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Bradley Birkenfeld, o homem que abalou o UBS

Bradley Birkenfeld, em 21 de agosto de 2009, ao sair do tribunal americano que o condenou a 40 meses de prisão. Keystone

Preso nos Estados Unidos, Bradley Birkenfeld é o homem que revelou o escândalo das fraudes fiscais de clientes norte-americanos do UBS.

Este conteúdo foi publicado em 27. maio 2010 - 19:33

Em entrevista exclusiva à swissinfo.ch, ele se diz vítima de um erro judiciário e fala de "corrupção" entre os meios bancários e políticos.

Bradley Birkenfeld cumpre pena de 40 meses de reclusão desde 8 de fevereiro último, na prisão federal de Minersville, na Pensilvânia. Foi de sua cela que ele respondeu à swissinfo.ch, por telefone, em sua primeira entrevista para um meio de comunicação não estadunidense.

swissinfo.ch: Preso desde janeiro, qual o principal sentimento que o senhor tem?

Bradley Birkenfeld: Um sentimento de injustiça. Eu encaro minha prisão da melhor maneira possível, sabendo que fui eu que acionei o alarme sobre o UBS e que sou o "whistleblower" (denunciador) mais célebre dos Estados Unidos por ter revelado a maior fraude fiscal da história do país.

swissinfo.ch: Do seu ponto de vista, por que o senhor está na cadeia?

B. B.: Por causa de um erro flagrante da Justiça. Eu sou único na prisão do caso UBS. E o que fazia a Secretaria de Estado da Justiça dos Estados Unidos quando essas práticas ilegais ocorriam sob seu nariz durante décadas? Ou ela era muito incompetente para ver o problema, ou não queria resolvê-lo.

swissinfo.ch: Qual dessas duas hipóteses o senhor prefere?

B. B.: Existe corrupção na Secretaria de Estado norte-americana da Justiça. Martin Liechti (NDLR: ex-chefe de Bradley Birkenfeld no UBS para a gestão de fortunas da clientela da América do Norte) foi autorizado a usar a quinta emenda da Constituição, que permite não ser incriminado sob juramento diante do Congresso. Ele foi liberado depois de uma breve detenção e nunca foi inculpado.

Quanto ao UBS, o banco recebeu 5 bilhões de dólares do contribuinte americano no plano de salvamento dos bancos. Obteve ainda um acordo entre os governos suíço e norte-americano para cessar o processo na Justiça, ainda não forneceu os nomes dos clientes. O UBS ainda saiu do caso com uma multa de 780 milhões. Eu também estou preso porque desacreditei a Secretaria da Justiça na medida em que foi preciso um denunciador para revelar o escândalo.

Nessa lista tem gente muito rica e gente poderosa no plano político. A Secretaria de Estado da Justiça só processou 14 clientes do UBS desde fevereiro de 2009.”

swissinfo.ch: Por que o senhor informou as autoridades norte-americanas do que ocorria no UBS?

B. B.: Porque o que ocorria era um mal. O presidente Kennedy dizia: "Não pergunte o que seu país por fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país". Eu cumpri meu contrato com meu país e fui inclusive além do apelo de Kennedy.

swissinfo.ch: O senhor foi prejudicado pelo fato de ter participado de certas manobras do UBS para esconder haveres de clientes ao fisco norte-americano? A imagem do senhor transportando diamantes num tubo de pasta de dente parece ter ficado na cabeça das pessoas.

B. B.: Isso é algo que eu nunca deveria ter feito. Mas o caso do qual falamos envolve 19 mil clientes do UBS e 20 bilhões de dólares de fraude. Não fui eu quem criou esse negócio no UBS. Já tinha começado antes de eu nascer, em 1965, e antes de eu entrar no UBS, em 2001.

swissinfo.ch: A presença de gente muito rica na lista do UBS teve um impacto em sua condenação?

