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Escritor do Ticino "Falência à queima-roupa"

Crimes, design, falência e jazz formam um coquetel literário que expõe o cantão Ticino nas páginas de um romance policial, bem aderente à realidade. 

O escritor Andrea Fazioli em um ensaio fotográfico recente.

O escritor Andrea Fazioli em um ensaio fotográfico recente.

(Marika Brusorio Fotografia)

Andrea FazioliLink externo não sabe quantas falências as notas musicais de seu saxofone embalaram o desespero de falidos, escadaria abaixo. Ele tinha aulas do instrumento no andar em cima da sede do departamento de Execução de Falências, parada obrigatória de quem está em bancarrota, em Bellinzona (sudeste da Suíça. Por ali, passaram anônimos profissionais liberais e empresários, num calvário existencial de dimensão desumana, trufa à parte. Ao invés de compor a partitura de uma missa solene para os fracassados, o autor suíço escreveu o livro L’Arte del Falimento (A Arte da Falimento).

O lançamento, pela editora italiana Guando, foi em fevereiro deste ano. Em pouco tempo, o título escalou a classificação das vendas na Suíça italiana. Não por acaso, a trama se passa no cantão Ticino e dá ao leitor a chance de reconhecer paisagens urbanas e campestres, ruas e cidades, além de conhecer de perto, muito de perto, uma realidade difícil e camuflada: a falência, uma presença insidiosa e silenciosa, quase cotidiana em tempos de crise.

Por exemplo, entra em cena, como um pano de fundo para a trama, o problema do "dumping salarial". Este é um fator de tensão entre os italianos e os suíços que trabalham e vivem em zonas fronteiriças, de um lado ou de outro, à conveniência dos diretos interessados.

O autor pega carona na realidade mas prefere analisar a reação na alma das pessoas a estas questões. "Aproveitei para aprofundar alguns temas de atualidade, como o ‘dumping’ salarial, apresentando um caso de trufa que causa danos aos trabalhadores transfronteiriços. Colhi da realidade e conversando com pessoas, os casos ocorrem exatamente como descrevi ou até mesmo pior. A realidade destes trabalhadores é muito presente e me interessava explorar este povo em movimento, da manhã até a noite, daqui e de lá da fronteira", explica Andrea Fazioli para a swissinfo.ch, numa livraria, no centro de Milão.

A questão econômica real permeia a vida dos personagens do livro. Eles se movem na profunda província entre as italianas Chiasso e Como e as suíças Lugano, Locarno, em meio a lagos e montanhas e um vilarejo inventado, Corvesco.

Por ali, circula a história do ordinário detetive Elia Contini. Ele tenta elucidar o caso de um "serial killer" aguerrido contra os proprietários de uma loja de móveis, à beira do precipício financeiro. "Conheci uma loja de decoração e gostei deste espaço que é uma casa de fantasia. Este grande showroom, estes móveis que criam um falso espaço doméstico e que ninguém nunca vai habitar, esta riqueza de linhas que tem a sua melancolia", revela Andrea Fazioli sobre a escolha do setor moveleiro como centro gravitacional da trama.

Mais do que encontrar o assassino, o autor quer apresentar uma reflexão sobre a busca da verdade. "O romance policial deveria se interrogar sobre a verdade. Ao final, tem uma verdade…o que é a verdade, nada mais é do que a solução na qual tudo torna-se claro. Mas, às vezes, é necessário aceitar que as coisas continuem incompreensíveis. Eu escrevo romances policiais não para revelar os mistérios mas para aprofundá-los", diz o escritor.

O outro protagonista, Mario Balmelli, é um dos donos da empresa, arquiteto de formação e músico, de jazz, por vocação. Ele se agarra ao instrumento como uma tábua de salvação e se abriga na música. "Tem uma parte do livro que é um pouco autobiográfica, mas criei um personagem que toca muito melhor do que o autor, eu sou um amador", brinca Andrea Fazioli, com a swissinfo.ch

Falência

Antes da escritura do romance policial, no fim das aulas de música, o autor acabaria conhecendo um funcionário do departamento de Falências. "Era um rapaz que trabalhava ali. E ninguém podia imaginar que um jovem, com visual de ‘rapper’, todo tatuado, ficasse atrás do guichê e dizendo às pessoas que elas iriam perder os móveis, o piano. Algumas choravam. É uma situação emocional forte, é a burocracia do fracasso. Mas ele, com a sua simpatia, conseguia consolar estas pessoas", lembra Andrea Fazioli para a swissinfo.ch

Ao invés de ir atrás dos fracassados, o escritor decidiu investigar, a fundo, o fracasso em si e os seus efeitos na vida das pessoas envolvidas neste drama. E numa sociedade que não perdoa o fracasso condena à falência a possibilidade de um renascimento. Andrea Fazioli parte do princípio de que a derrota faz parte da condição humana. "Somos imperfeitos e temos que administrar os nossos fracassos", afirma ele.

