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O longo debate helvético sobre a memória do Holocausto

Muitos grupos exigem a construção de um "Monumento Suíço às vítimas do Holocausto". Na imagem: Yad Vashem, o memorial oficial de Israel para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto, construído em 1959. Keystone / Fabian Von Poser

A exigência de que a Suíça também erga um memorial às vítimas do holocausto recebe apoio político, mesmo de políticos conservadores. A política oficial tem sido marcada há muito tempo por lacunas políticas e fez poucos progressos desde os anos 1990.

Este conteúdo foi publicado em 08. maio 2021 - 10:00
Miguel Garcia

Mais de duas décadas se passaram desde a primeira proposta de construção na Suíça de um monumento às vítimas do Holocausto. Andreas Gross, deputado federal pelo do Partido Socialdemocrata (PS) e representante do Conselho Europeu, apresentou um projeto de lei requerendo ao governo federal que lembrasse do retorno de refugiados judeus que sobreviveram à perseguição.

Entretanto, o Conselho Nacional (Câmara dos Deputados) recusou o pedido, dizendo que o assunto era complexo demais para ser apresentado em forma de escultura. Além disso, era uma questão governamental e para as aulas de História. O fato de outros países, como a Alemanha, discutirem formas de lembrança como a construção de grande memorial em Berlim foi considerada irrelevante na época. Na Alemanha o objetivo era a representação de um sofrimento imensurável, em que "todos foram diretamente afetados", o que não foi o caso na Suíça.

Todavia a Suíça não esqueceu da guerra: já em 1989 era o único país da Europa a celebrar a mobilização geral do Exército e, portanto, em certa medida, a eclosão da guerra em 1939. Exército e o governo se lembram orgulhosamente da II Guerra Mundial como uma época de defesa heroica da pátria.

O ministro suíço da Defesa, Kaspar Villiger, e o coronel Nyffenegger participando em 1989 de um evento para lembrar a eclosão da II. Guerra Mundial. Keystone

"Auschwitz não está na Suíça"

Pouco depois essa imagem foi arranhada. Nos anos 1990, os descendentes de judeus assassinados pelos nazistas exigiram a devolução dos fundos das vítimas ainda depositadas em contas bancárias suíças. Delamuraz, deputado-federal pelo partido Liberal (PL), repudiou as exigências como um resgate, afirmando desdenhosamente em uma entrevista, realizada no final de 1996: "Às vezes, quando ouço certas pessoas, me pergunto realmente se Auschwitz se encontra na Suíça." Além da disputa sobre os "bens adormecidos", a política de refugiados tornou-se cada vez mais central para o debate. Fator decisivo foi um pedido do centro de documentação do memorial oficial de Israel, Yad Vashem, em Jerusalém, que procurava por nomes de judeus que haviam sido expulsos.

Crítica à cultura da memória: caricatura dos anos 1950, lembrando a convocação geral do Exército suíço em 1939. Efeu (Ernst Feurer-Mettler), Nebelspalter, 1989

A pressão levou gradualmente a Suíça a encarar suas responsabilidades. Um passo importante foi dado no final de 1995 por Kaspar Villiger, na época presidente da Confederação Helvética, quando pediu oficialmente, pela primeira vez, desculpas pelas injustiças cometidas contra os judeus perseguidos. Entretanto, seu pedido de desculpas referia-se apenas ao "carimbo judeu" - que a Suíça ajudou a introduzir - e não à política de refugiados em geral, esclareceu o porta-voz de imprensa de Villiger.

Em dezembro de 1996, o Parlamento finalmente criou uma Comissão Independente de Peritos (UEK, na sigla em alemão) liderada pelo historiador Jean-François Bergier. Sua tarefa era conduzir um estudo abrangente da política financeira, comercial e de refugiados da Suíça durante a II Guerra Mundial. Entretanto, as descobertas da equipe de pesquisa de nove membros não foram aprovadas por todos. Muitos grupos no país rejeitaram os estudos por considerá-lo demasiado unilaterais e negativos.

Em retrospectiva, só depois da virada do milênio é que se pôde observar uma recuperação gradual da situação da Suíça à paisagem internacional de memoriais. Desde 2004, a libertação de Auschwitz também é comemorada na Suíça, assim como em outros países, no dia 27 de janeiro. Tanto o Conselho Europeu quanto a ONU introduziram um dia específico para, através da lembrança, evitar futuros genocídios.

A Suíça também é membro de várias organizações internacionais dedicadas à memória das vítimas do Holocausto, como a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês). Em 2020, a conselheira federal (ministra) Simonetta Sommaruga reuniu-se com os sobreviventes do holocausto e participou de uma cerimônia de comemoração em Auschwitz.

