Niklaus Wirth: uma lenda viva da computação

Niklaus Wirth na sua residência, ainda cercado por computadores. Keystone

Niklaus Wirth desenvolveu várias linguagens de programação. Com Pascal, o professor de ciência da computação da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH) tornou-se mundialmente famoso e recebeu o Prêmio Turing, o "Prêmio Nobel de Ciência da Computação".

Este conteúdo foi publicado em 26. dezembro 2019 - 11:00
Sarah Genner

Em sua homepage não se vê um endereço de e-mail, embora o professor emérito de ciência da computação da ETH de Zurique seja provavelmente um dos poucos que, aos 85 anos de idade, tem sua própria homepage. Por outro lado, Niklaus Wirth ainda pode ser encontrado na lista telefônica com um número de telefone fixo. Por telefone, ele me convida para tomar um café no seu aconchegante apartamento em Zurique. Ao chegar a seu apartamento, além de sua hospitalidade, reparo imediatamente o grande modelo de avião em sua sala de estar.

swissinfo.ch retrata personalidades suíças de destaque no exterior ou com apelo internacional que reconheceram desde cedo o potencial da Internet e a utilizaram com sucesso em suas atividades. A autora, Sarah Genner, é uma acadêmica especializada em mídia digital. Seu livro ON | OFF foi publicado em 2017.

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Mesmo 20 anos após sua aposentadoria, Niklaus Wirth ainda impressiona pela lucidez, boa disposição e pela inspiração que o espírito de pesquisa lhe dá. Ele não tem de se preocupar que um dia as pessoas não se lembrem mais dele, pois já alcançou o status de lenda viva da computação. Em 1984, sua carreira científica foi coroada com o Prêmio Turing.

Wirth é o único cientista de língua alemã a receber o "Prêmio Nobel de Ciência da Computação". Na Suíça, jovens talentos da informática recebem anualmente o "Niklaus Wirth Young Talent Computer Science Award". A lista de seus prêmios nacionais e internacionais é longa. Universidades de sete países concederam-lhe o título de doutor honoris causa: das universidades de Novosibirsk e de São Petersburgo passando por Lausanne, Linz, York, chegando até Pretória.

Linguagens de extrema simplicidade

Durante a sua carreira, Niklaus Wirth desenvolveu várias linguagens de programação: Euler, Algol-W, Modula e, em particular, Pascal. Ele escreveu vários livros didáticos de ciência da computação que são amplamente utilizados em todo o mundo. Suas linguagens de programação são caracterizadas por conceitos claros e simplicidade final, o que as torna perfeitamente adequadas para fins educacionais.

Nos anos 1980 com o seu primeiro computador pessoal, o "Lilith". zvg

A linguagem que sucedeu ao Pascal, Oberon, não alcançou o mesmo sucesso, mas se o computador "Lilith" de sua criação tivesse sido capaz de se firmar no mercado, Wirth poderia ter sido tão bem conhecido quanto Steve Jobs. 

"Fiquei fascinado pela tensão elétrica baixíssima. A eletrônica sempre teve algo misterioso para mim."

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Nascido em Winterthur em 1934, em sua juventude ele tinha sua própria oficina, onde construía modelos de aviões e experimentava em seu laboratório de química. Wirth se formou em engenheira elétrica na ETH. "Naquela época havia uma diferença de abordagem entre tensão elétricas alta e baixa", diz. Ele foi aconselhado a concentrar-se em correntes de alta tensão, por serem "o futuro", leia-se centrais elétricas e ferrovias. "Fiquei fascinado pela tensão elétrica baixíssima. A eletrônica sempre teve algo de misterioso para mim."

Seu pai, um professor de geografia do ensino médio, o encoraja a viajar e ver algo do mundo. Quatro dias depois do casamento, ele viaja com sua esposa para Paris, depois para a cidade portuária de Le Havre e atravessa o Atlântico de navio. Seu melhor amigo vai buscá-lo em Nova Iorque, e dali ele parte para uma estadia de um ano no Canadá. Em seguida ele vai para Berkeley, Califórnia, onde faria seu doutoramento.

Concluindo seu curso 1963, ele trabalhou em seguida na Universidade de Stanford como professor de computação durante quase cinco anos. Depois de uma breve temporada na Universidade de Zurique, retornou à ETH de Zurique. Lá ensinou por mais de trinta anos até a aposentadoria. Juntamente com Gusti Zehnder, fundou o Departamento de Ciência da Computação da ETH em Zurique. Em uma entrevista com Elena Trichina, uma cientista da computação, o suíço conta a história de sua longa jornada, de outras etapas de sua vida, sucessos e de intrigas acadêmicas:

O primeiro computador pessoal

A segunda vez que ele atravessou o Atlântico de navio, ele estava com suas três crianças e a caminho de um ano sabático. Ele passava seus anos sabáticos no PARC, o laboratório de pesquisa da Xerox situado na Califórnia. "Na época, o PARC era, de longe, o lugar mais inovador para a pesquisa tecnológica", diz ele. Wirth trabalhou no PARC com o primeiro computador pessoal chamado Alto. Steve Jobs também obteve inspiração no PARC para criar o Macintosh.

De sua temporada no laboratório da Xerox, Wirth trouxe para a Europa em 1980 um dos primeiros mouses de computador, o que levou ao desenvolvimento pela empresa suíça Logitech do primeiro mouse produzido em série no mundo. No início da década de 1980, ele e sua equipe ETH construíram os sistemas computacionais Lilith e Ceres com seus respectivos sistemas operacionais. Ele já não conseguia imaginar trabalhar num computador de grande porte.