O escritor suíço desmistifica o fracasso como rito de passagem para o sucesso. Nem sempre uma queda vira um passo de dança. O que acontece quando se fecha uma porta e nada mais se abre? Nem todo o mundo consegue transformar um fracasso num ato de heroísmo - ainda maior do que o objetivo inicial e falido -, como fez o explorador inglês Ernest Schackleton, no começo do século passado.

Andrea Fazioli explica para a swissinfo.ch: "O falimento é administrado de uma forma retórica, a la americana…tropeça, cai, levanta e vai ser mais forte do que antes…no romance, eu cito Steve Jobs que foi despedido, Elvis Presley a quem disseram de voltar a trabalhar como caminhoneiro, Albert Einstein não falava até o cinco anos…depois tem as quedas verdadeiras, de continuar no chão, me interessava explorar esta dinâmica de como suportar uma falência deste tipo, viver, esperar, ser feliz, apesar de tudo, mesmo tendo vivido uma derrota."

Como diz o narrador da obra, "a falência é uma pequena morte", " é como ser empurrado para fora do mundo". O outro lado da moeda é a consequência do ato de falir e a tentativa de reconstrução de uma identidade perdida.

Curiosidades

O detetive particular, Elia Contini, apareceu pela primeira vez no romance policial, Chi muore si rivede, de 2005, editado pela casa Dadò, que lançou Andrea Fazioli como escritor.

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O escritor não faz descontos à falência mas abre uma espiral de esperança. Ele aponta, como única salvação para minimizar os efeitos devastadores da brusca queda, o uso do auto ironia, "num certo sentido, muito suíça. Isso ocorre quando o senso de humorismo se transforma em gesto de heroísmo", completa o autor, que assume que se divertiu muito criando diálogos universais, em situações locais.

Entre uns e outros floresce o "Swiss way of life". Nas entrelinhas e nas linhas explícitas, Andrea Fazioli dá vida ao "swissness", o jeito helvético de ser e estar no mundo, naquele pedaço de terra. A boa educação e a riqueza são alguns destes elementos que escondem um submundo inquieto.

"Eu, como escritor de policial, mostro algumas zonas de sombra, me interessava mostrar não somente um clichê, mas também os pontos positivos, mostrar o que pode servir de exemplo. Tem a ironia…não é uma narração jornalística, mas me interessava mostrar as duas faces deste país", diz o autor.

O "depende", o hábito do acordo é um elo entre os dois lados, o iluminado e o sombrio. "O grande segredo dos suíços é o de encontrar uma via de compromisso, a existência da Suíça é uma negociação contínua, com pontos de flexão, como guerras sangrentas, no passado. Esta habilidade ao compromisso desenvolveu-se ao longo dos séculos, e que representa a única esperança na Europa. Quando se têm diferenças tão grandes, a única saída é o acordo e este é um valor positivo ao compromisso. Depois tem o valor negativo que é aquele de padronizar as peculiaridades, as diferenças, a tentativa de retirar as identidades características. Mas quando se consegue, sem comprometer a identidade, chegar a um acordo, pelo menos do ponto de vista técnico, burocrático e administrativo, a convivência é uma alternativa", afirma Andrea Fazioli.

Livro musical

A música jazz percorre a história como a chave de leitura do estado de espírito do personagem Mario Balmelli. A improvisação é uma das principais características deste tipo de música. Uma outra está na sua origem: os erros. No cinema, a trilha sonora ajuda a contar o que não foi dito ou mostrado. No livro, ela dá voz e melodia aos sentimentos do personagem. 

O leitor está convidado a ouvir ou imaginar o som de uma partitura literária, na medida justa. "No jazz, quando se improvisa e erra você não pode parar. Tem que continuar. Os grandes músicos de jazz usam os erros de maneira criativa. É preciso transformar o erro em algo que renda a tua voz única, não perfeita, mas única", diz o autor do livro.

A lista do personagem contém clássicos como Funny Valentine, Fine and Mellow, Every Time We Say Good Bye, In a Sentimental Mood, entre outras canções. E traz ainda referências a artistas como Billy Holiday, Duke Ellington, John Coltrane, entre outros.

Elas estão distribuídas ao longo das 281 páginas do livro. "Foi uma necessidade narrativa. Sobretudo, foi uma maneira de expressar o estado de ânimo do protagonista", explica Andrea Fazioli para a swissinfo.ch, sobre a escolha das músicas. O ritmo musical também é perseguido na construção dos diálogos. A experiência como autor de textos teatrais o ajuda na obsessão de criar uma dialética real e humana entre os personagens.

