Descendente de suíços lança sexto livro

Crônicas dos descendentes dos colonos suíços de Nova Friburgo, impressões de um país alpino, imagens da Helvécia distante: o escritor Alberto Wermelinger se deu uma grande missão como cronista dos laços entre Brasil e Suíça. Agora lança seu sexto livro.

Este conteúdo foi publicado em 05. julho 2020 - 12:15
Um "selfie" de Alberto Wermelinger durante uma viagem realizada à Suíça em 2009. cortesia

O lockdown imposto pelo governo na cidade brasileira de Nova Friburgo não freou as atividades de Alberto Lima Abib Wermelinger Monnerat. O escritor de 75 anos tem nas suas origens várias famílias de colonos suíços imigrados em 1819 ao Brasil. Durante a quarentena publicou o segundo volume da sua obra intitulada "Legado Suíço", que reúne artigos publicados nas redes sociais sobre suas experiências na terra dos antepassados, impressões e história.

Entrevistado por correio eletrônico, Alberto Wermelinger conta como está a situação da colônia suíça em Nova Friburgo e compara os dois países.

swissinfo.ch: A última vez que nos encontramos foi em julho de 2019, por ocasião da turnê SWIontour, onde jornalistas da swissinfo.ch encontraram diversos migrantes suíços e descendentes no Brasil. Como está você? E como enfrenta a pandemia em Nova Friburgo?

Alberto Wermelinger: Olá Alexander, e amigos da swissinfo.ch e de toda a Suíça. Por aqui estamos bem, e isolados em casa, cumprindo as determinações das autoridades sanitárias. Minha mulher, a Dalva Brust, uma filha e eu, que somos os três, pessoas de risco.

swissinfo.ch: Algum membro da comunidade de suíços do estrangeiro de Nova Friburgo foi vitimado pela doença?

A.W.: Não que eu saiba. E mesmo em se falando dos suíços do Rio de Janeiro, que conheço muitos, e de qualquer outro ponto do país, também não recebi qualquer notícia de que alguém deles tenha contraído a doença. Vamos torcer para que continue assim.
 
swissinfo.ch: No início de junho você publicou seu sexto livro. Dessa vez é o segundo de uma série intitulada "Legado Suíço". O que o motivou e o que o novo livro apresenta?

A.W.:  A escolha do nome dos livros dessa série recaiu sobre a expressão “Legado Suíço” que, na verdade, é nome de uma página que mantenho na rede social Facebook. São artigos sobre temas relacionados à Suíça. Como há sempre um risco de que, um dia, eu possa vir a perdê-las, a ideia foi colocá-las em papel, na modalidade de livro. E a coisa rendeu bem mais do que eu esperava, de modo que as estórias se sucedem, quase que semanalmente. Assim, colhi material para a publicação do Legado Suíço – Volume II, e já estou prestes a lançar, em dois ou três meses, o Legado Suíço – Volume III.

swissinfo.ch: Que histórias você conta na obra?
 
A.W.: Nela publico meus artigos dedicados, sempre, ao tema específico, seja a Confederação Helvética ou Suíça, bem como de seus desdobramentos, isto é, a cultura suíça em geral (História, Geografia, lendas, acontecimentos, personalidades, lugares, experiências de viagens pelos 26 cantões e a abordagem de assuntos que, “en passant”, se refiram ao movimento migratório suíço de 1819 para fundar e povoar Nova Friburgo). Os artigos interessam bastante ao público-alvo que, de maneira geral, é integrado por descendentes das várias famílias que temos por aqui. Como faço parte de várias associações e grupos de famílias de suíços (no Facebook, ou não), a divulgação do meu trabalho é grande e, ao mesmo tempo, tem agradado aos leitores em geral.

Capa do segundo volume do "Legado Suíço", de Alberto Lima Abib Wermelinger Monnerat. Marcelo Cruz

swissinfo.ch: Quais delas poderia destacar para os nossos leitores?
 
A.W.: Neste "Legado Suíço – Volume II", como também no primeiro, há todo o tipo de história. Escrevo sobre a existência de livros publicados sobre a imigração suíça, inclusive os meus, faço eventual cobertura das festas de famílias que acontecem na região. Para se ter ideia da diversidade do assunto, e atendendo especificamente à esta sua pergunta, vou mencionar alguns artigos, com sua data de publicação. Por exemplo:

Capitão Bock (14 de dezembro 2019)

A maioria dos descendentes dos bravos viajantes de 1819, para fundar e povoar Nova Friburgo, ao menos terá lido ou ouvido que seus ancestrais enfrentaram grandes problemas, notadamente durante o período da sofrida travessia transatlântica, em viagens que duraram, no mínimo, algumas dezenas de dias, embarcados em veleiros que não ofereciam o mínimo de conforto, de acordo com os padrões daquilo que hoje entendemos como tal.

