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O Grand Hotel Locarno – onde tudo começou

arcadas
Locarno Film Festival, 1947

Hibernando há 15 anos, o majestoso Albergo Locarno abriu brevemente suas portas para nos permitir um vislumbre da história do Festival de Cinema de Locarno. O passeio nas memórias foi guiado por Frédéric Maire, diretor da Cinemateca Suíça e ex-diretor artístico do Festival.

O Grand Hotel, como era chamado, foi inaugurado em 1876 e sediou as negociações dos Tratados de Locarno em 1925, que mais tarde resultaram em um acordo para garantia da paz na Europa Ocidental após o trauma da Primeira Guerra Mundial.

Após a Segunda Grande Guerra, foi planejado um novo festival de cinema na parte italiana da Suíça – criado para se opor ao de Veneza, cujas origens estavam intimamente relacionadas ao regime fascista de Mussolini.

Laurine Chiarini, portrait
Laurine Chiarini participou da Academia de Críticos de Locarno de 2019. Ela estudou literatura, teoria cinematográfica, inglês e russo, com especial interesse nas obras de Vladimir Nabokov, Ernst Lubitsch e Federico Fellini. Durante seus estudos, ela esteve envolvida no comitê do cineclube da Universidade de Lausanne e, antes disso, como membro do comitê da Sociedade de Fala Russa da Universidade de Aberdeen (Escócia). Atualmente ela trabalha em uma associação econômica privada no cantão de Vaud, encarregada da integração local de empresas internacionais. Laurine Chiarini

Mas foi o acaso que fez Locarno virar a sede oficial do novo festival de cinema. Ainda em 1945, na sua primeira edição, o evento aconteceu em Lugano.

Para a realização da segunda edição, algumas árvores no entorno do palco principal precisariam ser cortadas para a montagem da tela. Mas, em um plebiscito, os moradores de Lugano recusaram democraticamente a poda das árvores. Assim, a grande tela foi transferida para o jardim do Grand Hotel em Locarno, que, situado em um terreno privado, poderia ser reorganizado para se adequar às necessidades cinematográficas.

Os tempos gloriosos

Na segunda edição, 1.200 espectadores assistiram às exibições sentados no jardim do Grand Hotel, com as cadeiras VIP vermelhas mais próximas da tela.

Mesmo depois de 1971, quando as exibições noturnas foram transferidas para a praça da cidade, a Piazza Grande, o prédio continuou sendo o ponto principal do Festival, onde entusiastas do cinema de todas as idades e horizontes se reuniam.

Durante o dia, o local fervilhava com várias atividades. Assim como o convés de um barco, os andares refletiam diferentes níveis hierárquicos: o último andar era reservado para – às vezes famosos – convidados e representantes da indústria; o patamar do meio era onde as coletivas de imprensa e outros eventos profissionais eram realizados; e o térreo, com seu jardim, lojas e esplanada, funcionava como o ponto de encontro natural do Festival, com estrelas do cinema e população local misturados em uma aglomeração alegre.

A piscina era outro canto agitado: depois da última exibição da noite, as festas continuavam lá, madrugada adentro. Ocasionalmente, a beirada da piscina também era palco para entrevistas, como a memorável ocasião em que um jovem Frédéric Maire, atualmente diretor da Cinemateca Suíça, e um jornalista de rádio entrevistaram Jean Rouch enquanto o cineasta nadava.

A decadência

Em 2005, o Grand Hotel foi fechado para sempre. Encontrar outro local que pudesse oferecer o mesmo charme, presença e grandiosidade revelou-se um grande desafio.

Até hoje, a mistura de pessoas, gêneros e a atmosfera única nunca puderam ser replicadas – embora a Piazza Grande forneça um clima um tanto semelhante de contemplação arquitetônica.

As arcadas que cercam a entrada do hotel, adornadas com fotos glamourosas de rostos famosos, formam um cenário majestoso. Mas hoje, fechada por uma cerca, a entrada que antes recebia gente como Marlene Dietrich ou Josef von Sternberg é ladeada por um McDonalds à esquerda e uma loja de roupas à direita. Ao longo dos anos, entre ofertas de compra rejeitadas e planos de reforma que nunca saíram do papel, o Grand Hotel permaneceu de pé, mas com seu jardim coberto de vegetação e seu terraço coberto de musgo, frequentado somente pela população felina das redondezas.

Futuro incerto

Recentemente, o banco Credit Suisse estimou o valor que seria necessário para reformar o hotel e colocá-lo de volta em operação: uma quantia bem razoável, entre CHF 80 e 100 milhões (US $81,5 e 102 milhões).

Mesmo que o edifício não esteja listado como um monumento histórico, alguns dos objetos no interior ainda possuem algum valor. Há alguns anos, os móveis foram leiloados e a maior parte dessas peças encontrou novas moradias na região, exceto o gigantesco lustre de Murano pendurado na escada.

Parte de um lote maior de uma série de outros lustres – embora muito menores -, a peça Murano não pode ser vendida sozinha. Dado o tamanho do objeto, considerado o maior lustre do tipo na Europa, ele não deve deixar o hall do Grand Hotel tão cedo.

Hoje em dia, são raras as pessoas que conseguem espreitar e ver o que há por trás das janelas fechadas com tábuas do hotel –  ainda que grupos tenham tentado  repetidamente reabri-lo apenas para no período do Festival. Apenas um pequeno punhado de sortudos ocasionalmente têm a chance de admirar seu interior outrora majestoso, graças à organização de uma coletiva de imprensa ou diária de filmagem.

Mas, o Grand Hotel continua a ser um local de fascínio para os exploradores e uma inspiração para os artistas. O histórico Albergo Locarno é o tema do curta Grand Hotel, dirigido por Giulio Pettenò, participante da Academia de Cineastas de Locarno em 2019. 

Por enquanto, apesar de sua fachada decadente, a memória viva do Festival ainda segue firme, alheia à vida agitada da cidade a algumas dezenas de metros de distância.

Adaptação: Clarissa Levy

Adaptação: Clarissa Levy

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