Fórum Econômico de Davos comemora 50 à procura de um melhor capitalismo

WEF Founder and Executive Chairman Klaus Schwab wrote the first Manifesto in 1973, which was described as a code of ethics for business leaders. Keystone / Valentin Flauraud

O Fórum Econômico em Davos reúne há cinquenta anos a elite do mundo político e dos negócios. Porém em um contexto de protestos mundiais por democracia ou clima, os organizadores se esforçam em mostrar que o evento é muito mais do que uma festa só para convidados.

Este conteúdo foi publicado em 21. janeiro 2020 - 12:15

Em 1973 o mundo ainda estava dividido pela linha ideológica da Guerra Fria. Foi quando o professor alemão Klaus Schwab surgiu com um manifesto, conclamando multinacionais a se reunir para discutir outros temas além dos negócios. Foi uma ideia pioneira em uma época em que muitos jovens protestavam nas ruas contra as guerras e ainda não conheciam os problemas causados pelas mudanças climáticas. 

Apenas três anos antes, o ano em que foi organizado o primeiro Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), o estatístico e economista vencedor do prêmio Nobel em ciências econômicas em 1976, Milton Friedman, trouxe a sua bastante citada teoria de que a única responsabilidade social das empresas é a busca por lucros.

Nas décadas seguintes, a teoria de Friedman se tornou uma regra geral e a posição de Schwab assumiu um papel secundário: os acionistas, sim, eram a prioridade de qualquer empresa.

"Foi uma luta convencer as pessoas das minhas ideias", declarou Schwab, ao refletir sobre sua teoria durante a coletiva de imprensa realizada na semana passada em Genebra.

Ao comemorar os cinquenta anos do Fórum Econômico na estação suíça de esqui de Davos, o professor alemão mostra que seu manifesto está mais atualizado do que nunca, especialmente ao trazer de volta a linguagem do capitalismo de intervenientes e lembrando ao público seu mantra desde os primórdios: o que é bom para a sociedade, é bom para os negócios.

Afastando a possibilidade de mais regulamentos

O novo "manifesto" de Davos chega em tempos de crescente ansiedade no mundo corporativo. É quando ativistas pelo clima inundam as ruas e políticos tentam regular as empresas em todos os setores, seja controlando o preços dos medicamentos até na proteção de dados pessoais.

As empresas escutaram a mensagem. No ano passado, uma associação de executivos da indústria nos Estados Unidos foi tema de manchetes quando mais de 180 CEOs assinaram um documento se comprometendo a redefinir o principal objetivo de uma empresa. Eles prometem agora incluir os interesses de faixas mais amplas da sociedade. Porém a declaração foi mais reacionária do que inovadora, especialmente em um momento em que o mundo empresarial vive sob forte pressão: dos funcionários, fornecedores, mas também das comunidades nos seus países. 

Oliver Classen, porta-voz da Public Eye, uma ong suíça que tem tido um papel importante na organização dos protestos contra o WEF em Davos ao longo dos anos, questiona os motivos por trás das mensagens transmitidas pelas empresas e pelos próprios organizadores do Fórum Econômico.

"As multinacionais nunca sofreram tanta pressão como na atualidade", declarou à swissinfo.ch. Como exemplo, cita os incêndios que devastam a Austrálida e os protestos contra empresas australianas. Ambientalistas exigem que essas companhias, especialmente atuantes no setor de petróleo e gás, façam mais para combater as mudanças climáticas antes que seja necessário regulamentar ainda mais a exploração dos recursos.

A pressão pública ocorre também na Suíça, onde uma política vista como liberal e, por vezes, também laxista, é considerada uma vantagem comparativa pelas multinacionais que lá se instalam. Nos próximos meses o Parlamento helvético tratará da chamada "Iniciativa (n.r.: projeto de lei que é levado à plebiscito popular depois de recolhida um número mínimo de assinaturas) Empresarial Responsável". Se aprovada nas urnas, ela obrigaria as empresas a assumir responsabilidades por violações nos direitos humanos e ambientais de seus investimentos no exterior.

Frédéric Dalsace, professor da escola empresarial IMD, concorda. "Você tem o doce e o castigo ao mesmo tempo. Há uma corrida na procura de soluções. As empresas serão rápidas o suficiente ou o governo será obrigado a impor regras?", questiona.

