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Entrevista: Fernand Cuche

Fernand Cuche encontrou-se com agricultores do Movimento dos Sem-Terra no Brasil durante o Fórum Social em Porto Alegre.

(Keystone)

Um agricultor e político suíço é voz ativa dos grupos contrários à liberalização dos mercados mundiais.

swissinfo conversa com Fernand Cuche, deputado federal pelo Partido Verde da Suíça, secretário da Uniterre e agricultor em Lignières, cantão de Neuchâtel.

Fernand Cuche é um suíço engajado. Como deputado federal pelo Partido Verde, ele acompanhou em janeiro a delegação suíça que esteve presente no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Um dos seus encontros mais marcantes ocorreu num assentamento dos Sem-Terra.

Sua identificação com os problemas dos pequenos agricultores está na sua própria biografia: Cuche é agricultor em Lignières, no cantão de Neuchâtel, e secretário da Uniterre, a Associação de Agricultores da região suíça de língua francesa.

O parlamentar foi entrevistado pela swissinfo durante uma coletiva de imprensa de ONGs suíças, organizada em Berna, para lançar um catálogo de reinvidicações à OMC. Cuche explica por que agricultores do mundo inteiro são contra o “livre-comércio a qualquer preço”.

swissinfo: Deputado, como foi sua experiência no III Fórum Social Mundial em Porto Alegre em janeiro?

Fernand Cuche: Foi algo inesquecível. Nós encontramos representantes do Movimento dos Sem-Terra. Ao mesmo tempo, aproveitamos a oportunidade para passar alguns dias em acampamentos e assentamentos.

Assim eu aprendi algo sobre os problemas dos pequenos agricultores brasileiros, incluindo o acesso à terra, às sementes, à formação profissional e ao crédito.

Na sua opinião, existe remédio para a situação dos pequenos produtores no Brasil?

Eu acho que o país precisa resolver com urgência a questão da reforma agrária. Desejo também que seus agricultores possam beneficiar das mesmas condições que apoiaram os agricultores suíços nas últimas décadas. Por um grande período, tivemos proteção nas fronteiras contra importações excessivas. Ao mesmo tempo, o Estado auxiliou os agricultores suíços com vários bilhões de francos. Graças a essa ajuda temos hoje em dia uma produção agrícola de boa performance. Os países que vivem problemas na agricultura deveriam poder dar condições aos produtores, para que eles alcancem o mesmo nível tecnológico e de produção que dispomos hoje em dia na Suíça.

Países exportadores como o Brasil lutam na OMC para ter acesso aos mercados protegidos na Europa e EUA. Essas divisas garantem empregos no Brasil. Por que tanta resistência por parte dos agricultores suíço à abertura das fronteiras?

Eu até concordo com uma certa abertura, porém somente se essa exportação esteja sob um controle democrático e que ela se destine a permitir um desenvolvimento agrícola equilibrado, que respeite a ecologia, que remunere a população camponesa. Assim até posso imaginar que nossos agricultores poderão importar um pouco de soja do Brasil.

Então existe uma certa flexibilidade por parte de vocês?

Isso depende. Se essa soja é importada, como ocorreu nos últimos anos na Europa – e eu não estou falando daquela que importamos depois de acidentes climáticos ou estações muito úmidas ou secas – para promover a superprodução de carne na União Européia e que depois será reexportada a preços com dumping para esses países na América Latina e na África, então sou contra.

Esse tipo de comércio não faz nem sentido econômico, nem ecológico para um país como o Brasil. O que me choca na posição brasileira, de forçar os mercados externos para sua indústria agrária, é que muitas pessoas que trabalham nas plantações brasileiras sofrem de má-nutrição, trabalhando em terras férteis. Para um suíço essa realidade é inaceitável.

Qual a posição final dos agricultores europeus em relação à abertura dos mercados?

Defendemos na Suíça que a exportação de produtos agrícolas esteja condicionada também às condições de trabalho no campo e à ecologia, por exemplo.

Como deputado do Partido Verde você está decepcionado com a lentidão na reforma agrária do Brasil?

Eu tenho um grande respeito pelo presidente Lula e posso bem imaginar que ele esteja sob forte pressão dos grandes proprietários de terras. Sei que esses grupos já estão organizando milícias armadas. A situação no campo é tensa. Acredito, porém, que Lula esteja tentando fazer o melhor possível.

Porém na sua apresentação com outras ONGs suíças você criticou o governo brasileiro, pelo fato deles defenderem com tanta veemência sua indústria agrícola.

A posição dos agricultores suíços nesse sentido é clara: se essa exportação de produtos agrícolas brasileiros só serve para encher os bolsos dos grandes proprietários de terra e comerciantes internacionais, então somos contra.

Muitos defendem a tese de que a liberalização dos mercados beneficia todos os participantes.

Não serão os grandes exportadores que irão distribuir seus lucros na formas de impostos. Não será esse tipo de mercado que irá ajudar os pequenos agricultores. É necessária vontade política para criar uma legislação de acesso à terra e também leis que apóiem o desenvolvimento da agricultura regional.

O Brasil é um país com uma grande dívida externa. Se o objetivo principal de organizações internacionais como a OMC, o FMI e o Banco Mundial é de dar às populações condições de acesso aos alimentos, então é necessário criar programas verdadeiros nesse sentido.

Então é possível também abater uma parte dessa dívida, caso esses programas de incentivo à agricultura atendam determinados parâmetros. O problema é que essas organizações estão pervertidas com uma forma de “tóxico-dependência” que é a competitividade, o mercado e o lucro.

Afora as questões levantadas, existem exemplo que mostram uma certa injustiça. Países como o Brasil e a Argentina gostariam de exportar sua carne, que para muitos consumidores europeus, é mais saborosa do que a européia, subvencionada e protegida nos mercados internos.

Graças às condições climáticas, a produção de carne do Brasil é extensiva. O gado passa a maior parte fora do estábulo. Existem zonas verdes, etc.

Ao mesmo tempo eu lembro que existem pessoas do agro-business, que dão concentrados para os animais. Não quero afirmar diretamente que eles estejam utilizando hormônios, mas eu me pergunto: - existe no Brasil uma legislação sobre a utilização de hormônios na produção animal?

A Suíça e os países da União Européia não aceitam carne com hormônio. Eu, como consumidor, também não gostaria de encontrar esse tipo de alimento nas prateleiras dos supermercados. Temos esse direito por uma questão científica, de segurança alimentar e ética. Não posso aceitar que o comércio internacional imponha à população européia esse tipo de produto.

E quanto ao açúcar, fortemente subsidiado nos países da UE e também na Suíça?

Sobre a questão do açúcar, eu penso em outro problema. O pouco que eu conheço de Cuba, me mostrou que esse país tem uma monocultura de produção de cana-de-açúcar que, por fim, está esgotando as terras férteis do país.

Porém muitos agricultores estão começando a produzir frutos nos espaços verdes em Cuba. Considero que esse país precisa ter uma produção diversificada para poder sobreviver. Na OMC e na ONU ainda não existe um conceito de desenvolvimento durável que incentive a diversidade.

Para encerrar a entrevista, o que os agricultores suíços defendem na OMC?

Defendemos que a produção agrícola dos países seja regional e o que o comércio internacional seja baseado nos excessos dessa produção.

A Suíça compraria sobretudo produtos que não encontramos nos nossos mercados como laranja, algodão, limão, etc, etc. O comércio internacional deve atender, sobretudo, a requisitos ecológicos e sociais.

swissinfo, Alexander Thoele


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