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Comunidade internacional Genebra acompanha apreensiva a eleição brasileira

Na ONU, votação no Brasil é alvo de preocupação por parte de entidades internacionais que ainda se questionam sobre a futura política externa do País. 

Bandeira do Brasil pintada na parede e crivada de buracos de bala

A comunidade internacional está preocupada com as repercussões da eleição brasileira não só no Brasil, onde as tensões podem levar a um conflito aberto, mas também nos países vizinhos, que possuem um histórico recente semelhante, e fragilmente superado, de ditaduras militares. Na foto, mural crivado de balas no "Beco da Síria", favela do Jacarezinho, Rio de Janeiro

(Pilar Olivares / Reuters)

"Ô Bicharada, tome cuidado, o Bolsonaro vai matar viado”. O canto ecoava nos túneis de uma estação de metro de São Paulo, no último dia 3 de outubro, entoado por uma torcida de futebol. Se para alguns tratava-se apenas de mais uma provocação entre bandos rivais no futebol, o teor das palavras foi tratado por entidades internacionais como mais um exemplo sobre a violência que tomou conta do processo eleitoral no Brasil.    

Pela primeira vez desde o retorno à democracia, o Brasil terá uma eleição monitorada de perto pelas Nações Unidas e outras entidades com sede em Genebra. Não se trata do envio de missões de fiscalização ao Brasil. Mas da elaboração constante de informes internos que alimentam a cúpula da ONU com informações sobre o momento, considerado pela própria entidade como “delicado”, que vive o País. 

O temor é de que a violência inédita já registrada no processo eleitoral desestabilize não apenas o país, mas toda a região. 

Venda de camisetas de Bolsonaro

Camisetas verde-oliva à venda na rodoviária de Brasília. O apoio popular a Jair Bolsonaro é visível em todo país, e as pesquisas mais recentes apontam uma liderança de 18 pontos sobre Fernando Haddad. Mas a violência de alguns de seus seguidores nas ruas inibe adversários, indígenas, afrodescendentes, e comunidade LGBT. 

(Copyright 2018 The Associated Press. All rights reserved)

Apelo à classe política

O Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos, por exemplo, deixou claro sua preocupação e apelou à classe política brasileira a condenar explícita e publicamente os atos de violência. 

“O discurso violento e inflamatório dessas eleições, especialmente contra LGBTI, mulheres, afro-descendentes e aqueles com visões políticas diferentes, é profundamente preocupante, especialmente dado os relatos de violência contra tais pessoas”, disse a porta-voz do escritório da ONU, Ravina Shamdasani, em Genebra. 

Desde setembro, o orgão é chefiado em Genebra pela ex-presidente chilena Michelle Bachelet, vítima ela mesmo da violência política e da ditadura sul-americana nos anos 70. 

“Pedimos a líderes políticos e aqueles com influência a publicamente condenar qualquer ato de violência durante esse período eleitoral delicado, e a chamar a todos os lados para que se expressem de forma pacífica e com o total respeito pelo direito dos demais”, insistiu. 

Na ONU, o apelo é pelo respeito. “Condenamos qualquer ato de violência e pedimos investigações imparciais, efetivas e imediatas sobre tais atos”, declarou a entidade. 

Violência inédita

O acirramento diante da disputa eleitoral tem desembocado em episódios de violência física, como a facada contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL) e até um assassinato. Nos últimos dias, associações de advogados brasileiros fizeram diferentes levantamentos dos incidentes de violência e apresentaram os dados para que o Ministério Público realize investigações. Em todos eles, a agressão ocorreu por motivação política. 

Em Salvador, depois de se envolver em uma discussão na qual defendia o candidato petista, o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, foi assassinado a facadas dentro de um bar. 

Bolsonaro foi questionado sobre o assassinato. “A pergunta deveria ser invertida. Quem levou a facada fui eu. Se um cara lá que tem uma camisa minha comete um excesso, o que tem a ver comigo? Eu lamento, e peço ao pessoal que não pratique isso, mas eu não tenho controle.” 