Colocando à prova

O jornal Financial Times revela em um artigo que mais da metade das maiores empresas americanas se comprometeram a apoiar esse "propósito". Mesmo as mais criticadas pelas ONGs mudaram a sua abordagem.

A gigante suíça do setor de commodities, Glencore, promete hoje "explorar de forma responsável os recursos do planeta para a nossa vida cotidiana" ao invés de se limitar a ser "um simples comerciante de commodities operando ao redor do globo", como se autodescreveu em 2015.

Mas se as principais atividades das empresas são questionadas, sua disposição de mudar pode chegar aos seus limites. O grupo alemão de engenharia, Siemens, foi duramente atacado por ativistas do clima, incluíndo a jovem sueca Greta Thunberg. A principal crítica é o projeto da empresa de construir uma grande usina à carvão na Austrália, onde incêndios destroem uma área muito maior do que território da Suíça.

Apesar da pressão dos ativistas, a Siemens decidiu manter o projeto. O presidente mundial, Joe Kaeser, ainda declarou. "Apesar da simpatia que nutro pelas causas ambientais, é preciso encontrar um equilíbrio entre os interesses das diferentes partes envolvidas."

Essa posição levou a pessoas como Christy Hoffman, diretor-executivo da federação internacional de sindicatos Uni Global Union, a ir à Davos com uma dose de ceticismo. "Não basta dizer que queremos tornar o mundo um lugar melhor para viver", declarou à swissinfo.ch

"Se o capitalismo de intervenientes é algo verdadeiramente novo e não apenas boas intenções, é preciso que seja uma mudança fundamental na correlação de poder em favor de grupos como os trabalhadores."

Existem muitos exemplos de empresas que mudaram o perfil dos seus projetos ou produtos, pois não correspondiam mais aos seus valores ou éticas. Hoje desenvolvem soluções para os desafios globais mais urgentes. Quaisquer que sejam seus motivos, seria uma posição inimaginável nos anos 1970.

Ainda mais forte do que regulamentação, os acionistas ou mesmo os ativistas, afirma Dalsace, sabem que os consumidores se informam graças à internet. "Quando as capsulas da Nespresso chegaram ao mercado, ainda não havia uma grande preocupação em relação a sustentabilidade do produto. Porém os consumidores exigiram mudanças e a Nestlé tem de atendê-los."

Sem atos isolados

Classen também teme que essas novas propostas sejam apenas uma distração à necessidade fundamental de prestar contas. "É como os incendiários que se autodenominam bombeiros. As empresas se apresentam como se estivessem resolvendo problemas que elas, na verdade, criaram", diz.

Para o ativista, o acordo de parceria assinado pelo WEF e a ONU no ano passado é o epítome do problema. O acordo "abre uma brecha para que que os executivos das multinacionais assessorem as organizações da ONU e seus programas". E é o exemplo mais escandaloso do sequestro corporativo da governança global já visto".

Imediatamente após ter sido anunciado no ano passado, o acordo foi criticado por 250 grupos da sociedade civil que, como resultado, enviaram uma carta à ONU para exigir uma revisão do acordo. Eles disseram que a "corporatização da ONU" pode deslegitimar a ONU e reduzir o apoio público, um grande risco em um momento em que o multilateralismo já está sob forte ameaça.

As agências da ONU são criticadas por terem feito parcerias com empresas. Um exemplo é o acordo firmado entre a Organização Mundial do Trabalho (OIT) e a indústria do tabaco, onde as empresa prometem financiamento de projetos.

Klaus Schwab argumenta que os problemas são complexos demais para soluções individuais. "Grandes desafios - seja no meio ambiente ou a pobreza - não podem ser resolvidos apenas pelos governos, empresas ou a sociedade civil", afirmou o professor alemão e fundador do WEF ao jornal Financial Times.

Dalsace concorda que a solução não é deixar os negócios de lado. "Você tem de enfrentar a realidade. Há empresas que valem trilhões de dólares. Isso é mais do que o PIB de muitos países. A ONU tem de aprender a falar com estas empresas se quisermos resolver os problemas."

E argumenta que nenhum país conhece isso melhor do que a Suíça, com suas inúmeras empresas e multinacionais. "A maneira helvética de procurar compromissos e resolver os problemas."

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