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"Às vezes o dobro, mais gin"

Alcoólatras conhecem truques, suas fraquezas e seus anseios. Klaus Petrus

O alcoolismo na velhice ocorre de forma velada. A ONU fala em "epidemia oculta". Apresentamos aqui o retrato de um aposentado suíço que caiu no vício e que agora não tem forças para deixá-lo.

Este conteúdo foi publicado em 30. maio 2021 - 10:00
Klaus Petrus

Às nove e meia da manhã, depois de dois “cafés de Lucerna”, uma mistura de café e aguardente típica da Suíça, a paz volta lentamente à mente de Hans-Peter Koller*. Uma hora depois, tudo parece adquirir um tom irreal. Depois é hora do almoço, um copo de vinho tinto e outra aguardente, as notícias, uma soneca, e mais tarde ele sai para fazer compras. Na segunda e na quinta-feira encontra um conhecido com quem toma um copo ou dois. Na janta toma água mineral com gás. Porém, mais tarde, quando a esposa vai para a cama, pega outra garrafa, de preferência vinho tinto de alto grau alcoólico.

O aposentado de 69 anos calcula assim, de forma aproximada, sua dosagem diária: três doses de café, uma copo de vinho branco e três quartos de uma garrafa de vinho tinto. "Bem, às vezes bebo o dobro, mais gin".

Pouco se debate sobre idosos e seus vícios. Todavia, o novo relatório da ONU sobre drogas chama claramente a atenção para o tema. "A pandemia tem causado grandes danos à saúde e ao bem-estar das pessoas idosas. Entretanto, há também uma epidemia oculta de uso de drogas nesta população", disse recentemente em Viena Cornelis de Joncheere, presidente do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos. O uso de drogas e as mortes relacionadas ao vício entre as pessoas idosas aumentaram, disse ele, assim como o número de pessoas idosas em tratamento do vício".

Em seu relatório anual de tendências, o painel atribuiu o fato de que o consumo estava crescendo mais rapidamente na idade avançada do que entre as pessoas mais jovens ao envelhecimento da geração dos baby-boomers nos países ricos.

Depressão, insônia, solidão

Também na Suíça, os números são alarmantes. De acordo com ministério suíço da Saúde, um quarto dos maiores de 65 anos no país consome álcool diariamente, o que é mais do que qualquer outro segmento etário da população média. Cerca de sete por cento dos aposentados têm consumo crônico de álcool de alto risco, ou seja, bebem mais de quatro copos por dia. Cerca de um terço deles só o tem feito desde a aposentadoria. Depressão, insônia, dificuldades financeiras, morte de uma companheira, solidão ou o sentimento de não ser mais necessário para a sociedade estão entre as razões mais comuns para o consumo.

Klaus Petrus

O mesmo se deu com Koller. Ao se aposentar em 2015, após três décadas de trabalho como funcionário dos Correios Suíça, ele se retraiu cada vez mais e questionou sua vida. Ele não começou a beber em de um dia para o outro, diz Koller, ou em um mês ou ano em particular; o vício veio naturalmente, rastejante, suave e agradável. Mesmo antes de se aposentar, Koller já era às vezes atormentado por uma inquietação, como que vinda do nada. "Tenho que ir ao médico, estou ficando estranho?" ele havia perguntado a sua esposa. "Oh não, isso é apenas o medo diante do buraco (se referindo à aposentadoria)", respondeu.

Vinho barato em garrafa de Rioja

Ao se aposentar, ele teve dificuldades para dormir. Preocupava-se e tinha ataques de ansiedade. O médico receitou Temesta, o que ajudou. Junto com um copo de vinho, ele dormia como uma pedra. "Talvez isso tenha sido o começo", diz Koller hoje.

No primeiro ano após a aposentadoria, Koller bebia quase sempre fora de casa, o que saia muito caro. Hoje conhece cada mercado em Berna e arredores. Ele não faz as compras sempre no mesmo lugar para não chamar a atenção. Quando enche o cesta de compras, encontramos um vinho Beaujolais por 4,20 francos, dois Merlot por 2,90, uma garrafa de gin por 9,90, água mineral, tomates descascados em lata e pepinos em compota. Às vezes, tira um Rioja da prateleira quando há uma oferta especial por 12,95 ao invés de 19,50 francos, "só por causa da garrafa". Uma vez bebido o Rioja, Koller guarda a garrafa inclusive a tampinha para depois enchê-la com um vinho barato e servi-lo durante o almoço.

