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Fabienne Eggelhöfer "Ainda hoje a pintura de Klee é atual"

A primeira grande exposição de Paul Klee no Brasil mostra novos aspectos, dentre eles sua ligação com modernistas tupiniquins. Porém política também é um tema presente na mostra do artista suíço perseguido pelos nazistas. Em entrevista, a curadora Fabienne Eggelhöfer fala do desafio de explicar a obra de um gênio de várias facetas.

Rosto de uma mulher

Fabienne Eggelhöfer: "Nosso objetivo foi fazer uma retrospectiva da carreira de Paul Klee para o público brasileiro".

(cortesia)

swissinfo.ch: Como surgiu a ideia de organizar uma grande exposição de Paul Klee no BrasilLink externo?

Fabienne Eggelhöfer: Eu e Nina Zimmer (n.r.: diretora do Museu de Arte de Berna e Centro Paul KleeLink externo) achamos importante levar Paul Klee além das fronteiras europeias. Também achamos importante iniciar diálogos sobre a sua obra. Então fui questionada pela promotora cultural Andrea Azzi, do Brasil, se não haveria interesse de concretizar essa ideia. Automaticamente dissemos "sim", mas com a condição de encontrar um parceiro local.

swissinfo.ch: E como foi estruturar concretamente a exposição no Brasil?

F.E.: Há um ano fui ao Brasil para conhecer as diferentes instituições e os locais onde a exposição poderia ser organizada. Depois conseguimos o apoio do Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBBLink externo), uma importante instituição que organiza não apenas exposições, palestras ou peças de teatro, mas também intercâmbios culturais. Importante para nós é que os eventos organizados pelo CCBB são gratuitos. Então encontramos a Expomus, uma empresa de logística com bastante experiências em levar grandes exposições da Europa ao Brasil.

swissinfo.ch: E como foi selecionar as obras de Paul Klee para o público brasileiro?

F.E.: Fizemos essa seleção junto com os parceiros locais, pois eles sabem o que seria interessante para o público brasileiro. No final chegamos à conclusão que o melhor seria organizar uma retrospectiva de Paul Klee, mostrando diferentes fases da sua vida artística e estilos trabalhados por ele. Afinal, o diferencial de Klee é que o artista não viveu uma evolução em uma simples direção, mas sim sempre trabalhou paralelamente entre o abstrato e o figurativo. Nossa intenção era oferecer esse momento de surpresa ao público.

swissinfo.ch: Paul Klee tinha alguma ligação com artistas brasileiros?

F.E.: Essa é uma questão que nos interessa, especialmente ao levar Klee ao exterior. Não sou especialista no modernismo brasileiro, mas ao discutir com vários historiadores da arte, acabei descobrindo alguns pontos de contato: por exemplo, com Alfredo Volpi (1896 - 1988) ou Lasar Segall (1891 - 1957), do qual a correspondência mantida com Klee se encontra nos nossos arquivos. Outra referência de um artista brasileiro que conhecia Klee é de Hélio Oiticica (1937 - 1980). São apenas algumas pistas, que gostaria de estudar mais profundamente. Talvez eu possa organizar posteriormente uma exposição no centro em Berna sobre Klee e o modernismo brasileiro.

Mulher apresentando uma pintura

Fabienne Eggelhöfer apresentando à imprensa uma das obras de Paul Klee expostas em São Paulo.

(swissinfo.ch)

swissinfo.ch: A obra de Klee foi marcada por viagens ao exterior como à Tunísia ou Egito. Mesmo alguns países não visitados por ele, como o Japão, também influenciaram seu trabalho. Como reagiria o artista se tivesse visitado o Brasil?

F.E.: A biblioteca de Klee tinha vários livros sobre a América do Sul. Além disso, ele e seus colegas artistas também estudavam profundamente a arte dos povos indígenas, especialmente do continente americano. Esses são alguns pontos de referências que ainda precisam ser estudados na obra de Paul Klee. Em todo caso, uma viagem de Klee ao Brasil teria tido, com segurança, uma grande influência sobre ele, que sempre gostou de viajar ao Sul. Ele sempre se sentiu atraído pela fauna e flora exóticas, mas também pela luz natural nesses países.

swissinfo.ch: A política influenciou a vida de Paul Klee. Ele participou, em 1919, da República Soviética da Baviera. Depois fugiu da Alemanha após a ascensão do nazismo. Porém somente em algumas poucas obras como o quadro "Retirado da Lista" é que a política fica mais visível. Por que?

F.E.: Paul Klee é mais conhecido como um mágico sonhador. Suas pinturas coloridas é que são mais comumente expostas. Porém temos no nosso acervo obras, onde você percebe concretamente as impressões de Klee da I. Guerra Mundial. Lá surgem elementos como a morte, homicídio ou soldados. Temos também uma fase dele, a partir dos anos 1930, quando é perseguido pelos nazistas: são 250 desenhos que descrevem como o artista via a ascensão do Nazismo. E depois tratou também de temas como emigração, violência ou educação. Eram sempre questões do seu tempo. Klee nunca (ou quase nunca) retratou diretamente uma pessoa na sua obra, mas sim tentou interpretar na sua obra a figura de Hitler e seu comportamento como ditador. Esse foi um ponto importante na exposição montada no Brasil: explicar como Klee viveu o seu momento e o retratou de forma atemporal. Ainda hoje a pintura de Klee é atual.

swissinfo.ch: Pintores realistas e contemporâneos de Klee, como os alemães George Grosz ou Otto Dix, retrataram os horrores da guerra através das figuras deformadas nas suas pinturas. Porém esses monstros não são vistos em Klee, que preferia mais o simbolismo, não?

