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"O que mais me preocupa é a questão europeia"

© Keystone / Urs Flueeler

Remo Gysin, presidente da Organização dos Suíços do Estrangeiro (OSE), deixa o cargo no final de agosto. Em entrevista, faz um balanço dos seis anos à frente do órgão. 

Este conteúdo foi publicado em 13. agosto 2021 - 10:00

swissinfo.ch: O senhor renuncia ao cargo de presidente da OSE. Por quê?

Remo Gysin: Chegou a hora. A demissão foi planejada para o ano passado. Mas depois veio a pandemia.

swissinfo.ch: Você esteve com a OSE durante 21 anos. Você se lembra de sua primeira impressão?

R.G.: O que me fascinou desde o início foi esta organização mundial, que é única.

swissinfo.ch: Ao mesmo tempo, é também uma organização quintessencialmente suíça, quase simbólica de uma certa "Suíça patriótica".

R.G.: Exatamente. Nós pudemos ver isso no Dia dos Suíços do Estrangeiro (Swiss Abroad Day), durante a Festa dos Viticultores (Fête des Vignerons) de 2019, e na celebração do centenário da OSE em 2016, dois destaques do meu mandato. Emigrar é algo quintessencialmente suíço. Tradicionalmente, emigrar ainda faz parte de várias profissões. Conheço um queijeiro que emigrou para o Butão, se apaixonou por lá e ficou. Ele levou seu know-how e seu poder criativo para lá. Na aldeia onde ele mora, logo havia eletricidade e água corrente.

swissinfo.ch: Este emigrante ficou para sempre. Isso mudou. Hoje em dia, muitos vão por alguns anos e retornam. Isso ajuda a OSE quando ela tem que defender os direitos políticos da Quinta Suíça?

R.G.: A geração atual tem um interesse vital em ser capaz de moldar os eventos em sua terra natal. Hoje é um ir e vir. As estadias no exterior estão ficando mais curtas. A conexão com a Suíça continua viva.

"Esta sempre incrível mistura de helveticidade (swissness) e cosmopolitismo".

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swissinfo.ch: Essas pessoas são muito móveis, cosmopolitas. Mas menos suíços, também?

R.G.: Pelo contrário. Eles são uma espécie de levedura da Suíça que faz muito bem ao país. Eles trazem uma perspectiva externa, também experiência, às vezes conexões tangíveis. Isso é muito valioso para nosso país. Para mim, sempre foi um destaque conhecer os suíços no exterior, esta sempre incrível mistura de helveticidade (swissness) e cosmopolitismo.

swissinfo.ch: Você prolongou seu mandato por um ano, e já fez muitas vezes esforços suplementares antes. Só se faz isso quando as convicções nos impulsionam. Qual foi o seu motivo?

R.G.: Um campo de trabalho fascinante e cheio de responsabilidades no qual também se pode contribuir para a justiça social.

swissinfo.ch: Como organização de lobby, seria a OSE o veículo certo para a defesa da dimensão social?

R.G.: Claro. Educação, aposentadoria e seguro saúde são questões centrais para a OSE. Há sempre suíços no exterior que se encontram em necessidade devido a crises. O conflito entre Israel e a Palestina é um exemplo. O mundo está se tornando mais dividido, os desastres ambientais estão aumentando. Os suíços do exterior também estão sentindo os efeitos disso. A pobreza está crescendo. Ela é, a propósito, também um motivo para emigrar. Cada vez mais os suíços mais velhos estão deixando sua pátria porque podem viver melhor com suas aposentadorias na Espanha, Portugal ou nas regiões fronteiriças de nossos países vizinhos, por exemplo, do que na Suíça.

swissinfo.ch: Ao mesmo tempo, é impressionante como os cidadãos no estrangeiro estejam ligados a uma conta bancária suíça.

R.G.: É isso mesmo. E com relação ao pagamento de pensões e benefícios de seguro saúde, muitas vezes sem qualquer outra escolha. A instabilidade financeira com riscos de desvalorização maciça no país anfitrião também exige uma conta bancária na Suíça. Assim como obrigações de pagamento de vários tipos, por exemplo, para a manutenção de casas ou mesmo de túmulos.  Muitos suíços no exterior tiveram sua conta em um banco suíço encerrada ou foram recusados a abrir uma conta. Com o Banco Cantonal de Genebra, temos agora um parceiro que está fazendo um verdadeiro esforço. Sinto falta disso nos grandes bancos.

swissinfo.ch: E ainda assim as taxas bancárias, em particular, parecem bastante arbitrárias, não?

R.G.: Sim, e isso também se aplica a depósitos mínimos de 100.000 francos ou mais. Se houvesse uma vontade, haveria também uma solução. Mas falta a vontade. Infelizmente, este também é o caso com o banco público Postfinance.  A OSE e também vários parlamentares abordaram várias vezes o Conselho Federal sobre este assunto.

swissinfo.ch: O Conselho sempre se refere diplomaticamente à liberdade econômica.

R.G.: O que também tem seus limites. As necessidades básicas da população são mais importantes do que a pura busca do lucro.