Naquela época, os computadores pessoais ou PCs ainda não existiam na Suíça. Ele não teve escolha e optou por construir, ele mesmo, um PC. Lilith nasceu alguns anos antes do primeiro Mac como um computador pessoal e é uma conquista pioneira. O pequeno computador tem uma interface de usuário moderna com janelas e menus de programa e é equipado com um mouse. O hardware e o software estão intrinsecamente ligados. Os assistentes de Wirth ficaram entusiasmados com Lilith: "Eles vinham ao Instituto até à noite e nos fins de semana para trabalhar". Wirth vai até uma de suas estantes e me traz um livro sobre a sedutora figura mitológica Lilith, epônimo do primeiro PC suíço.

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Em cooperação com uma empresa baseada em Utah, EUA, várias centenas de computadores Lilith foram produzidos. No entanto, as tentativas de comercializar os computadores Lilith alcançaram pouco sucesso, diferentemente da Apple que, mais tarde, alcançaria sucesso mundial com base nos mesmos princípios. "Eu sabia que não era um homem de negócios. Já tinha minhas mãos cheias apenas com ensino e a pesquisa." Hoje, Lilith é um valioso item de museu na história da ciência da computação. Vale lembrar que, até 1994, o sistema operacional da Apple era baseado na linguagem de programação Pascal da Wirth.

Por que Pascal alcançou fama mundial

Por que, entre as várias linguagens existentes, Pascal se tornou tão popular? "Pascal tinha o maior avanço em relação às linguagens de programação anteriores. Antes disso, as linguagens comparativamente primitivas Fortran e Cobol eram usadas." Outras circunstâncias favoreceram sua difusão. Em meados da década de 1970, surgiram microcomputadores com processadores de 8 bits que eram suficientemente baratos para que escolas e famílias os comprassem. "Isto significou que uma parte a população que tinha interesse em programação ainda não tinha sido ‘infectada’ com Fortran e Cobol".

Um homem de negócios astuto teve a ideia de adicionar um pequeno editor ao compilador Pascal e vendê-lo em um disquete por 50 dólares. "Isto finalmente levou ao sucesso, já que os compiladores costumavam custar milhares de francos naquela época". Com a ajuda da Guerra Fria, Pascal se difundiu fortemente na Rússia e na China. A Guerra Fria, diz, "certamente ajudou, uma vez que Pascal não era um produto americano".

A linguagem Oberon, a sucessora de Pascal desenvolvida por Wirth, apesar de ser muito superior à sua antecessora, nunca chegou realmente a se estabelecer. "As linguagens da indústria americana tomaram controle do mercado: C, C+++, Java. Eles adotaram muitas das ideias da Oberon. Mas isso nunca é mencionado no setor industrial", diz Wirth. Embora o seu manual Pascal seja traduzido para várias línguas e seja um best-seller, ele quase não recebe dinheiro por isso. Mas parece sincero quando diz: "Eu nunca tive o objetivo de ficar rico. Eu gostava de pesquisa e era bem pago como professor de ETH."

Um drone pioneiro

No final da sua carreira profissional, nos anos 90, Wirth alcançou mais um feito técnico pioneiro. Dando continuidade ao hobby de sua juventude, ele ajudou quatro engenheiros mecânicos da ETH a construir o protótipo de um drone. Ele percebeu que se poderia construir aeronaves muito mais leves e simples que seus modelos helicópteros de navegação autônoma.

Wirth construiu e programou o computador de bordo de uma aeronave autônoma com base num microprocessador Strong-ARM, para reduzir o consumo de energia a apenas um décimo. Isto permitiu que o peso da bateria fosse drasticamente reduzido, melhorando assim significativamente o desempenho de voo da aeronave. Os engenheiros participam com sucesso numa competição internacional.

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O espanto de Wirth com a China

Wirth tem uma viagem marcada para a China na próxima semana. Ele foi convidado para duas conferências onde ganhadores do Prêmio Nobel darão palestras. Os protestos atuais em Hong Kong lhe causam desconforto e também um longo desvio em sua viagem, que terá que passar por Pequim.

Como ele avalia a rivalidade no campo da inteligência artificial entre a China e os EUA? "A China desenvolveu-se incrivelmente. Para mim, não há dúvida de que a China é uma potência mundial e se tornará cada vez mais." Ele viajou para a China pela primeira vez em 1982 com uma delegação de professores da ETH. "Era um outro mundo, as pessoas usavam uniformes e andavam de bicicleta, quase não havia carros. Demos palestras com audiências de 1000 alunos. Só depois nos demos conta de que eles não entendiam nada de inglês."

Mas hoje tudo está completamente diferente. A China realizou avanços rápidos e pode agora não somente produzir, mas também fazer pesquisa de ponta. Uma grande diferença cultural entre Rússia e China é, para ele, a promoção do sentido de comunidade. Wirth vê com certa suspeita o culto do individualismo no Ocidente.

Hardware e software feitos um para o outro

Niklaus Wirth conseguiu o que nenhum suíço, e apenas dois outros europeus conseguiram até agora: receber o Prêmio Turing. Ele é a figura que define a história global das linguagens de programação modernas, e reconheceu desde cedo que o hardware e o software devem ser concebidos em conjunto para que alcancem uma funcionalidade ótima.

Até hoje, ele não perdeu a sua abordagem lúdica com relação à tecnologia. Wirth aponta para uma sala adjacente em seu apartamento e diz: "Até hoje eu ainda programo na minha linguagem Oberon".

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