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Entrevista: Pedro, o asilado.

Pedro: - "sonho poder voltar um dia para Angola".

(swissinfo.ch)

Pedro, um asilado político de 43 anos de idade, chegou há sete meses na Suíça. Em Angola, seu país natal, ele trabalhava nos serviços secretos angolanos.

Depois de ferir interesses de pessoas dentro do governo, Pedro foi obrigado a abandonar a Angola. Seu caminho até a Suíça passa através de portos, viagens de barco e trem e a Itália.

Por que você abandonou seu país para vir à Suíça?

Saí da Angola devido a perseguição que vivia. Trabalhava nos serviços secretos. Tinha problemas de corrupção. Então fui obrigado a denunciar muitos membros do governo. Depois, por uma questão de segurança, não recebi uma resposta positiva por parte do governo. Acabei sendo perseguido por essas pessoas. Por isso fui obrigado a vir para a Suíça. Estava em risco de vida.

E a Suíça foi o país escolhido para proteger-se da perseguição em Angola?

Eu nunca havia pensado na Suíça. Eu queria apenas sair de lá. Em Luanda fiz os contatos no porto. Assim eu consegui sair de Angola. Trabalhadores do porto me ajudaram a entrar no navio. Não sabia para onde ele iria. Quando me dei por conta já estava na Itália, em Milão. Porem como a situação na Itália para asilados políticos não e tão boa, decidi parti. Tive contatos com pessoas, talvez árabes ou somalianos, acabei acolhido pela igreja e eles então me ajudaram a chegar na Suíça. Essas pessoas acabaram me ajudando a chegar na Suíça. Elas conheciam o caminho e me trouxeram então diretamente para um centro de asilados. Quando eu cheguei por lá, fiz o pedido de asilo político.

Porém você já sabia algo sobre a Suíça, ou veio para cá sem ter idéia do que lhe esperava?

Eu sou uma pessoa que gosta de ler e tenho uma profissão acadêmica. Eu sei que todos os países membros da ONU podem dar asilo político às pessoas necessitadas. Eu vim para cá sem saber se eles me receberiam. No meu caso era uma questão de vida ou de morte. Vou tentar a naturalmente a vida! Se eles não me receberem, eles vão me mandar de volta. Isso depende do que eu irei explicar para eles.

E como foi depois que você disse para as autoridades, logo depois de atravessar a fronteira, que gostaria de pedir asilo político na Suíça?

Eu cheguei no centro de asilados em Kreuzlingen. Falei então com o guarda. Disse para ele que gostaria de pedir asilo político. Eles falaram-me para sentar e deram-me um formulário para preencher. Preenchi. As únicas coisas que trouxe estavam numa pasta. Ela continha só meus papéis e algumas roupas. Mandaram-me entrar num quarto e eles revistaram então as minhas coisas. Nesse dias depois eles levaram-me para um centro de acolhimento, numa espécie de caserna, com pessoas de diferentes culturas e de diferentes países. No dia seguinte fomos às oito horas da manhã ter uma entrevista. Depois disso, três dias depois, me transferiram para Bumlingen. Fiquei uma semana numa espécie de caserna e agora estou aqui, nesse centro de solicitantes de asilado em Hallenbrücke, distante 15 minutos de Berna.

Com a morte do líder guerrilheiro Savimbi em fevereiro, o governo angolano assinou um tratado de paz que terminou a guerra civil no país. Esse fato não dificultaria seu pedido de asilo?

Na Angola: de um modo geral as pessoas pensam que, com o fim da guerra, a situação na Angola está melhorando. Porém isso não é verdade. Ninguém sabe melhor do que a pessoa que já viveu no país. Teoricamente se diz que a guerra acabou, mas isso não e verdade. A situação não era só o Savimbi. A questão é interna também, do próprio governo. Meu problema não era o Savimbi, mas sim o fato de que estou sendo perseguido pelas pessoas que estão no governo.

E essa perseguição colocaria em risco a sua própria vida?