Remo Gysin, Präsident der Auslandschweizer-Organisation. Keystone

Remo Gysin

Nascido em Basiléia em 1945, ele estudou economia e tornou-se consultor de gestão empresarial. Entre 1984 e 1992 ele foi membro do governo cantonal da cidade de Basiléia.

O socialdemocrata foi eleito para o Conselho Nacional (Senado) em 1995, onde cumpriu seu mandato até 2007.

Lá, Gysin fez campanha pela adesão da Suíça às Nações Unidas (ONU), participou de missões internacionais e foi enviado a vários países como observador eleitoral.

Ele é membro do Conselho da Organização dos Suíça do Estrangeiro (OSE) desde 2001. Em 14 de agosto de 2015, ele foi eleito como seu chefe.

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swissinfo.ch: Você se impõe poucas restrições ao criticar a Suíça.

R.G.: A crítica é vital. Ela é necessária para o progresso e faz parte da democracia. A crítica, como eu a entendo, é construtiva.

swissinfo.ch: E, ao mesmo tempo, você é muito orgulhoso da Suíça. Orgulhoso do que, na verdade?

R.G.: Estou feliz com muitas conquistas, com direitos civis, liberdades, inovações sociais e econômicas, que os Conselheiros Federais possam ir às compras sem proteção pessoal e que possam também ir ao trabalho de bicicleta. Também estou orgulhoso do Estado social, de nossa democracia e da maneira como vivemos juntos. Mas ainda há muito o que fazer.

swissinfo.ch: O que o incomoda?

R.G.: Xenofobia, discriminação, ganância pelo lucro. Acho a política inclemente de refugiados completamente incompreensível. O que nos impede de acolher generosamente as pessoas necessitadas?

swissinfo.ch: Aqui fala um membro de carteirinha da geração de 1968...

R.G.: ...que fez um estágio em Praga durante a primavera de Praga e assim ganhou sua primeira experiência como suíço no exterior.

swissinfo.ch: De volta à OSE. Que organização você deixará para seu sucessor?

R.G.: Uma OSE bem posicionada, com excelentes ligações com instituições públicas e privadas, que está ansiosa por desafios futuros e pode contar com 650 associações suíças ativas. Nosso escritório em Berna é criativo e ágil. Por exemplo, temos lidado muito bem com as mudanças necessárias para o trabalho em horário reduzido, escritório em casa e novas formas de comunicação, como resultado da crise do vírus corona.

swissinfo.ch: O que ainda há a ser feito?

R.G.: Além de nossos canteiros de obras permanentes como a votação eletrônica e o seguro social, a política bancária e a política externa nos manterão alertas. Além disso, temos que tornar a OSE mais conhecida na Suíça e dar mais apoio às associações suíças no exterior.

swissinfo.ch: O que é realmente típico desta organização?

R.G.: O fato de estarmos acima de diferenças partidárias e de representarmos conjuntamente os interesses dos 776 mil suíços no exterior.

swissinfo.ch: Vocês têm mesmo tanta harmonia?

R.G.: Naturalmente, há também diferentes perspectivas e áreas de tensão dentro da OES. Isto pode ser visto, por exemplo, na discussão sobre nosso relacionamento com a UE ou, em um nível completamente diferente, na questão de se o inglês também deve ser aceito como a língua de discussão no Conselho dos Suíços do Estrangeiro.

swissinfo.ch: Um representante do Partido do Povo Suíço (SVP, na sigla em alemão) o acusou de impor uma agenda socialista à OSE.

R.G.: Ele provavelmente não gostou do fato de o Conselho dos Suíços do Estrangeiro ter votado “não” à iniciativa de autodeterminação. O presidente está integrado em uma diretoria e no Conselho dos Suíços do Estrangeiro, que prepara e toma todas as decisões importantes. A posição da OSE na Europa sempre foi determinada por numerosas decisões e resoluções aprovadas por uma grande maioria.

swissinfo.ch: Isto nos leva aos contratempos. Mais recentemente, a rejeição da Suíça ao Acordo-Quadro com a Europa. A questão bancária e a votação eletrônica também foram derrotas durante seu mandato.

R.G.: Nenhum desses desenvolvimentos foi de responsabilidade da OSE. Os contratempos com a votação eletrônica foram muito difíceis para nós. Mas agora as coisas estão avançando novamente. Esperemos que o governo federal tome as rédeas com firmeza. Mas o que realmente me preocupa mais é a questão europeia. Muita coisa depende da relação da Suíça com a Europa.

"É como se a Suíça estivesse mais interessada nos EUA e na China do que na Europa."

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swissinfo.ch: Quando você era membro do Senado, você já estava pressionando para que a Suíça aderisse à ONU. Então este compromisso por uma maior proximidade com a Europa. O que você espera dos laços internacionais da Suíça?

R.G.: A Suíça precisa de parceiros. Durante a discussão sobre a adesão da Suíça à ONU, a Suíça quase não tinha laços internacionais e havia acabado de decidir contra o Tratado da Zona Econômica Europeia (EEA). Em certa medida há um paralelo com o que se vê hoje, quando a importante relação com a Europa está mais uma vez estremecida. O acordo estrutural foi rejeitado. Os acordos bilaterais estão em questão, e alguns deles já estão sendo desmantelados. A política suíça dá atualmente a impressão de estar mais interessada nas relações econômicas com os EUA e a China do que na Europa. Isso é decepcionante.

swissinfo.ch: Para você ou para a Quinta Suíça?

