdas, mães adolescentes, a menores carentes com o intuito de integrá-los na sociedade através de uma formação escolar e profissional adequada.

- O programa destinado a “deficientes auditivos”, oferece cursos para crianças surdas de 2 a 7 anos.

- O projeto que beneficia as mães adolescentes atende jovens de até 18 anos que além da pobreza enfrentam uma gravidez não desejada, fornecendo-lhes a assistência básica necessária e procurando dar-lhes noções profissionais e artísticas que facilitem integração social. Fornece inclusive ajuda depois do parto.

- Brascri procura também ajudar jovens que abandonam a escola pública, oferecendo cursos extracurriculares e a infra-estrutura necessária com o fim de suprir uma lacuna.
Os alunos mais aptos têm também oportunidade de fazer um estudo profissionalizante que facilita conseguir emprego.

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