A Suíça aceitou, após negociações com as autoridades nazistas, marcar com um carimbo a letra "J" no passaporte de cidadãos originários do país indicando que eram judeus. Keystone/ Photopressarchiv

"Políticas memoriais desastrosas"

No entanto, ainda não existe um monumento, como solicitado em 1995. Embora o passado tenha sido mais bem reavaliado, uma política oficial de memórias tem sido difícil de ser alcançada: quando o Senado pediu um memorial em 1997 - semelhante ao atual - a Câmara dos Deputados não deu seguimento ao assunto. O historiador Thomas Maissen falou mais tarde de uma "lembrança recusada"; o membro da UEK, Jakob Tanner, fala de um "desastre da política de memória".

Mas Tanner, que apoia a ideia de um memorial nacional do Holocausto, salienta que não existe uma "cultura expressiva de memoriais" em nível federal, como se conhece em outros países. Na Suíça federalista, diz ele, monumentos e símbolos de lembranças são mais um assunto para os cidadãos, associações, grupos de iniciativa, municípios, cidades e cantões.

De fato, a discussão sobre o papel da Suíça na II Guerra Mundial desencadeou algumas iniciativas locais nos anos 1990. Até então, os locais de memoriais consistiam principalmente de placas comemorativas e lápides em cemitérios judeus. Agora, alguns políticos, municipalidades e atores da sociedade civil também estão tratando de preservar a memória das vítimas do Holocausto ou de pessoas que ajudaram os fugitivos suíços, como Paul Grüninger, que foi reabilitado pela Câmara dos Deputados em 1994.

Mas a maioria desses lugares de memoriais permaneceram em grande parte desconhecidos. A escultura "Shoah", do artista Schang Hutter - posicionada diretamente em frente à porta do edifício do Parlamento em Berna em 1998 para marcar o 200º aniversário da Revolução Helvética - causou um grande alvoroço. Críticos viram o cubo de aço enferrujado como uma "escultura ingênua do cotidiano" que não fazia jus ao tema e, em Hutter, um "profeta autoproclamado", que não tinha o direito de erguer um memorial em nome de um povo perseguido.

As querelas terminaram quando, após alguns dias, um grupo de militantes conservadores do Partido da Liberdade Suíça removeu ilegalmente o "bloco de sucata" e o enviou de volta ao artista. Em seguida, a escultura fez uma pequena excursão pela Suíça e permaneceu por algumas semanas em uma praça central de Zurique. Paul Rechsteiner (PS) assim como outros representantes da esquerda, saudaram a ação artística de Hutter como um contraste "com a tentativa das instituições oficiais de suavizar o capítulo mais difícil da história da Suíça".

No momento existem 54 esculturas e memoriais na Suíça relacionadas ao Holocausto. Entretanto não são memoriais de grande escala, mas monumentos ou artefatos locais e bastante discretos. Além disso, existem dez pedras "memoriais" (pedras encravadas no chão, em forma de obstáculo, para chamar a atenção dos passantes) em homenagem às vítimas do Nacional-socialismo. Essa forma de homenagem já existem em diversos países europeus e fez sua estreia na Suíça em 2013.

Entre a lembrança e esquecimento

As duas últimas iniciativas podem agora preparar o caminho para um memorial central às vítimas do Holocausto. De forma geral, a relação da Suíça em seu papel durante a II Guerra Mundial foi repensada durante os últimos 15 anos. O fato de Alfred Heer, um proeminente representante do Partido do Povo Suíço (SVP), também ter se pronunciado a favor do memorial é motivo de surpresa. Afinal, seu partido foi um dos mais veementes críticos ?à Comissão Bergier, e rejeitou até mesmo o relatório da UEK sobre os refugiados.

A consonância partidária lembra as palavras de advertência do judaísta e especialista americano em memórias do Holocausto, James E. Young. Os grandes memoriais nacionais são geralmente produto de longos debates e, portanto, estabelecem uma espécie de ponto final. Desta forma, Young supõe que eles, em última análise, beneficiam mais o esquecimento do que a lembrança. O perigo do esquecimento é intensificado pelo fato de que logo não restarão sobreviventes que possam recontar as atrocidades dos nacional-socialistas, a partir de sua própria experiência.

Neste sentido, o projeto apresentado à Câmara dos Deputados é muito bem-vindo: prevê que o memorial seja acompanhado por um centro de documentação e ofertas educacionais, para combater os efeitos do racismo e do antissemitismo.

Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

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