R.G.: Para a Suíça como um todo. Somos parte da Europa. Mais de 60 por cento de todos os suíços no exterior vivem na Europa. Se a livre circulação de pessoas for posta em questão, como já acontece com programas de educação conjunta, isso será devastador para as perspectivas sociais e profissionais, incluindo a reunificação de famílias.

swissinfo.ch: É notável como as fronteiras têm um certo significado.

R.G.: Sou de Basileia, então você sente as fronteiras mais do que em Zug ou Glarus, por exemplo. Nosso interior é a Alsácia e Baden-Württemberg. Mesmo quando criança, acabei indo parar na Alemanha, inesperadamente, em uma excursão de bicicleta. Mesmo como estudante, eu sempre tinha três moedas no bolso. No canto dos três países, você nasce europeu.

swissinfo.ch: O estabelecimento de um memorial do Holocausto suíço lhe foi particularmente caro. O projeto está agora bem encaminhado. Já há um mandato do Parlamento para o Conselho Federal. Satisfeito?

R.G.: Sim, muito. O ímpeto veio de um artigo na revista "Beobachter", que levou a uma discussão no Conselho dos Suíços do Estrangeiro. Inicialmente, tratava-se das aproximadamente mil vítimas suíças da era nazista. A ideia foi desenvolvida em cooperação com historiadores, com os Arquivos de História Contemporânea da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH) e com a Federação Suíça de Comunidades Judaicas. Com sua entrega ao Conselho Federal, e a transferência das moções pelo deputado-federal Alfred Heer e pelo senador Daniel Jositsch, o Conselho Federal tem um mandato vinculante para estabelecer um memorial federal. Estou ansioso pela sua implementação.

swissinfo.ch: Você disse neste contexto: "As fronteiras suíças não devem ser as fronteiras da história da Suíça". O que você quis dizer com isso?

R.G.: Durante muito tempo, a história da Suíça parou nas fronteiras nacionais. Mas para os suíços do estrangeiro, em particular, é claro que a Suíça não termina na fronteira.

swissinfo.ch: O que mais você gostaria de ter alcançado na OSE?

R.G.: Infelizmente, a representatividade do Conselho dos Suíços do Estrangeiro não pôde ser estabelecida como esperávamos. Países pioneiros como o México, Austrália e Reino Unido elegeram seus delegados via e-mail de maneira exemplar. Infelizmente, outros países não seguiram o exemplo. Isto é uma pena, porque o Conselho dos Suíços do Estrangeiro deveria, na medida do possível, representar toda a diáspora suíça.

swissinfo.ch: Por quê?

R.G.: Porque seu reconhecimento e, portanto, sua influência potencial depende disto. Se apenas os membros de associações suíças, ou seja, apenas 2 a 4% de todos os suíços no exterior, têm o direito de votar e ser eleitos, os requisitos necessários para a representatividade não são atendidos.

swissinfo.ch: Você tem uma solução?

R.G.: Uma lição do que tem sido feito até agora é que a Confederação e a OSE devem apoiar mais as associações suíças no futuro, e estas últimas devem aceitar a necessidade de uma participação muito maior e de alterar seus estatutos de acordo.

swissinfo.ch: O Conselho dos Suíços do Estrangeiro é composto como um partido político com de delegados de associações locais. Ele também vota como um partido político. Se você pudesse ver as coisas dessa maneira, então tudo não seria tão problemático.

R.G.: O Conselho de 140 membros suíços do estrangeiro é mais como um parlamento. Seus membros são eleitos em círculos eleitorais regionais, que depois formam uma delegação geográfica semelhante a um grupo parlamentar.

“Assentos permanentes dos suíços do estrangeiro no Parlamento continua sendo uma visão que vale a pena considerar.”

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swissinfo.ch: Poderia instaurar-se assentos permanentes para os suíços do estrangeiro no Parlamento federal, como é o caso por exemplo da França e Itália.

R.G.: Um grupo de trabalho examinou esta questão e mostrou como isso seria difícil de realizar. Os suíços do exterior têm atitudes básicas tão diferentes quanto as que podem ser observadas na Suíça. A coesão dentro de um grupo parlamentar "suíço do estrangeiro" seria, portanto, muito frouxa na maioria dos assuntos parlamentares.

swissinfo.ch: Então a representação no parlamento não é um objetivo?

R.G.: Sim, é, mas é principalmente para ser realizado da maneira estabelecida através da inclusão em listas de partidos cantonais. Outro modelo seria tratar os suíços globais no exterior como um cantão como um círculo eleitoral separado para o Parlamento federal. Isso daria aos suíços no exterior uma representação parlamentar segura no Conselho Nacional (Câmara dos Deputados) e no Conselho de Estados (Senado). Esta continua sendo uma visão que vale a pena considerar.

Adaptação: DvSperling

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