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Ciganos na Suíça Uma minoria luta pelo reconhecimento

Eles moram em trailers, deixam lixo espalhado, não querem se integrar e cometem delitos. Esta é a imagem que os suíços têm dos ciganos roma e ela não poderia conter mais clichês. O que a maioria das pessoas não sabe é que o povo roma vive há séculos na Suíça. Mas muitos não se identificam com medo de perderem seus empregos ou moradia. 

"Ignorância é veneno": a Sociedade para os Povos Ameaçados e organizações de apoio aos ciganos já protestaram na frente do Palácio Federal pelos direitos dessa minoria.

"Ignorância é veneno": a Sociedade para os Povos Ameaçados e organizações de apoio aos ciganos já protestaram na frente do Palácio Federal pelos direitos dessa minoria.

(Franziska Rothenbühler)

O pedagogo social Kemal Sadulov trabalha como radiojornalista, tradutor e mediador cultural. Ele é roma e se empenha para ver o reconhecimento desta minoria presente há séculos na Suíça. O caminho é pedregoso, e a Suíça não se esforça muito para reparar a sua questionável trajetória no contato com esta população, afirma ele em entrevista à swissinfo.ch.

swissinfo.ch: O senhor é roma. Como eu posso reconhecer a sua origem se eu o encontrar na rua sem lhe conhecer?

Kemal Sadulov: Quando ando na rua, não se pode ver que sou roma. Não existem características visíveis comuns a todos. Nem todos os roma têm a pele morena. Nós também nos misturamos com outros grupos ao longo dos séculos.

Diferenças

ROMA é o nome escolhido pela União Romani Internacional para designar vários grupos populacionais que possuem origem indiana e um idioma comum. No século X, grupos de roma emigraram do noroeste da Índia para a Europa. Estima-se que entre oito e dez milhões de roma vivam na Europa. Como isso, eles representam a maior minoria na Europa. Ao contrário da opinião corrente, a maioria dos roma são sedentários.

ROMANI é a língua tradicional dos ciganos roma. Trata-se de uma língua indo-ariana, do mesmo grupo que o híndi e o sânscrito. Ao longo das migrações dos roma, a língua foi acrescida de empréstimos e elementos de diversas outras línguas. Atualmente, nem todos os roma falam o idioma romani.

YENICHE é uma minoria cultural reconhecida que vive na Suíça desde sempre. São majoritariamente católicos ou evangélicos. O idioma yeniche é uma língua com base no alemão e influências do romani, iídiche e do rotwelsch (ou rodi), um idioma da baixa idade média. Na Áustria, Alemanha e Suíça existem cerca de 100.000 yeniches. Entre 3.000 a 5.000 são viajantes.

Fonte: Comissão Federal contra o RacismoLink externo

swissinfo.ch: Estima-se que 80.000 roma vivam na Suíça. A maioria possui passaporte suíço, como o senhor, têm residência e emprego fixos. A população não percebe que estas pessoas são roma. Por quê?

K. S.: Existem dois motivos. Por um lado, não correspondemos à imagem clichê que os suíços têm dos roma. Por outro, os roma suíços são muito cautelosos, pois a desconfiança, o ceticismo e o racismo em relação aos roma estão muito enraizados na sociedade suíça. Para se ter acesso ao mercado de trabalho e poder alugar um apartamento, é melhor não fazer muito alarde a respeito da sua origem roma.

swissinfo.ch: Realmente as manchetes envolvendo os roma na Suíça geralmente têm teor negativo. As notícias em geral são sobre ciganos roma estrangeiros que se encontram temporariamente na Suíça. Normalmente lê-se sobre 'bandos de bandidos organizados'. O senhor se irrita com isso?

K. S.: Claro que me irrito. Se lermos apenas a página policial, é lógico que essa imagem vai predominar. Mas seria muito diferente se a mídia falasse mais sobre os eventos culturais, por exemplo. A imagem predominantemente negativa dos roma na Suíça é uma história secular. Pense no projeto "Crianças da Estrada", que recebeu auxílio financeiro do governo. Entre 1926 e 1972, cerca de 600 crianças, chamadas de "crianças ciganas", foram colocadas em internatos ou dadas para pais adotivos, para que se tornassem "cidadãos úteis"!

swissinfo.ch: Esta longa história de perseguição é comum aos roma em vários países da Europa. O que mais teriam em comum um roma da Suíça e um roma da Romênia, por exemplo?

K. S.: Em primeiro lugar, a língua romani. Ela é um elemento importante da identidade dos ciganos roma. Mas a questão da migração também os une, e a busca por uma cooperação transfronteiriça. Os governos europeus bloquearam esse tipo de cooperação até os anos 1990. Atualmente os roma de toda a Europa lutam juntos, no Conselho da Europa, contra a discriminação e por mais direitos. Hoje, em muitos países europeus, os roma já são oficialmente reconhecidos como minorias nacionais. 

swissinfo.ch: O que é necessário fazer para modificar a imagem dos roma, plena de clichês, na Suíça? 

K. S.: O problema é que não se transmite a história desta minoria na Suíça e, por isso, o povo não sabe quase nada sobre os roma. Embora já haja registros oficiais de 1.418 grupos roma no país e nós façamos parte desta sociedade há 600 anos! A falta de informação é muito grande. É preciso que as pessoas tenham mais consciência de como a Suíça tratou e ainda trata esta minoria.

swissinfo.ch: Neste sentido, não seria sensato se estes roma suíços "invisíveis" viessem mais a público para chamar a atenção e gritar: "Ei, olhem, nós não somos assim como vocês pensam, viu!"?

