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Intercâmbio escolar e profissional entre Monthey e Serpa

Em 2016 o diretor da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Serpa Luís Barradas, recebeu a visita de Véronique Juiland, proprietária da empresa Pépinière du Chablais, propondo que se estabelecesse um intercâmbio entre aprendizes na Suíça e alunos em Portugal.

Este conteúdo foi publicado em 29. maio 2018 - 13:15
Filipe Carvalho
Os aprendizes suíços durante a sua estadia na unidade rural na Serpa. swissinfo.ch

Em outubro de 2017 os seis aprendizes suíços chegaram a Serpa para iniciar o programa e no mês de fevereiro de 2018 os alunos portugueses estiveram em Monthey a fim de conhecerem um pouco o contexto suíço. Para dar conta do desenvolvimento deste intercâmbio e do seu futuro, a swissinfo.ch conversou com os seus promotores e jovens envolvidos.

A Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Serpa

Ainda nos anos 60, grandes agricultores da região de Serpa decidiram implementar o ensino agrícola. Desde então, diversas mudanças ocorreram nos modelos de ensino até que a partir de 1989 se consolidaram na herdade da Bemposta, com 52 hectares. O nível de ensino é secundário, que compreende jovens entre os 15 e os 19 anos, e a oferta formativa principal incide no curso de técnico de produção agropecuária, mas também há o curso de gestão equina. Na escola, “a preocupação é transpor o que é a realidade da região em termos agrícolas”, o que significa terem olival, vinha, cereais e ovinos.

Apesar de em Portugal e na Suíça existirem escolas agrícolas, os modelos de ensino são bastante diferentes. Em Portugal, o modelo profissionalizante procura possibilitar um leque abrangente de conhecimentos enquanto na Suíça, os alunos tendem a especializarem-se numa vertente profissional. Essa diferença apresenta-se de forma simples: em Portugal os alunos passam “cinco dias por semana em atividades letivas dentro da escola, na Suíça, durante esse mesmo tempo, apenas um dia por semana é passado na escola, o resto do tempo é em contexto de empresa”, menciona Luís Barradas. Outro fator determinante é o papel dos empresários e associações agrícolas e empresariais na formação. Os estágios integrados na formação em Portugal não são remunerados e na Suíça recebem um salário, “é uma questão de cultura”, sintetiza o nosso entrevistado.

Pépinière du Chablais

Véronique Juilland comprou a empresa em 2011 e dedica-se sobretudo aos viveiros de plantas ornamentais e autóctones. Dentro desse enquadramento, introduziram a permacultura e espaços para cultivo de legumes, frutas e flores. O seu modelo de empresa assenta na participação social e “no respeito pelo ambiente e relações humanas, sem a pressão da concorrência e partilha de responsabilidades”. No âmbito do desenvolvimento sustentável, preconizado por Véronique, estão contempladas as seguintes vertentes: respeito pela Natureza, através do uso de produtos naturais, integração de pessoas com dificuldades cognitivas, formação de jovens como viveiristas e partilha dos conhecimentos em permacultura com agricultores e entidades.

Uma das tarefas dos jovens aprendizes era de trabalhar no horto. Na foto, o recolhimento de galhos secos. swissinfo.ch

Desde o início que Véronique começou a receber estagiários e aprendizes. Neste momento, tem três entre os 18 e 25 anos. Dentro deste contexto formativo, durante uma visita à região do Alentejo, em Portugal, em 2016, a nossa entrevistada pensou que seria interessante mostrar uma realidade distinta aos aprendizes.

O intercâmbio: Serpa e Monthey mais próximas

Quando no verão de 2016 Véronique Juilland visitou a escola de Serpa a propor o intercâmbio, foi recebida com surpresa e curiosidade. Contudo, Luís Barradas, de imediato disse que “estamos disponíveis para o intercâmbio, desde que se criem as condições financeiras”, devido às limitações da escola e dificuldade de obter apoios em Portugal. Em setembro desse ano, o diretor da escola deslocou-se à Confederação Helvética, com o intuito de conhecer a realidade local e visitar escolas agrícolas congéneres. Dessa experiência, realça as questões de natureza ambiental e sustentabilidade que estão enraizadas na mentalidade geral, através de técnicas de proteção ambiental e técnicas de valorização dos solos sem recurso a produtos químicos, componente trabalhada na escola de Serpa mas que ainda não está integrada na visão geral dos agricultores.