Ele voltou ao assunto em seu Twitter, já com um outro tom. “Dispensamos voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores que não votam em mim. A este tipo de gente peço que vote nulo ou na oposição por coerência, e que as autoridades tomem as medidas cabíveis, assim como contra caluniadores que tentam nos prejudicar.” Mas, em uma segunda postagem, ele disse haver um “movimento orquestrado forjando agressões” para o prejudicar, “nos ligando ao nazismo, que, assim como o comunismo, repudiamos”. 

Há cerca de um mês, a ONU condenou a facada contra Bolsonaro e, já naquele momento, afirmou estar preocupada com a tensão vivida no País. 

Monitoramento

As recentes declarações não foram as únicas emitidas pela alta direção da ONU. Dias antes de deixar seu cargo de Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, em agosto, o jordaniano Zeid Al Hussein, qualificou o discurso do candidato do PSL de “um perigo” para certas parcelas da população no curto prazo e para o “país todo” no longo prazo. Zeid foi substituído logo depois pela chilena Michelle Bachelet. 

Internamente, a decisão das entidades internacionais foi pelo monitoramento da situação no Brasil, tanto por seu impacto regional, mas também diante do que a eclosão da violência poderia significar para o continente.  

A ex-presidente chilena Michelle Bachelet assumiu mês passado a chefia do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos

(afp_tickers)

Fontes internas apontam que o acompanhamento não se refere apenas a Bolsonaro. O que também se monitora é o cenário que se desenharia em caso de uma vitória do candidato do PT, Fernando Haddad, e um eventual uso do discurso de que a eleição teria sido manipulada para desestabilizar o próximo governo. 

Assim, desde agosto, o Brasil está sendo alvo de um acompanhamento específico por parte das agências da ONU no que se refere às eleições presidenciais. A informação tem servido de base para permitir que a cúpula da organização em Nova York e em Genebra esteja atualizada sobre os acontecimentos e possa, eventualmente, reagir com declarações públicas. 

Política Externa 

Pelos corredores das instituições internacionais e eventos em Genebra, diversas delegações brasileiras têm se confrontado com perguntas sobre o que será um eventual governo de Jair Bolsonaro e o que isso implicaria para a política externa brasileira.

Nesta semana, por exemplo, uma delegação de parlamentares britânicos aproveitou um encontro com deputados brasileiros em Genebra para tentar entender qual seria o posicionamento do país em vários assuntos internacionais em 2019. Bolsonaro, por exemplo, já acenou com a possibilidade de mudar a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalem, seguindo os passos de Donald Trump.

Mas diplomatas do Oriente Médio na Organização Mundial do Comércio alertam que, com um comércio importante de produtos agrícolas para países árabes, o Brasil pode acabar sofrendo perdas econômicas se seguir por esse caminho. 

No Conselho de Direitos Humanos da ONU, negociadores também buscam informações sobre indicações já feitas por Bolsonaro de que, se eleito, retiraria o Brasil o país do órgão das Nações Unidas. 

Estima-se o impacto que o resultado poderia ter em termos geopolíticos no hemisfério Ocidental, já chacoalhado depois da chegada de Donald Trump no governo dos EUA e de suas decisões sobre o Conselho. 

Fernando Haddad segura a Constituição do Brasil em evento com juristas

Em evento promovido por juristas e advogados em apoio à sua candidatura, Fernando Haddad posa segurando a Constituição do Brasil. Seus apoiadores temem que a Carta magna de 1988 não será respeitada por um eventual governo de Jair Bolsonaro.  

(EPA/Fernando Bezerra)

Refugiados

O Alto Comissariado da ONU para Refugiados, também em Genebra, é outro que acompanha de perto a situação política brasileira. A preocupação é de que uma eventual mudança de comportamento em relação à entrada de venezuelanos poderia ter um impacto para populações na fronteira e mesmo em outros países, como Peru e Colômbia. 

Os dados oficiais apontam que, em apenas cinco meses, duplicou o número de venezuelanos solicitando refúgio no Brasil, acumulando um total de 65 mil pessoas até o final de setembro. Para a ONU, porém, a crise não irá perder força em 2019.  

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