B. B.: Sem dúvida alguma. Dessa lista constam pessoas muito ricas e poderosas no plano político. A Secretaria de Estado da Justiça processou apenas 14 clientes do UBS desde fevereiro de 2009. É uma média de um processo por mês. Nesse ritmo, vai precisar de 400 anos para avaliar as 4.500 contas que a Suíça se comprometeu a entregar aos Estados Unidos.

swissinfo.ch: Robert Wolf, diretor da filial do UBS nos Estados Unidos, é próximo do presidente Obama. A Casa Branca diz que essa relação não tem problema porque Wolf não trabalha na sede. Essa relação tem alguma influência em seu caso?

B. B.: É preciso fazer a pergunta a Robert Wolf, mas existe em todo caso uma aparente inconveniência, uma vez que Robert Wolf é empregado do UBS em Zurique e sua remuneração é diretamente ligada às atividades do UBS.

swissinfo.ch: Em 15 de abril, dia do pagamento de impostos nos Estados Unidos, o senhor pediu ao presidente Obama de agraciá-lo ou reduzir a pena ao tempo que senhor já passou na cadeia. O senhor recebeu uma resposta?

B. B.: Meu pedido está sendo examinado. Devo dizer que a administração Obama herdou o problema do UBS da administração Bush. No entanto, o presidente Obama, que também é um jurista inteligente, deveria certamente compreender o fundamento do meu pedido.

swissinfo.ch: Ao solicitar uma comutação da pena, o senhor não reconhece ter cometido um crime?

B. B.: Eu já reconheci minha culpabilidade de participação em um complô. Mas o que acontece com os responsáveis do UBS e seus 19 mil clientes norte-americanos que cometeram crimes?
Ao me prender, a Justiça norte-americana colocou no cárcere um "whistleblower", um homem com poder de responsabilidade que trabalhou para o UBS durante somente quatro anos, enquanto deixa em liberdade os banqueiros e seus clientes. Para mim, isso parece prostituição política, sem falar da mensagem que esse caso manda aos denunciadores do mundo inteiro.

swissinfo.ch: As coisas mudaram no setor bancário desde que o senhor revelou o escândalo UBS?

B. B.: Não mudou absolutamente nada. No que diz respeito ao UBS, seus clientes norte-americanos tiveram tempo de transferir seu dinheiro para outros bancos, outros países ou de renunciar à cidadania. A Secretaria de Estado da Justiça lhes deu toda a margem para evitar que eles paguem seus impostos ou sejam punidos. Tudo isso porque existe um grande número de nomes sensíveis entre os 19 mil clientes norte-americanos do UBS.

Marie-Christine Bonzom, Washington, swissinfo.ch
(Adaptação: Claudinê Gonçalves)

Birkenfeld, o herói

Dia 24 de maio, Bradley Birkenfeld foi elogiado por Make It Safe, coalizão de organizações não governamentais pela transparência da justiça, entre elas a American Civil Liberties Union e a Federação dos Sindicatos de Funcionários Federais.

En 2009, ele foi nomeado Pessoa do Ano pelo gruo editorial Tax Analysts.

O cronista do New York Daily News, Juan Gonzalez, lança um apelo a Barack Obama para "ver em Birkenfeld um herói " e considera que ele "merece uma estátua em Wall Street, não a prisão".

A petição em favor da libertação de Birkenfeld tem mais de 25 mil assinaturas de pessoas e o apoio de 21 ONGs.

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Denunciador condenado

Bradley Birkenfeld cumpre pena de 40 meses desde 8 de janeiro na prisão federal de Minersville, na Pensilvânia.

Contratado pelo UBS em 2001, ele pede demissão em 2005, decepcionado com a inércia do banco frente a suas preocupações acerca da legalidade das operações com as contas de clientes norte-americanos.

Depois de 2005, alerta o governo dos Estados Unidos.

Em 2009, é condenado por não ter cooperado suficientemente com a investigação sobre o cliente norte-americano do UBS, Igor Olenicoff.

Em abril de 2010, ele pede ao presidente Obama que lhe dê anistia.

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