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Costa Concordia: "Nessa hora pensei que iria morrer"

O cruzeiro Costa Concordia naufragou na última sexta-feira, dia 13 de janeiro, após colidir em uma rocha nas proximidades da ilha de Giglio, na costa italiana da Toscana. Keystone

Lourdes Sola é uma brasileira radicada na Basileia há muitos anos. Ela e seu marido estavam no navio Costa Concordia no momento em que este bateu em uma rocha na costa da ilha de Giglio e naufragou.

Este conteúdo foi publicado em 19. janeiro 2012 - 15:55
Lourdes Sola, swissinfo.ch

A jornalista conta com exclusividade à swissinfo.ch os momentos dramáticos que viveu até ser salva.

Eu e meu marido, Branderley Claudio, embarcamos no Costa Concordia no dia 7 de janeiro, em Savona. Passamos por Toulon, Barcelona, Palma de Maiorca, Cagliari, Palermo e Civitavechia. Nosso desembarque seria em Savona, mas chegamos, graças a um bote salva-vidas, em Giglio, na Toscana, numa noite inesquecível.

Era o último dia a bordo do Costa Concordia. Fizemos as malas e deixamos duas delas sobre a cama para fechar depois do jantar, que começava às 21 horas. Escolhi um vestido básico de mangas três quartos e uma sandália. Meu marido vestia uma camisa xadrez e calça jeans.

Cumprimentamos os garçons que nos atendiam todos os dias e vimos o prato – a sugestão do chefe, que tinha como prato principal cordeiro – o mesmo servido no último jantar do Titanic. Depois de escolher o segundo prato, "pappardele al ragu", sentimos repentinamente o aumento violento da rotação da hélice, que parecia em reversão, manobra usada para desacelerar a embarcação.

"Isso é colisão", disse meu marido. Logo veio a batida abrupta – 21h45. A garrafa de vinho escorregou de um lado ao outro da mesa. Barulho de pratos e copos, acompanhado dos gritos de alguns passageiros. Muitos saiam com o telefone e avisavam familiares. Continuamos sentados até passar um pouco o tumulto.

Depois, levantamos e fomos à cabine. A ideia era aguardar uma ordem do comandante.

Giro de 180° 

Nossa cabine estava no 10° andar e o navio tombava para o lado esquerdo da embarcação. A prova disso é que as duas portas, da varanda e da entrada, ficavam abertas. Da varanda vimos que ele ligou as hélices laterais de manobra.  E nos assustamos com a proximidade da ilha. Estava perto demais para uma embarcação daquele porte. Veio o primeiro aviso. Alguém em nome do comandante informava que havia um problema com os geradores, mas que estava tudo sob controle.

"É mentira", disse meu marido, velejador com habilitação de mestre. "Ele bateu. Não acredito que o cara chegou tão perto!". O navio vira cerca de 180 graus e as portas, que anteriormente mantinham-se abertas, fecharam. Isso significava que a embarcação pendia agora para o lado direito.  Mantivemos as portas abertas com dois banquinhos que tínhamos na cabine – temíamos que o sistema eletrônico as fechasse em decorrência de outro blackout – tinha ocorrido um quando estávamos ainda no restaurante.

Soubemos depois que essa manobra foi o único acerto do comandante Schettino naquela noite de sexta-feira 13. Ao rodar e deixar o navio encostado nas pedras, possibilitou a saída de muita gente. Na posição em que bateu, a embarcação afundaria rapidamente. O número de mortos teria sido muito maior. Mas ele não informou aos passageiros que estávamos encostados e, consequentemente, com um pouco mais de tempo para desembarcar.

Temidos oito apitos 

Perguntamos ao cabineiro o que deveríamos fazer e ele disse que não tinha ordem nenhuma, mas ficou evidentemente assustado quando ouviu o anúncio em código para a tripulação: "Tango Tango 3", repetido duas vezes. Significava claramente uma emergência e estávamos em estado de alerta.

