Instituto Giacometti de Paris ressuscita as obras perdidas do artista suíço

Detalhe da Exposição surrealista na Galerie Pierre Colle. Fondation Giacometti

Alberto Giacometti destruiu várias das suas obras e perdeu outras. Mas as fotografias do seu mítico estúdio parisiense permitem reconstruir as obras desaparecidas.

Este conteúdo foi publicado em 04. abril 2020 - 10:00
Mathieu van Berchem

Em 1948, o fotógrafo suíço Ernst Scheidegger visitou Giacometti em Paris. "O estúdio apertado e lotado de Alberto na rue Hippolyte-Maindron, onde ele trabalhava há vinte anos, era desconfortável, mas cada objeto, cada pedaço de parede tinha os traços do seu trabalho. Se Alberto lá não estivesse (...) ele podia ser encontrado geralmente num dos dois cafés localizados no cruzamento da rue Didot com a rue d'Alésia, que hoje dão lugar a agências bancárias. Lá ele comia seus ovos cozidos com presunto e lia os jornais", diz Scheidegger em seu livro "Traços de uma amizade".

O apartamento para onde o artista se mudou com seu irmão Diego em 1926 era minúsculo: 24 metros quadrados no andar térreo, sem banheiros ou água corrente, que tinha-se que ir buscar fora. Alberto dormia em uma pequena cama no fundo do quarto, enquanto seu irmão mais novo Diego se contentava com o mezanino.

O estúdio desapareceu após a morte de Alberto em 1966, mas o Instituto Giacometti de Paris (que faz parte da Fundação Giacometti) reconstruiu-o em 2018, no mesmo distrito de Montparnasse. Ele nos permite imaginar o artista deslizando entre suas obras, lendo em seu colchão a "Gazette Littéraire", fumando, desenhando um rosto em suas paredes, e depois trabalhando novamente.

"Distrutto" ou "perduto"

Arrumação? Não há espaço! Por isso Giacometti "às vezes deslocava, jogava fora ou destruía obras antigas para dar lugar a novas", observa Christian Alandete, diretor artístico do Instituto Giacometti. Ele guardava peças na casa de amigos, em galerias e muitas vezes esquecia de recuperá-las.

"Distrutto", "perduto", pode-se ler aqui e ali nos seus diários. Artista brilhante, Giacometti era péssimo conservador? Uma distraído incorrigível? Ou uma pessoa eternamente insatisfeita, para quem o trabalho nunca está terminado? A primeira resposta é que o nativo de Val Bregaglia não era alérgico a nenhum inventário do seu trabalho, até porque pediu a fotógrafos, em especial a Man Ray, que registrassem o seu estúdio.

Buñuel e Giacometti posam com uma girafa no jardim da villa Noailles (1932). Fondation Giacometti

E é precisamente nessas fotos que aparecem algumas das peças que hoje encontram-se desaparecidas. Numa fotografia de Man Ray de uma exposição surrealista em 1933, podemos ver uma figura com cabeça de violino. Não há nenhum registro dela. Na época, Giacometti mal tinha saído do anonimato e a revista "Vu" publicou uma foto de um "Oiseau silence" (pássaro sileêncio) brincando em uma gaiola grande. Este também desapareceu. Como muitas outras obras, que porém estão presentes em fotografias ou mencionadas nos cadernos do artista.

Inventário cheio de erros

"Giacometti estava mais interessado na pesquisa artística do que na preservação do seu trabalho."

Christian Alandete, diretor artístico do Instituto Giacometti

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Intrigada, a Fundação Giacometti, herdeira das obras do mestre e sua esposa Annette, investigou estes "desaparecidos" dos anos 1920 a 1935. "Na época, Giacometti estava mais interessado na pesquisa artística do que na conservação de suas obras", diz Christian Alandete. Ele guardava cadernos de anotações, e até fez uma lista de suas obras para sua primeira grande exposição em Nova York, mas esse inventário está "cheio de erros", aponta Michèle Kieffer, curadora da exposição "In Search of Missing Works" (Em busca de obras perdidas).

Em resumo, um gênio, mas um "arquivista negligente", como sugeriu o jornal Le Monde. Alberto perdeu algumas peças e destruiu muita coisa, só para reconstruir depois. Algumas obras foram quebradas, como uma "Composição" de argila de 1927. "Suas dificuldades financeiras podem ter impedido o artista de recorrer sempre ao moldador" para uma versão em gesso, explica Michèle Kieffer. E o barro partiu-se facilmente...

O escultor não tinha medo de jogar fora obras danificadas. Assim um dos seus "Petit homme" (homenzinho), inspirado na arte africana, que descobrimos com o seu autor numa foto dos anos 1920. "Quebrado e destruído há muito tempo, me arrependo, Às vezes quero fazê-lo novamente, foi a minha primeira figura", escreveria mais tarde ao galerista Pierre Matisse.


Girafa roubada

A fama precoce de Giacometti nos anos 30 desperta ciúmes ou fúria destrutiva? Em 1932, juntamente com o cineasta Luis Buñuel, concebeu uma girafa em tamanho real com textos eróticos escondidos no seu interior. Os dois cúmplices surrealistas instalaram-na na villa dos patronos Marie-Laure e Charles de Noailles, em Hyères, no sul da França, e depois saíram para jantar. "Depois do café, voltei ao jardim com Giacometti", conta Buñuel em suas memórias. E nada de girafa. Simplesmente desaparecida, sem explicação. Teria sido ela considerada escandalosa demais depois do escândalo que foi [o filme] 'L'Âge d'Or'" (A era do ouro)?", pergunta Buñuel, referindo-se ao seu primeiro longa-metragem.

Um monte de mistérios. E tantos remorsos para os fãs do famoso escultor de "L'Homme qui marche". As fotos e esboços nos cadernos de Giacometti permitem-nos imaginar como eram estes trabalhos perdidos. O Instituto Giacometti quis ir mais longe, reconstruindo certas esculturas em três dimensões. O "Manequim" fotografado por Man Ray e o "Pássaro Silencioso" foram assim ressuscitados. Em uma versão puramente "documental". Sem assinatura, claro.

Alberto Giacometti em algumas datas

1901 Nascimento em Borgonovo (Gisões).

1922 Aluno do escultor Antoine Bourdelle na Académie de la Grande Chaumière, Paris.

1926 Giacometti se instala no número 46 da rua Hippolyte-Maindron, 14° arrondissement. Ele jamais abandonará esse ateliê.

1930 Junta-se ao grupo surrealista de André Breton, Man Ray, Joan Miró, etc.

1934 O artista rompe com os surrealistas e volta a trabalhar a partir da natureza.

1948 Expõe na galeria Pierre Matisse em Nova York.

1956 Primeira grande retrospectiva na Kunsthalle de Berna.

1961 Concebe a cenografia para a peça "Esperando Godot", de Samuel Beckett.

1966 Morre em Chur (Coira, cantão dos Grisões).

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