Para mim é um risco, pois na Angola eu trabalhava no serviço secreto. E você sabe que um agente nessa área pode tornar-se um risco para a sua própria organização, pois eles podem pensar que essa pessoa pode vender as informações para outros governos. Para mim seria um risco de vida retornar a Angola, pois estava sendo perseguidos por membros do governo, do partido que governa atualmente a Angola.

E com 43 anos de vida, não seria uma decisão difícil, essa de abandonar o seu país natal?

Para mim foi um grande pesadelo abandonar a Angola, pois tenho dois filhos por lá. Tenho também minha família e meus amigos. O pior é que tenho 43 anos de vida e, depois de todo esse tempo, de toda a experiência e do trabalho feito no país, eu chego aqui sem nada. As vezes tenho emoções de revolta. Por que as pessoas não se entendem. Isso deve ser próprio da vida.

E como é atualmente a sua vida na Suíça?

Eu vejo a Suíça como um país grande. Não tenho queixas. Fui bem acolhido. E tudo o que e possível, eles me dão. Entendo que estou numa situação de refugiado. Tenho de respeitar as regras desse país. Experimento seguir os caminhos legais. Há sete meses que eu estou aqui e nunca tive problemas com os suíços. Considero-os um povo respeitoso. Para mim, se você é um homem com respeito e personalidade, as pessoas te darão respeito e atenção.

Apesar da tradição humanitária da Suíça, os jornais estão cheios de manchetes sobre casos de solicitantes de asilo que se envolvem com a criminalidade. O que você acha desse problema?

Eu entendo essa situação. Eu pessoalmente sou alguém que e contra qualquer tipo de ilegalidade. Quando vejo pessoas consumindo drogas aqui no centro, vou diretamente ao escritório para informar. Mesmo em Angola, era a minha responsabilidade de trabalhar contra a ilegalidade. Essa era a minha profissão. Porem vejo que existem muitos africanos aqui na Suíça, sobretudo da África central, que passam o seu tempo nas estações de trem envolvendo-se em ações criminosas. Reconheço que, ao mesmo tempo, os suíços acabem pensando que todos os africanos estão envolvidos com o crime. Esse tipo de comportamento eu não posso aceitar. A Suíça nos dá a possibilidade de fazer um curso de formação. O governo nos dá também toda a infra-estrutura para termos uma vida decente, aprender a língua e encontrar assim um caminho para o futuro.

Porém existem partidos políticos como a União Democrática do Centro (UDC) que pretendem diminuir o fluxo de refugiados para a Suíça. Para eles, esse problema está ligado diretamente as altas taxas de criminalidade desses grupos.

Eu não concordo com propostas como a desse partido, onde eles são contra o asilo político. Porem acho justo o governo combater mais energicamente essa criminalidade. Nós, africanos, não somos só criminosos. Existem aqueles que caem no crime, porém a maior parte dos africanos é composta de pessoas honestas e trabalhadores, que querem apenas viver.

E nesse período, enquanto seu processo de pedido de asilo político ainda não foi decidido, como você ocupa seu tempo?

Estou fazendo agora um curso de marketing e compras. Vou terminar em março o meu curso. Se o governo suíço me der uma resposta positiva, terei realmente planos futuros aqui. Tudo depende das garantias que o governo que me dará. Espero que um dia minha família possa me visitar. Já há mais de sete meses que eles não me vêem. Eu porém não posso exigir mais do governo do que a Suíça pode me dar.

Além do trabalho nos serviços secretos angolanos, o que mais você fez na Angola?

Eu estudei na universidade ciências físicas. Também fui capitão de exército e estive doze anos na guerra. Lutei e depois trabalhei numa companhia de diamantes. Mais tarde entrei para o governo, trabalhando no serviço secreto.

Quais são suas esperanças para o futuro?

Tenho esperanças de poder voltar para a Angola, mas só no dia em que a as pessoas puderem falar a verdade publicamente, no dia em que tivermos liberdade verdadeira, e não apenas no papel, como ocorre hoje em dia. Sonho bastante com esse dia.

swissinfo/Alexander Thoele

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