Já com os coletes e do hall do 10° andar, olhamos para baixo para vermos se estava tudo bem nos andares inferiores. Queríamos saber se havia água ali. As pessoas estavam sentadas no terceiro andar e muitas delas com coletes. Eram quase 23 horas, quando soaram os mais temidos oito apitos: sete curtos e um longo. Sinalizam que é preciso deixar a embarcação.

Voltamos à cabine correndo: coloquei uma calça jeans, peguei um tênis e um casaco. Meu marido pegou sua carteira, um casaco e saímos para o nosso local de desembarque. Eu tentava me convencer de que não poderia ser tão grave e que teríamos socorro rapidamente. Afinal, estávamos no Mediterrâneo e praticamente em terra.

Nosso desembarque seria do lado esquerdo – parte da embarcação que ficou fora da água e onde era nossa cabine, a 1070. Entramos em um bote e a sensação era de que tudo ia correr perfeitamente bem – como nos treinamentos. Os botes comportam muita gente, o mar estava calmíssimo e a terra distante apenas cerca de cinco minutos.

Os tripulantes tentavam soltar o bote, mas a inclinação do navio não permitia que ele descesse. Começou o desespero – dos tripulantes e nosso. Afinal, cada segundo significava litros e litros de água que adernavam cada vez mais o navio. Eles chegaram a usar um pequeno machado para quebrar a fibra do bote e tirar uma corrente que o prendia. Ouvia o barulho da batida na fibra do bote.

Uma jovem alemã ao meu lado estava em pânico e pedimos que se acalmasse, mas ela não ouvia: chorava compulsivamente e começou a vomitar. Do lado de dentro do navio, alguns oficiais com rádios tentavam ajudar os tripulantes – cozinheiros e garçons - e pediam que usassem os remos para pressionar e empurrar o bote que não descia, mas a comunicação era difícil. E não sei se era só um problema do idioma. Não sei se os tripulantes receberam mesmo treinamento para situações de emergência. Faziam o que podiam e um pouco mais, mas tinham de seguir as regras de desembarque. Insistiam, então, a nos desembarcar naquele bote – o do meio nas fotos do navio tombado.

Aviso para abandonar o navio 

Ainda dentro do bote, meu marido avisou que se tivéssemos de ir para a água, teríamos de ficar juntos. Ficamos de mãos dadas. Sabíamos que estávamos próximos de uma ilha, mas essa era a nossa última opção. Por volta de 23h30, um aviso do comandante: "Abandonar o navio", em italiano e em inglês. Isso significava que o navio afundava e eu não sabia quanto tempo nos restava.

Nessa hora, pensei que fosse morrer. Eram situações inusitadas: estava num navio que afundava no mediterrâneo, o bote não descia e o aviso de deixar a embarcação. Disse ao meu marido que não veríamos mais as pessoas que amávamos tanto. Como sempre, calmo, tratou de amarrar o laço de cima do meu colete e disse que ainda tínhamos muito tempo para sair dali. Estava incrédula, mas não desisti.

Pediram que descêssemos do bote e ajudássemos a empurrá-lo para embarcarmos. Foram algumas tentativas, mas a inclinação não deixava. Fomos comandados por um tripulante das máquinas – vestia um macacão branco. Ele avisava quando deveríamos fazer força: um, dois e já…Fizemos isso umas três ou quatro vezes…Até que ele desistiu.

Comando para desembarque 

Nos mandaram para o bote da frente – que também ficou no navio, o primeiro. Não desistimos, mas desobedecemos. Meu marido foi na frente e me chamou para atravessar o navio para o outro lado, a parte que afundava. Resisti porque não achei aquilo lógico e tinha medo de me machucar – muita gente escorregava por conta da inclinação do navio.  Ele gritou para que eu corresse e não discuti: obedeci. Quando chegamos do outro lado vimos mais de seis botes vazios que iam e voltavam desembarcando passageiros e tripulantes. "Agora estou tranquilo", disse meu marido. "Tantos barcos desse lado…".