Ele conta que está "sempre atento ao ritmo, não apenas da narração, mas ao ritmo interno dos diálogos. Mas tem uma parte de introspecção psicológica, que é um pouco mais difícil de transformá-la em conversas". A busca por imagens ocorre também com outros recursos, espalhados pela trama e pescados da realidade.

Uma das personagens secundárias do livro traz no corpo a tatuagem do tenista suíço, Stan Wawrinka, campeão do torneio de Roland Garros, de 2015. As letras decalcadas na pele afirmam " Ever tried. Ever Failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better". Esta citação é uma das frases históricas criadas pelo escritor irlandês Samuel Beckett (1906-1989).

Literatura suíça

Mesmo sendo um dos autores mais lidos da Suíça italiana, ele não se sente como um representante da literatura suíça, em geral. "Pela simples razão que ela não existe, sob um certo ponto de vista", revela o autor.

Formado em letras, ele explica a provocação: " se pensamos bem, a literatura é a expressão de uma língua e não temos um idioma suíço. Então, não podemos falar de literatura suíça. Eu escrevo em italiano e pertenço a esta língua e outros pertencem a outras tradições literárias. E como tudo o que não existe, pode ser interessante indagar sobre esta reflexão", dispara à queima-roupa, o autor de romances policiais.

Ele lembra que o hábito de lermos tantas traduções prejudica o trabalho de escritura. Andrea Fazioli defende a leitura de obras na língua-mãe, como fonte inesgotável de enriquecimento. " Nós lemos romances traduzidos, mas dali não aprendemos as regras do diálogo", sintetiza o escritor.

O fato de viver num país multicultural, com mais de um idioma, torna a escritura e a leitura ainda mais complexas. "Cada realidade suíça é ligada a uma nação de referência. Este é o caso da Suíça italiana, mas daquela com a Alemanha-Áustria, aquela francesa, com a França. Cada uma tem a sua peculiaridade. Por exemplo, talvez como como hábito de leitura, os leitores da região norte possuam uma tradição maior do que os leitores da Suíça italiana", conta Andrea Fazioli.

A barreira interna é um obstáculo antes de ultrapassar a fronteira nacional e atingir os leitores internacionais. Por outro lado, esta dificuldade se traduz em oportunidade.

"É difícil para um escritor suíço deixar o território interno, um autor da Suíça francesa chegar na França, e assim por diante. Por outro lado, o autor suíço tem maior propensão a trabalhar com outras culturas do que quem vive em países como França e Alemanha, como realidade linguística. Eu pertenço à Suíça italiana e estamos acostumados ao confronto com as outras regiões", afirma Andrea Fazioli.

O escritor está sempre atento ao que acontece ao seu redor, uma realidade "itálvética", fonte eterna de inspiração para histórias deste e do outro lado das fronteiras, dele e dos leitores.

O autor declara ainda "que a Suíça está atenta aos livros, aos escritores, existe ajuda à cultura que não tem em outros países". Palavras de quem transformou a arte do falimento num manual de sobrevivência.

O autor

Andrea Fazioli nasceu em Bellinzona, 1978.

Depois do livro de estreia, ele publicaria mais cinco, além do último: L’uomo senza casa (2008 e prêmio Stresa e Selezione Comisso), Come rapinare una banca suíça (2009) e La sparizione (2010, prêmio La Fenice Europa), Uno splendido inganno (2013), Il giudice e la rondine (2014).

Algumas de suas obras foram traduzidas para o alemão, francês e russo.

O escritor se formou em Língua e Literatura Italiana e Francesa, na Universidade de Zurique, em 2004.

A tese de láurea foi sobre o poeta italiano Mario Luzi, de quem aprendeu a "deixar os diálogos incandescentes", como ele próprio afirma.

Já trabalhou como jornalista na mídia impressa, além de programas de rádio e televisão. Foi também professor de italiano nas escolas de nível médio e superior.

Como corredator da série web "noir" Notte Noir, dirigida por Fabio Pellegrinelli, venceu os prêmios Roma Web Festival (2015) e o Efebo d’Oro, de Palermo.

Ele é o fundador do laboratório de escritura e de leitura criativa Scuola Yanez, que atua na Itália e na Suíça.

Num artigo recente, Andrea Fazioli elencou sete grandes autores que exploraram o tema do falimento: Thomas Mann, Israel Singer, Nikos Kazantzakis, Honoré de Balzac, Friedrich Dürrematt, Ernest Shackleton, Pelham Grenville Wodehouse. 

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