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Cioso de sua independência artística

A consagração do pianista viria mesmo em 1993, em Leeds, na Inglaterra.

(Site de Ricardo de Castro)

Ricardo Castro, 39 anos, é um dos pianistas que se impuseram na Europa, desde que venceu o concurso de Leeds. Ele procura "não ser produto do mercado, para não ter uma vida infernal”.

A vida do ainda jovem pianista baiano, natural de Vitória da Conquista, já daria um filme. Bastaria um bom realizador, tipo Polansky. Ingredientes de um bom cenário não faltam, a começar pela precocidade artística.

De fato, com 3 anos tocava piano, imitando a irmã. Aos 5 já era admitido em “escola famosa” de Salvador. Aos 8 dava o primeiro recital. E aos 10 era solista de concerto (veja traços biográficos, no site do artista).

Sua carreira de pianista internacional iria deslanchar mesmo na Europa, onde chegou para estudar antes de completar 20 anos, depois de muita luta – porque o gênio certamente não dispensaria trabalho – e depois de ganhar alguns concursos importantes.

A rampa

Ricardo aterrizou em Genebra em 1984, propulsado por um primeiro sucesso: a obtenção do prêmio principal do Concurso Sul América (companhia de seguros), dois anos antes.

Genebra parece ter funcionado como uma rampa de lançamento para o artista. Foi, por exemplo, nos cursos de virtuosidade ministrados pela pianista Maria Tipo que ele aprendeu as finezas da interpretação de Mozart.

Isso iria lhe servir no primeiro concurso que ganhou na Europa em 1985, o Concurso Rahn, de Zurique: a competição incluía o concerto para piano e orquestra em mi bemol maior (KV 271), de Mozart.

O prêmio de US$ 5’000,00 teria decidido a permanência de Ricardo Castro na Europa. Os desvalorizados cruzeiros que recebia da família davam para pouca coisa e, como ele explica, ele não tinha como conseguir bolsa de estudo do governo: “Além de não ser filho de deputado, não tinha ainda , obviamente devido à idade, diploma superior. E, ainda por cima, era baiano...”.

Nova etapa

Em tom um tanto desabusado, o pianista constata que se tornou “um bom cidadão brasileiro” só depois deste prêmio e de outros mais importantes.

Os “outros importantes” são o concurso da ARD de Munique, que ele venceu em 1987 e que tem em alta estima porque considera ideais as condições para o músico, pois qualifica a organização de excelente e o concurso de democrático.

Naquele ano não houve primeiro prêmio, mas apenas segundo, que Ricardo ganhou conjuntamente com um alemão.

Com um aparente sentimento de desforra, Ricardo Castro, um “outsider tropical” está consciente de tocar bem Mozart, Schumann e Beethoven. Por isso mesmo agrada em cheio, sendo em seguida convidado para dezenas de concertos na Europa.

Reconhecimento

A consagração do pianista viria mesmo em 1993, em Leeds (Inglaterra), “um dos mais importantes e difíceis concursos internacionais de piano do mundo”, mas que serve, porém, de “passaporte musical” para o artista vencedor.

Em seu site (não deixe de ler!) Ricardo conta com muito humor (por vezes corrosivo), essa sua última batalha para conseguir definitivamente um lugar ao sol, e... o respeito de que goza. Mas devido justamente a seu zelo em defender sua independência artística, ele quase se deu mal na ocasião.

O artista reitera com freqüência que detesta “compromisso”. Alheio a badalação, o bem sucedido pianista brasileiro gosta, aliás, de repetir que nunca se interessou em ser produto do mercado.

Poderia ter sido, depois de vencer o último concurso que prestou – o marketing estava feito pois se acentuava que ele era o primeiro sul-americano a ganhar o renomado concurso. Ou seja, “podia-se vender muitos discos, mas o preço a pagar seria muito alto”.

Alergia à “vie mondaine”

Em todo o caso, dá para imaginar que, com o prestigio conseguido, Ricardo Castro devesse levar uma vida acelerada, trepidante. Ledo engano.

Recatado, o artista leva vida social discreta, diz desinteressar-se pela “vie mondaine” parisiense, apesar de ter apartamento em Paris, que aprecia como cidade. E dedica boa parte de seu lazer aos amigos, “com quem prefere ficar”.

Indagado sobre seus projetos, seus compromissos profissionais, que podíamos imaginar quilométricos, Ricardo indica simplesmente seguir sua agenda de concertos: “Por sorte bem equilibrada, com 3 ou 4 concertos por mês, no máximo, essencialmente na Europa”.

E após essas mini-turnês de concertos bem agrupados, ele volta à cidade suíça de Friburgo – onde também reside – e onde ensina no conservatório local, ou vai descansar uma semana no Brasil.

Sua vida profissional não se limita, porém, a recitais, concertos, e lições de virtuosidade. Ricardo Castro tem contrato com a prestigiosa marca Deutsche Grammophone (DG), e depois de uma pausa de 4 anos, acaba de gravar um duplo CD dedicado a Schubert. São obras para piano solo e obras para 4 mãos, em parceria com a também conhecida pianista portuguesa, Maria João Pires.

Opção de vida

Em conversa com Ricardo, o interlocutor toma rapidamente consciência de que o artista sabe gerenciar o capital de prestígio de que goza. Sua atitude em relação ao marketing e às condições do mercado resulta de uma opção de vida.

Estima que já se expõe suficiente ao público quando toca. Como atitude musical, procura ser “generoso artisticamente”, não acreditando ser necessário ir além. “E mesmo quando estou no piano, sou uma pessoa como outra qualquer”, enfatiza.

Não se trata de uma atitude ideológica, pois ele não vê “nada de mal” nas pessoas que o conseguem fazer. “Simplesmente não consigo. E não me sinto superior”, destaca ainda.

E cita o exemplo de colegas que vão ao Japão por 24 horas: “Substituem outro pianista e voltam”. Ele mesmo não aceitaria propostas do gênero por achar que um trabalho que respeite o público e si mesmo deve ser realizado em condições humanas.

“Para tocar no Japão, precisaria ficar lá umas 3 semanas, realizando uma viagem de verdade”, aclimatando-me, adaptando-me ao fuso horário”, diz o pianista.

Ricardo Castro gosta de enfatizar que é artista e não comerciante. Constata, porém, que pelo fato de muita gente – por ser jovem ou despreparada – aceitar imposições do mercado, tais condições parecem naturais.

Liberdade também para ensinar

A preocupação com essa liberdade artística manifesta-se não só em relação aos recitais, concertos, gravações, como também em relação ao ensino (um capítulo à parte).

Se ele acabou de gravar um disco com Maria João Pires (com publicação prevista para outubro), não gravava nada há 4 anos. Essa pausa se explica pelo fato de ter feito uma série intensa de gravações “muito cansativas” – 5 CDs em 3 anos – dedicada a Chopin. E por achar que havia “uma grande oferta de CDs no mercado”.

Desde então Ricardo Castro procura ser mais seletivo, agindo não em função do mercado, mas, uma vez mais, em função de uma escolha artística: “Gravo quando há boas condições de gravação, de marketing, e acima de tudo, condições artísticas”, conclui o músico.

swissinfo, J.Gabriel Barbosa

Breves

Ricardo Castro nasceu em 1965. Sua carreira deslanchou em 1993 quando venceu o concurso de Leeds.

Ele está radicado há 20 anos na Europa, tendo residências em Paris e Friburgo, na Suíça, onde ensina.

Sua discografia inclui 6 CDs dedicados a Chopin e 1 a Mozart, a Liszt, de Falla, Schubert, Messiaen, Bach a Bartok.

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