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Vista de um corte no mercado de São Paulo, no dia 20 de março de 2017

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O escândalo da carne no Brasil atingiu as negociações comerciais entre Mercosul e a União Europeia, com agricultores europeus exigindo "normas de segurança" dos 28 membros, horas antes do início de uma nova rodada nesta segunda-feira em Buenos Aires.

Os países do Mercosul -Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai- "não têm as mesmas normas que nós, tal como demonstra o caso descoberto no Brasil", denunciou o secretário-geral do principal sindicato europeu de agricultores Copa-Cogeca, Pekka Pesonen.

Desde a troca de ofertas tarifárias em maio entre os dois blocos, como passo prévio à retomada das rodadas de negociação formal em outubro, este sindicato europeu expressou sua oposição a um acordo de livre-comércio, pela inclusão de produtos agrícolas "sensíveis".

Entre esses, destaca a carne de corte que não fez parte da troca de ofertas inicial à espera do fim das eleições presidencial e legislativas previstas entre abril e junho na França, país que já expressou suas preocupações sobre o impacto de um acordo com o Mercosul em seu setor agrícola.

Neste contexto, Copa-Cogeca aproveitou o escândalo no Brasil e o início de uma nova rodada de dois dias na Argentina para aumentar a pressão sobre essa negociação, exigindo que as futuras importações por esse tratado comercial respeitem as normas de segurança alimentar da UE.

A Polícia Federal (PF) revelou na sexta-feira um esquema em que fiscais sanitários supostamente recebiam subornos dos frigoríficos para autorizar a venda de alimentos não aptos para o consumo. Mais de 30 pessoas foram detidas até o momento, três frigoríficos foram fechados temporariamente e 21 se encontram sob investigação.

"O futuro do acordo de livre-comércio UE-Mercosul não vai enfraquecer, e sim reforçar nossas obrigações, nossas normas muito exigentes em matéria de qualidade alimentar", respondeu o porta-voz da Comissão Europeia, Daniel Rosario, questionado sobre a reação de Copa-Cogeca.

- 'Amplo, ambicioso e equilibrado' -

Os países da UE e as nações do Mercosul tentam desde 1999 criar um espaço de livre-comércio de aproximadamente 760 milhões de pessoas a ambos os lados do Atlântico, em negociações paralisadas durante anos após uma troca de ofertas fracassada em 2004 e que foi retomada em 2010.

Embora os pontos de desencontro permaneçam, a predisposição a alcançar um acordo parece ter melhorado após a chegada ao poder de Mauricio Macri na Argentina e de Michel Temer no Brasil.

Os presidentes europeus, por sua vez, tentam se contrapor à visão protecionista do Estados Unidos de Donald Trump no mundo, e pediram recentemente em Bruxelas que se avance "decisivamente" nas negociações comerciais em curso com Mercosul, México e Japão.

"Todos os sinais que recebemos da UE são bastante positivos. A UE decidiu equipar-se aos princípios e valores que nos unem na carta das Nações Unidas", lembrou há dez dias a chanceler argentina, Susana Malcorra.

Na última reunião de nível técnico celebrada em fevereiro em Bruxelas, os negociadores de ambos os blocos abordaram questões sobre medidas sanitárias e fitossanitárias, assim como compras públicas e serviços, com o objetivo de avançar o máximo possível antes de abordar os temas mais sensíveis.

Sobre um acordo no final de ano, um porta-voz do executivo comunitário, instituição encarregada de negociar em nome dos 28, afirmou que "foram conquistados avanços significativos, mas que ainda restam muitas áreas nas quais se requer uma maior negociação".

"Para isso, ambas as partes estão intensificando as negociações com várias rodadas e reuniões a todos os níveis até o final do ano, a fim de alcançar um acordo político, sempre e quando este for "amplo, equilibrado e ambicioso", acrescentou a fonte à AFP.

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