Dos sete navios que transportaram os colonos, todos com superlotação, destacava-se o Urania, nome que lhe foi dado em homenagem à musa da astronomia e da geometria da mitologia grega (filha de Zeus e Mnemósine), representada habitualmente por um compasso e um globo.

Tratava-se de um veleiro construído em 1785, de 600 toneladas, para transporte de mercadorias. Era um brigue de 3 mastros, cuja distância da mezena (segundo a terminologia náutica, a vela que se enverga na carangueja do mastro de ré) até o grande mastro, estendendo-se por quase 50 metros. E segundo a mesma terminologia, “um vaso de quarta categoria por analogia”.

Terá sido, provavelmente, um dos maiores dentre os sete outros. Ele trazia 437 suíços, todos originários do Cantão de Fribourg.

Foi, também, o que registrou estatística fúnebre mais significativa: 107 mortes.

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A Quinta Suíça (22 de novembro de 2019)

O que vem a ser, afinal a chamada “quinta Suíça”?

“Die funfte Schweiz”, “La Cinquièmme Suisse”, “La Quinta Svizzera”, “Tschintgavla Svirzra” e, finalmente, para nós “A Quinta Suíça”, são expressões da mais pura tradição helvética para indicar todos aqueles suíços que vivem fora de suas fronteiras nacionais oficiais, ou seja, em outros países.

Enumerada nessa ordem de citação, ela representa as quatro grandes comunidades linguísticas do país, em função de sua importância demográfica: Deutschschweiz (Suíça Alemã – 73,6%), Suisse Romande (Suíça de expressão francesa – 20,0%), Svizzera Ticinesa (Suíça de expressão italiana) e a Svizra Rumanttsch Grischum (a Suíça de expressão Romanche – 0,9%).

A Quinta Suíça, portanto, seria o conjunto de suíços em cada país, uma verdadeira salada mista de toda Confederação Helvética em qualquer parte do mundo, na qual não somente se fala as quatro línguas oficiais como também os dialetos de cada cantão ali representado. Essa mistura se transforma, na maioria das colônias suíças, em regra geral.

Na Quinta Suíça o conceito da territorialidade é ignorado, implodido mesmo. Não obstante, ela se encontra espalhada pelos cinco continentes. A Quinta Suíça é ao mesmo tempo animada, dinâmica e principalmente patriota.

* continuação do artigo, clicar AQUI

Estes foram alguns dos artigos e, como se vê, são assuntos diversificados, nos quais procuro introduzir histórias relativas aos 26 cantões, todos eles com um pano de fundo histórico. 

swissinfo.ch: Como faz para manter as ligações com a Suíça em meio à situação de pandemia, onde os vôos foram cancelados ou não são mais oferecidos?
 
A.W.: Claro que com as proibições de circulação e o cancelamento dos voos ficou impossível de viajar. Mas as comunicações via internet, nas suas várias modalidades, estão a pleno vapor. E confesso que, talvez mesmo em razão do próprio confinamento, nunca ficaram tão intensas.

swissinfo.ch: Comparando o Brasil com a Suíça, como os dois países se comportam frente ao novo coronavírus?
 
A.W.: Creio que a grande questão decorre da cultura, da educação, da disciplina e da índole de cada povo. A população suíça é muito diferente da brasileira.  Não quero me estender muito sobre isso por se tratar de matéria delicada e um tanto quanto constrangedora, mas estes são os quatro fatores que fazem a diferença.

swissinfo.ch: Pretende voltar a Suíça algum dia? Que viagem gostaria de fazer pelo país?
 
A.W.: Claro que pretendo. Eu já conheço os 26 cantões, e um pouco mais o cantão de Friburgo, onde fico a maior parte do tempo, o cantão de Lucerna (com os primos Wermelinger), o cantão de Vaud e o cantão de Jura. Mas, considerando que uma nova era deve se iniciar quando terminarem todas as proibições, acredito as coisas ficarão muito mais difíceis. Em primeiro lugar, porque não se sabe, exatamente que rumo ou direções o mundo vai trilhar. E para nós brasileiros, vão existir os impedimentos naturais relacionados aos aspectos cambiais. 

Viajei muitas vezes à Suíça com o franco suíço custando mais ou menos R$1,90 (não passava de R$2), quase a mesma cotação que o dólar. Agora, ou melhor, ao final da pandemia, quando as nações começarem a contabilizar as suas perdas, quanto custará o franco? O dólar? O euro? O real? De qualquer forma pretendo voltar, se Deus quiser, e visitar alguns lugares históricos que ainda não conheço.

swissinfo.ch: O que da Suíça você gostaria que fosse implementado no Brasil?
 
A.W.: Basicamente aqueles quatro aspectos que citei antes: a cultura, a educação, a disciplina e a índole, porque tudo o mais, na minha opinião seria mera decorrência ou consequência.

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