Dessa forma, uma garrafa de Rioja dura quase uma semana. Koller mantém as aparências. Na primeira vez, há três anos, usou um funil de plástico vermelho para engarrafar um vinho barato do Valais chamado Dôle. No dia seguinte engarrafou outro, e pensou para si mesmo: "Agora você se tornou em um bêbado."

Mudanças

Foi durante este tempo que a Koller começou a mudar. Ele mudou seu barbear diário matinal para o início da tarde, começou a adiar compromissos, a extraviar contas, perder suas chaves e compromissos com o cabeleireiro. Ele gritava palavras raivosas contra si mesmo e logo não mais suportava ver a si próprio.

Uma vez foi do sofá direto na cama à noite, de calça e camisa com chinelos, bêbado e triste, e no dia seguinte sua esposa apenas balançou a cabeça: "Oh, Hans-Peter, você está ficando velho!". Koller pensou então: por mim tudo bem! Desde então, ele vem se fazendo de bobo e esquivo cada vez mais frequentemente para Hildegard, com quem está casado há mais de quarenta anos. É claro que sua esposa sabe de sua situação, diz Koller. Mas ela não quer admitir isso. "Nós apenas fingimos que tudo é normal".

Jonas Wenger, da Associação de Profissionais relacionados ao Vício, conhece o problema. "O vício é um assunto tabu. Tantos sofredores lutam com a vergonha e levam uma espécie de vida dupla. Além disso, o vício é frequentemente trivializado, especialmente entre as pessoas mais velhas". Wenger vê isso como um grande problema. Porque muitas vezes as consequências insidiosas do consumo de álcool não são óbvias. "Muitos dos sintomas que podem acompanhar o vício do álcool, como esquecimento, confusão ou quedas, são semelhantes aos sintomas comuns da velhice. Assim, o consumo de álcool muitas vezes passa despercebido por muito tempo".

"As proibições não ajudam"

Some-se a isso o fato de que não se quer ser condescendente com os mais velhos e não se quer negar-lhes o direito a um "copinho pra relaxar". "Que as proibições não trazem nada, sabemos pela política direcionada aos dependentes dos últimos anos e décadas", diz Wenger. "As pessoas mais velhas também podem consumir por prazer". Em última análise, diz ele, o objetivo é que as pessoas afetadas tenham controle sobre o álcool e assim recuperem sua autonomia o tanto quanto possível.

Para Wenger, este é um ato de equilíbrio entre o reconhecimento da autodeterminação de uma pessoa e seu direito a cuidados especiais. "É importante que parentes ou profissionais falem com os afetados sobre seu vício e os apoiem em suas decisões". Wenger está convencido de que os idosos, em particular, têm muita experiência de vida e recursos suficientes que podem ser ativados e que podem protegê-los de se tornarem viciados. "Mas para que isso aconteça, é necessária uma vontade por parte dos afetados para enfrentar seu vício e obter ajuda".

Desde que Koller começou a beber - ele já bebe tanto que tem tremores pela manhã e balbucia à noite - alegria e lugubridade se alternam em ritmo acelerado. No momento em que o álcool traz seus efeitos, Koller fica confiante, alegre, até engraçado, e dá a impressão de que poderia conquistar a tudo e a todos. Em outros momentos, que se tornam cada vez mais frequentes, tudo parece escurecer a seu redor: as pessoas no ônibus, o jornal em sua mão ou a mulher ao seu lado.

"Vovô, você está fedendo"

Muitas vezes já é tarde da noite e vêm então as longas noites quando ele se pergunta: "Alguma vez já fui importante para alguém nesta vida? Ele sempre foi pontual no trabalho, sempre foi um marido e pai confiável, quieto, retraído e humilde. Koller sabe que soa como um choramingador, mas esta é uma questão que o preocupa, tanto quanto seus pensamentos sobre todas as guerras, mudanças climáticas, pandemias e crianças morrendo de fome.

"Talvez esteja sofrendo de depressão na velhice", diz Koller, encolhendo os ombros. Seu médico havia usado essa palavra recentemente, disse ele, e isso lhe pareceu particularmente estranho. Ele havia pensado em abstinência do álcool apenas uma vez, quando Elio, seu neto mais novo, lhe disse: "Vovô, você está fedendo". Ele se envergonhou então, mas justamente nesses momentos, Koller murmura, de alguma forma ele tem que se livrar daqueles pensamentos sombrios que sem o vinho aparecem, e com o vinho permanecem.

* Nomes alterados

Adaptação: DvSperling

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