K. S.: Não falta a nossa presença na esfera pública. Há muitos anos somos politicamente muito ativos. Desde 2015, existe uma moção registrada nos órgãos oficiais responsáveis para o reconhecimento dos roma como minoria nacional na Suíça. Queremos oficialmente fazer parte da multiculturalidade suíça!

swissinfo.ch: O significado deste reconhecimento seria principalmente de natureza simbólica, não é mesmo? 

K. S.: Seria claramente o início de uma nova era! Até agora a política suíça em relação aos roma foi marcada por perseguições e proibições. O reconhecimento oficial seria uma afirmação de que os roma e sua cultura fazem parte da Suíça e de que o país protege e apoia essa cultura. 

swissinfo.ch: No dia-a-dia, os roma suíços têm receio de ser discriminados, de perder seus empregos e de seus filhos sofrerem assédio moral na escola (mobbing e bullying). O reconhecimento pelo governo também resolveria este problema? 

K. S.: O reconhecimento estabeleceria condições básicas gerais, pois faríamos oficialmente parte da multiculturalidade suíça. Mas isso seria apenas o início da solução. Seria apenas o começo de uma grande tarefa, pois toda a sociedade suíça precisaria ousar dar este passo à frente. Precisaria estar preparada para abandonar os clichês vigentes e reescrever a própria história, de como lidou com os roma no passado. Do contrário, a situação não se normalizaria, mesmo com o reconhecimento oficial. Nós, roma, não podemos corrigir essa história sozinhos. 

swissinfo.ch: O senhor é muito ativo. Como presidente da associação Diálogo RomaniLink externo, que promove o intercâmbio entre suíços roma e suíços não-roma, o que o senhor pode fazer concretamente? 

K. S.: Buscamos o diálogo com a população e organizamos, por exemplo, oficinas de música e cursos do idioma romani. A maioria das pessoas que se interessam pela nossa música e que participam das oficinas não são roma. Fazemos leituras de poesia roma, colaboramos com outras organizações e fazemos campanhas informativas.

swissinfo.ch: O objetivo do seu engajamento de muitos anos pela causa dos roma na Suíça é, em primeiro lugar, que os clichês predominantes sobre esta minoria sejam normalizados. O que mais o senhor desejaria para a próxima geração de roma na Suíça? 

K. S.: Desejo que nossos filhos possam fazer parte da diversidade cultural da Suíça e ajudem a fortalecê-la. 

Governo e Ciganos Roma em diálogo

Ter consciência da sua origem e cultura – este é o lema atual das organizações roma na Suíça e está vinculado ao processo, iniciado há cerca de três anos, de reconhecimento oficial dos roma como minoria nacional no país. "O governo federal finalmente está pronto para tratar do assunto", afirma Angela Mattli. Ela é a gerente da campanha pela defesa das minorias e contra a discriminação da Sociedade dos Povos AmeaçadosLink externo, em Berna. Esta organização não-governamental participa das negociações entre os roma suíços e o governo desde a fundação de um grupo de trabalho específico, em 2014. Não apenas o governo tem se posicionado sobre o tema, mas os roma também, afirma Mattli. Isso tem despertado uma maior consciência da própria cultura em jovens roma, que sentem mais e mais vontade de divulgar isso publicamente. A moção para o reconhecimento oficial desta minoria ainda está em aberto no Ministério das Relações Exteriores. Membros do Parlamento suíço também retomaram a questão do reconhecimento dos roma recentemente, por causa do grupo populacional (Bevölkerungsgruppe) envolvido e do idioma romani (Sprache).

Os yeniches e os sinti já são oficialmete reconhecidos como minorias pelo governo suíço desde o ano passado. "Ficamos muito contentes com este reconhecimento", afirma Kemal Sadulov, presidente da associação Diálogo Romani (Romano Dialog). Ele não compreende, no entanto, por que motivo apenas os sinti foram selecionados. Os sinti são um grupo dentro do povo roma. "A solução mais plausível teria sido o reconhecimento dos roma. Os sinti estariam integrados neste grupo e, portanto, automaticamente reconhecidos. Da forma como ocorreu, os roma foram segregados mais uma vez", pondera Sadulov.

Sobre o assunto, o Ministério suíço das Relaçõe Exteriores (EDALink externo) afirma que a grande maioria dos sinti na Suíça não se define como pertencente ao povo roma. Em 1998, quando a Suíça ratificou a Convenção Quadro para a Proteção das Minorias Nacionais, do Conselho da Europa, e reconheceu os povos "viajantes" como minoria nacional, o que se queria era proteger os povos yeniche e sinti e o seu modo de vida. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, só recentemente as organizações dos roma passaram a se interessar pela convenção quadro. 

Manchetes ruins sobre os roma

Quando os meios de comunicação suíços mencionam os roma, em 80% dos casos trata-se de notícias sobre criminalidade, mendicância, prostituição e mal uso dos programas de asilo e de auxílio social. Este foi o resultado de uma pesquisaLink externo realizada em 2013, solicitada pela Comissão Federal contra o RacismoLink externo. Metade das notícias contém afirmações generalizantes, e 12,5% delas têm conteúdo discriminatório.


Adaptação: Fabiana Macchi

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