Seria função do comandante, por exemplo, avisar os passageiros da possibilidade de desembarque do outro lado, bem como da real situação do navio, que se encontrava ainda escorado e que permitia a saída de todos.  Em nenhum momento houve este comando de desembarque claro.

Esperamos a saída de um bote e embarcamos no seguinte. Um tripulante que vestia uniforme azul-marinho, mas não era oficial, pediu que sentássemos no fim da embarcação. Alguns passageiros passavam pelo teto do nosso bote e embarcavam em outro, ao lado. Acho que naquela rapidez embarcaram umas cem pessoas. Nosso bote tinha muitos tripulantes, muitos conhecidos dos bares que frequentamos durante uma semana. Um deles nos saudou e disse que pela segunda vez estava numa emergência como essa. A outra tinha sido no Costa Europa.

Um indonésio que auxiliava as pessoas a entrar nos dois botes que saíram conosco não falava inglês e nem italiano, mas, com certeza, salvou a vida de mais de 300 pessoas.

As pessoas que ficaram do lado esquerdo do Costa Concordia foram retiradas por helicópteros ao longo da madrugada ou desceram por uma escada com auxílio dos bombeiros, resgate que terminou perto das 5 horas – bem depois do comandante Schettino ter deixado a embarcação, o que teria ocorrido antes da meia noite.

Pisamos na ilha de Giglio aos 5 minutos do dia 14 de janeiro. Abraçamos-nos e olhamos a lua, que brilhava mais intensamente para nós naquele momento. Uma viagem sem fotos, mas inesquecível.

Outros depoimentos

"O telefonema de muitos passageiros a amigos, parentes e até mesmo a autoridades portuárias ajudou no resgate."

"Graças a um desses telefonemas, o capitão Gregorio de Falco, de Livorno, gravou uma conversa que comprova o abandono do navio do comandante Schettino e de seus oficiais, que deveriam ajudar no desembarque."

"Ficamos com a mesma roupa até domingo, quando chegamos em casa. Como não tínhamos chaves, chamamos a polícia para acompanhar a abertura da porta por um chaveiro. Foram solidários e tentaram resolver tudo o mais rápido possível."

"Em Giglio, a população ajudava como podia: oferecia cobertas, lençóis, abriram alguns armazéns, além da igreja, que abrigou muitos idosos."

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Naufrágio

Naufrágio é a perda de uma embarcação que sofreu um acidente, afundando ou ficando presa em recifes ou baixios.

As causas podem ser muito variadas, mas a mais comum são os efeitos de más condições atmosféricas (tempestades) ou o efeito deliberado das guerras.

Um barco que encalhe na costa não é considerado como vítima de naufrágio enquanto permanece no local, até ser dado como perda total pelos donos ou pelas companhias de seguros.

Os lugares de naufrágios são muitas vezes motivo de atracção turística como é o caso do SS America Star frente a Fuerteventura nas Ilhas Canárias, o naufrágio do Napo na costa do Chile ou o SMS Dresden no arquipélago Juan Fernández (Chile).

No entanto, o naufrágio trágico do RMS Titanic (por colisão, em 1912) é o mais célebre da história recente.

Causas diretas

Via aquática: Perfuração do casco, o que permite a entrada de água na parte submersa.
Instabilidade: Inclinação do navio até um extremo que impede que este volte a estabilizar.

Causa meteorológica: A precipitação e fenómenos meteorológicos podem provocar a instabilidade do navio, assim como causar o seu impacto contra sólidos que provocarão danos no casco, e que podem favorecer as condições para as causas de via aquática.

Falha de navegação: Erro de origem humana ou tecnológica que possibilita a colisão do navio contra rochas submersas (agulhas de mar), icebergs ou contra outros navios.

Danos provocados: Destruição intencional do navio, que normalmente está motivada pela existência de uma guerra ou conflito. Neste caso, os danos podem ser causados por uma variedade de motivos, desde a sabotagem até ao impacto de projécteis, mísseis e torpedos.

(Fonte: Wikipédia em português)

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