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Direitos Humanos Festival europeu da canção sai do tom



Cantores de toda a Europa se apresentam nesta sala de cristal construída especialmente para a ocasião.

Cantores de toda a Europa se apresentam nesta sala de cristal construída especialmente para a ocasião.

(AFP)

O Eurovisão é uma oportunidade para o Azerbaijão revelar aos europeus o esplendor e os avanços econômicos do país. Mas a organização do evento na antiga república soviética chama especialmente a atenção para os excessos de seu regime autoritário.

Nas margens do Mar Cáspio, o Azerbaijão acolhe desde terça-feira (22) o Festival Eurovisão da Canção. As autoridades da ex-república soviética do sul do Cáucaso transformaram o evento, que é transmitido em toda a Europa, em uma vitrine para mostrar os progressos realizados desde a independência em 1991.

Para promover os méritos deste país predominantemente muçulmano e rico em petróleo, o presidente llham Aliyev e seu clã não economizaram recursos. Segundo o jornal suíço Neue Zürcher Zeitung (NZZ), que se baseou em uma estimativa do Centro de Pesquisa Econômica de Baku, a capital do país, a conta deve sair por mais de 600 milhões de dólares.

Descrita como "máfia" pela embaixada americana em Baku, a família governante tem forte influência sobre o evento. A primeira-dama, Mehriban Alieva, é a responsável da comissão organizadora. O marido da filha mais velha do casal presidencial Leyla Alieva, o cantor pop Emin Agalarov, se apresenta no palco em um show espetacular, embelezado pelo folclore do Azerbaijão.

"O Azerbaijão está nas mãos de um potentado corrupto que exerce o poder de um modo entre o comunismo e o despotismo oriental", disse Teresa Obrecht, presidente da seção suíça da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

Ataques da mídia

Nas últimas semanas, as críticas ao país anfitrião do Eurovisão foram virulentas, especialmente nos meios de comunicação britânicos. Channel 4 e BBC transmitiram várias reportagens mostrando a intimidação dos adversários, a corrupção e a violência relacionada com as preparações para o evento. Em seu site, a BBC resume a imagem que ela tem do país e de seus líderes: "O regime se apega ao poder através de uma combinação feita de eleições manipuladas, prisões de opositores e controle dos enormes recursos do petróleo".

A mídia suíça também não fica atrás. A televisão pública (RTS) mostrou uma reportagem sobre expropriações forçadas, sem indenizações e com fundo de corrupção, além da destruição de bairros inteiros de Baku. A intenção da "limpeza" é mostrar ao mundo o sucesso da pequena república petrolífera. Os dois principais jornais de Zurique publicaram uma longa reportagem condenando a situação no país. "O Azerbaijão se encena como um país aberto e moderno. Mas é só fachada. A situação dos direitos humanos lá é muito precária", escreve o NZZ.

O Tages-Anzeiger transcreveu, entretanto, o testemunho de um rapper preso e maltratado por insultar o presidente. Thérèse Obrecht argumenta que "a liberdade de imprensa não existe no Azerbaijão", e que sete jornalistas estão atrás das grades. Em um comunicado postado no site azerbaijan.az, o gabinete do presidente responde concisamente a todas essas acusações, denunciando uma campanha "antiazerista liderada pela mídia e por ongs ocidentais" e garantindo que o governo "tomou todas as medidas para garantir a segurança sociopolítica durante o Eurovisão".

Destaque

Nestas condições, será que o 57° Eurovision Song Contest devia mesmo ser realizado no Azerbaijão? Diretora Executiva da União Europeia de Radiodifusão (UER), que tem sua sede em Genebra, Ingrid Deltenre enfrentou fortes críticas. Segundo ela, "nenhuma organização política, seja a ONU, a União Europeia ou o Conselho da Europa, pronunciou alguma sanção contra o Azerbaijão. E as regras são as mesmas há 46 anos: o país que vence o concurso organiza o festival no ano seguinte". Ela também vê aí uma oportunidade para mostrar o sucesso, mas também o lado mais sombrio de um país, "é um destaque salutar".

Esta opinião é partilhada pelos Repórteres Sem Fronteiras e pela Anistia Internacional (AI). "Nossa campanha tem ajudado a avançar a causa dos direitos humanos neste país desconhecido”, estima Nadia Boehlen, porta-voz da AI na Suíça, acrescentando que “graças à pressão, alguns presos políticos, incluindo o pacifista Jabbar Savalan, puderam ser liberados.” Atualmente, 13 opositores ainda estão presos arbitrariamente.

Em resposta a um apelo feito pela AI, antigos artistas que participaram do Eurovisão se comprometeram em dar apoio aos detentos. A dupla suíça da banda Sinplus, formada pelos irmãos Gabriel e Ivan Broggini, eliminada na terça-feira nas semifinais, respondeu ao apelo da ong. "Como músicos e como todo mundo, só podemos expressar a nossa solidariedade com todas as pessoas no mundo que são privadas de suas liberdades fundamentais", declararam ao jornal suíço Le Matin.

Boicote

"Não adianta se enganar, este evento serve principalmente para melhorar a imagem e a comunicação do governo. Mas também permitiu que os adversários se exprimissem e forçou o Azerbaijão a abrir suas portas”, admite Nadia Boehlen. O que também observa o Tages-Anzeiger: "O país investiu muito dinheiro para se promover, especialmente com comerciais caros, mas não conseguiu impedir que o debate político acontecesse".

Por isso a Anistia Internacional não pediu que o evento fosse boicotado. Pelo contrário, aproveitou a ocasião para denunciar as violações dos direitos humanos que lá ocorrem. O mesmo deve acontecer na Ucrânia, onde daqui a duas semanas começará a Eurocopa: "Vamos pressionar o governo a pôr fim à violência policial", diz Nadia Boehlen.

O fato é que várias manifestações esportivas e culturais internacionais vêm sendo realizadas em países autoritários nos últimos anos: Jogos Olímpicos na China ou na Rússia, GP do Bahrein de Fórmula 1, Copa do Mundo de futebol no Qatar, etc. "São países que têm dinheiro para organizar tais eventos e que não hesitam em praticar a corrupção em grande escala”, disse Theresa Obrecht. “Mas os avanços esperados em termos de abertura política são muitas vezes decepcionantes, como vimos na China depois dos Jogos Olímpicos", conclui.

O Azerbaijão num relance

Ex-república soviética, o Azerbaijão declarou sua independência em 1991. Localizado no cruzamento entre a Europa e a Ásia, o país tem fronteiras terrestres com a Armênia, Turquia, Geórgia, Rússia e Irã. Tem quase 9 milhões de habitantes, na maioria muçulmanos.

Aliado político dos Estados Unidos, o Azerbaijão é fortemente dependente da exploração de petróleo no Mar Cáspio, o que representa 70% de suas exportações. Em 2006, com a abertura do primeiro super-oleoduto destinado à Europa, o pequeno Estado caucasiano cresceu 36%. Atingido pela crise, o PIB do país cresceu apenas 0,3% em 2011.

Depois de governar com mão de ferro de 1993 a 2003, o presidente Heydar Aliyev conseguiu forçar a eleição de seu filho Ilham Aliyev, nas eleições de 2003. O presidente foi reeleito com mais de 88% dos votos em 2008, em eleições consideradas antidemocráticas pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). O regime é constantemente criticado por organizações de direitos humanos por aprisionar de forma arbitrária seus adversários e não respeitar à liberdade de imprensa.

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Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch


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