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"A iniciativa burca só serve para jogar lenha na fogueira"

Greta Gysin, deputada do partido verde, acredita que a proibição da burca em seu cantão do Ticino, que está em vigor desde 2016, não resolveu nada. Keystone / Alessandro Della Valle

Uma proibição do uso da burca e do niqab na Suíça seria contraproducente, diz a deputada verde Greta Gysin. A iniciativa "Sim à proibição de esconder o rosto", que será levada a plebiscito em 7 de março, não é de modo algum feminista em sua opinião.

Este conteúdo foi publicado em 09. fevereiro 2021 - 11:00

O Comitê Egerkingen, que já conseguiu convencer o povo a proibir a construção de minaretes, está agora tentando fazer o mesmo com o véu completo. Este grupo, que é composto por muitos representantes eleitos da direita conservadora, lançou em 2016 a iniciativLink externoa "Sim à proibição de esconder o rosto". Os suíços votarão em 7 de março em um plebiscito nacional.

Tanto o governo quanto as câmaras federais estão recomendando que o texto seja rejeitado. Eles elaboraram uma contraproposta indireta, que entrará em vigor se a iniciativa for rejeitada. Ela prevê a introdução de uma obrigação de mostrar o rosto diante de certas autoridades.

O texto é conduzido principalmente pelo Partido Popular Suíço (SVP, na sigla em alemão). Embora um comitê de alguns políticos de centro-esquerda também tenha sido formado para apoiá-lo, os outros partidos se opõem a ele. No Ticino, o cantão da deputada verde Greta Gysin, encobrir o rosto já é punido desde 2016. Ela acredita que a proibição não resolveu nada.  

swissinfo.ch: Quatro anos após a entrada em vigor da proibição da burca no Ticino, você tem a impressão de que a lei cumpriu com suas promessas?

Greta Gysin: Não, a lei não mudou nada. O Ticino não tinha problemas com a burca antes e também não tem problemas agora. Os números mostram que tem havido muito pouca intervenção policial. Nos casos em que a intervenção policial foi necessária porque as mulheres usavam a burca, foi porque turistas dos Estados do Golfo vieram ao Ticino para fazer compras.

Essas turistas encontraram soluções. Mesmo antes do início da pandemia, uma mulher usando um véu completo foi apreendida pela polícia. Ela então colocou um simples véu com uma máscara. Isto mostra o absurdo da situação.

"Se queremos combater a radicalização, devemos fazer mais e melhor no campo da integração dos estrangeiros"

Greta Gysin, deputada verde

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Embora possa haver poucas, algumas mulheres ainda são forçadas a usar véus completos na Suíça. O texto não resolveria o problema para estas mulheres?

Forçar uma pessoa a usar uma peça de vestuário, seja a burca ou outra coisa qualquer, já é proibido por lei. Já é possível intervir. As mulheres que são obrigadas a usar uma burca ou outra coisa também são capazes de buscar ajuda, inclusive através de organizações de apoio às vítimas. Com esta lei, estaríamos colocando ainda mais dificuldades, pois elas não poderiam mais sair de casa para buscar ajuda. Se o objetivo desta lei é ajudar as mulheres que são forçadas a usar a burca, essa é a solução errada, pois obteremos o resultado oposto.

Uma turista da Arábia Saudita faz compras com duas amigas em Interlaken (Cantão de Berna). © Keystone / Peter Klaunzer

Como mulher, você não é sensível aos argumentos apresentados por algumas feministas, que dizem que o uso do véu completo é um passo atrás na luta pela igualdade entre homens e mulheres?

Pessoalmente, não gosto da burca, do niqab, ou do véu usado pelas freiras católicas. Entretanto, isso não é problema meu, porque eu decido por mim mesma e elas decidem por elas. Feminismo é dar a cada mulher a liberdade de decidir como ela quer se vestir. Por outro lado, querer proibir, ditar o que as mulheres devem usar não é feminismo.

A França, Bélgica, Bulgária e mesmo a Holanda, um país liberal, já proibiram o véu completo. Esses países estão no caminho errado?

Sim, eu acredito que esta não seja a solução. Nossa Constituição garante a liberdade de religião. Não é de modo algum liberal proibir símbolos religiosos.

O fato de que tais iniciativas estão sendo lançadas não responde à necessidade de debater o lugar do Islã em nossas sociedades?

Sim, creio que é um debate que devemos ter, mas não com iniciativas racistas e discriminatórias como esta. Devemos olhar para soluções reais. Se queremos combater a radicalização, devemos fazer mais e melhor na área da integração dos estrangeiros, particularmente os estrangeiros de segunda geração, que são muitas vezes os que se radicalizam. A questão não deve ser politizada, como a direita conservadora faz o tempo todo. Os iniciadores procuram oferecer soluções que parecem simples, mas que na verdade colocam mais problemas do que resolvem. Eles criam um clima geral de desconfiança. Esses tipos de iniciativas só servem para jogar lenha na fogueira.

A contraproposta indireta do governo diz que uma pessoa deve ser obrigada a mostrar seu rosto para fins de identificação, ao mesmo tempo em que prevê a igualdade e a integração. Isso não é um meio-termo aceitável?

Já é melhor do que a iniciativa, mas o problema de fundo permanece. A contraproposta dá a impressão de que algo deve ser feito em relação a um falso problema. Além disso, muito do que está no texto já existe no momento.

Num contexto de semi-confinamento, a campanha não será provavelmente difícil de ser realizada?

Ainda temos meios de comunicar através da mídia ou das redes sociais. Será uma campanha diferente, mas isso se aplica a ambos os lados.

Adaptação: Fernando Hirschy

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