Este intercâmbio acabou por acontecer devido ao apoio financeiro do programa Movetia, promovido pelo estado suíço, e que incentiva este género de mobilidades, para permitir aos jovens suíços, e de outros países, conhecerem diferentes realidades e trocarem experiências. Desde os professores aos alunos e aprendizes, todos são unânimes em dizer que esta experiência foi enriquecedora e que lhes permitiu aumentar os seus conhecimentos no que concerne a técnicas agrícolas. Mas, essencialmente, o que realmente importa num intercâmbio deste género, “é que os jovens conheçam uma realidade completamente diferente e percebam que há muito mais coisas. Isso é suficiente para aumentarem os horizontes”, sintetiza o diretor.

As atividades realizadas pelos participantes

Ambas as entidades aprovaram o programa de atividades. Em Serpa, os aprendizes suíços puderam visitar a barragem do Alqueva e os sistemas de irrigação, realizaram visitas a Serpa, Mértola, Évora, Monsaraz e à Feira da Cortiça de Portel. Visitaram ainda um viveiro de nozes e produtores de óleos essenciais biológicos.

Nas instalações da escola, os aprendizes trabalharam com os alunos do intercâmbio. Em conjunto plantaram alfaces numa estufa e podaram oliveiras, entre outras atividades, e construíram o início de um jardim, feito a partir de materiais de orgânicos, que foram enterrados para entrarem em decomposição, servindo de substrato para plantas e flores.

Em Monthey, o programa foi igualmente intenso. Como foi num contexto de empresa, os alunos portugueses acompanharam as tarefas diárias de envasamento, preparação de terra para vasos, trabalhos de estufa e jardinagem. Também visitaram viveiros, onde realizaram trabalhos de enxertia. O aprendiz Dário partilhou connosco que ensinou aos alunos portugueses técnicas de poda e fazer estacas. Véronique procurou mostrar a importância dos viveiros, mas, para sua admiração, os estudantes calculavam rapidamente a viabilidade do negócio. Tiveram ainda a oportunidade de visitar uma vacaria e uma empresa de produção de iogurtes. As estâncias de esqui também fizeram parte do programa, assim como Gèneve e o museu dos Jogos Olímpicos.

Os participantes

Na opinião de Dário, a experiência foi importante para contactar com técnicas que ele já conhecia mas que eram utilizadas de forma diferente e destaca que é importante conhecer a realidade do país “para que não se critique a forma de trabalhar sem ter conhecimento”.

Os alunos portugueses ficaram surpreendidos com a dimensão reduzida das explorações, visto que em Serpa as explorações agrícolas são enormes, “por causa do chocolate e do queijo pensávamos que iríamos encontrar grandes explorações, mas não”. Realçam que é importante ter a oportunidade de viajar e conhecer novas formas de vida para que os jovens possam refletir antes de emigrar. Tal como habitualmente, admiraram-se pela vida começar muito cedo e das lojas fecharem igualmente cedo. Da mesma forma, espantaram-se com o facto de nos viveiros se produzirem mais árvores e arbustos ornamentais do que para agricultura, “eles usam muito para separar as casas, em vez de cercas”, relembra um aluno.

O intercâmbio no longo prazo

Tanto Véronique como Luís têm vontade de continuar este programa. Ambos têm a convicção de que a integração da École d’Agriculture du Valais é fundamental para que a troca de conhecimentos e experiências de ensino seja mais consistente. Contudo, tal como destaca Véronique, é importante que as autoridades cantonais também apoiem esta iniciativa. Nesse sentido, as autoridades portuguesas poderiam igualmente realizar algum esforço.

Os alunos e aprendizes, quando questionados se gostariam de repetir uma experiência internacional, também são claros em responder afirmativamente. Por isso, esperamos que este programa possa continuar e que os laços entre os dois países se mantenham.

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