F.E.: Klee não estava interessado em retratar o que ele via concretamente ou acontecia à sua volta. Ele sempre tentava transformar essa realidade em sua própria linguagem visual, e de forma atemporal. Por isso escolhia temas que, na época, eram atuais, mas que hoje continuam atuais. George Grosz ou Otto Dix preferiam tematizar exatamente a situação que imperava naquela época na Alemanha.

swissinfo.ch: Frente às mudanças vividas pelo Brasil e o debate que ocorre atualmente, a exposição de Paul Klee em São Paulo também fala de política?

F.E.: Sim. Ao dar um importante espaço às obras de Paul Klee produzidas nos anos 1930, demos à exposição o título de "Equilíbrio Instável". É um tema espelhado na obra em Klee nos mais diferentes níveis e que correspondente à situação atual do Brasil: você não sabe o que vai acontecer no futuro, mas sabe que o país se mantém nesse equilíbrio instável...

swissinfo.ch: Entre 1920 e 1931, Paul Klee foi professor na escola de vanguarda Bauhaus, na Alemanha, que completa neste ano 100 anos. O centro em Berna pretende destacar essa participação?

F.E.: Nós organizaremos no outono no Centro Paul Klee em Berna uma grande exposição intitulada "Bauhaus imaginista". Nela pretendemos mostrar como Bauhaus era vista no exterior. A exposição é resultado de uma longa pesquisa científica, da qual já resultaram algumas pequenas exposições, inclusive uma no Brasil, no Sesc-Pompéia. Afinal, foi no Brasil que a arquiteta Lina Bo Bardi criou uma escola inspirando-se no modelo da Bauhaus. O mesmo ocorreu no Japão, China e Índia.

swissinfo.ch: As pessoas conhecem geralmente a arquitetura, o design ou os moveis da Bauhaus. Porém qual foi o papel de Klee nela, sendo um artista plástico?

F.E.: O papel de Klee na escola Bauhaus foi de mestre. Ele ensinava aos estudantes como desenvolver formas geométricas interessantes, que então aplicavam no design dos seus objetos. Ele lhes mostrava que o objetivo não era criar algo simplesmente a partir da imaginação, mas sim desenvolver um processo de criação, durante o qual eles então iriam descobrir por que estavam se decidindo por uma forma dos objetos e não outra.

swissinfo.ch: Paul Klee era um artista suíço?

F.E.: Não. Apesar de ter nascido em Berna, na Suíça, passou a parte mais importante da sua vida criativa na Alemanha. Lá cresceu como artista e foi onde teve seus colecionadores. Mas quando retornou à Suíça, ficou isolado como artista. Não posso dizer que a Suíça o influenciou culturalmente.

swissinfo.ch: Um aspecto interessante de Paul Klee é que fez duas tentativas de se naturalizar como suíço, fracassando nas duas. A Suíça se arrepende hoje de não ter acolhido como cidadão um dos seus artistas mais conhecidos?

F.E.: Penso que sim (risos). Sempre se diz que ele era suíço, pois foi o país onde nasceu, cresceu e morreu. Hoje tem seu museu na Suíça. Porém em vida, Paul Klee só tinha o passaporte alemão. Provavelmente as autoridades suíças nos anos 1930 não estavam dispostas a aceitar como suíço um artista tão vanguardista como Klee. 

swissinfo.ch: Ao contrário de artistas suíços como Ferdinand Hodler, Paul Klee nunca retratou montanhas em seu trabalho. Por quê?

F.E.: Bem no começo da sua carreira artística, quando era ainda bastante jovem, Paul Klee fazia passeios à natureza e pintava alguns motivos. Você vê algumas imagens de montanhas nesses trabalhos. Ele também retratou Berna em desenho. Era uma espécie de exercício. Posteriormente você não vê mais esses motivos alpinos na sua obra.

swissinfo.ch: O Centro Paul Klee tem quatro mil obras no seu acervo. Vocês conseguem exibir todas? E quantas existem no mundo?

F.E.: No total são aproximadamente dez mil obras de Paul Klee, das quais quatro mil fazem parte do nosso acervo. Mil são pinturas e três mil, trabalhos em papel. Para organizar uma exposição, selecionamos um número limitado de obras. O objetivo é sempre mostrar um determinado aspecto do artista. Assim conseguimos apresentar novas facetas de Klee, atraindo dessa forma os visitantes para o centro em Berna. 

swissinfo.ch: Onde estão as outras seis mil obras de Klee?

F.E.: Existem grandes coleções nos Estados Unidos. Muitos dos colecionadores alemães de Klee eram judeus que emigraram aos EUA quando os nazistas tomaram o poder na Alemanha. Além disso, também na segunda metade dos anos 1930 muitas exposições de Paul Klee foram organizadas país. Uma bastante grande ocorreu no Museum of Modern Art, em 1929. Por isso é que muitas obras do Klee se encontram hoje nos EUA.

swissinfo.ch: Qual a maior dificuldade de lidar com obras artísticas e leva-las ao exterior para uma exposição?

F.E.: De fato, as obras de Klee são muito frágeis, especialmente as que foram realizadas em papel. Nossos restauradores explicam muitas vezes que eu não posso expor uma determinada peça. Além disso, também temos obras muito complexas: elas têm diferentes camadas como gesso sobre estruturas de juta, ou papel sobre juta e que depois foi pintado. Essas peças são tão sensíveis a vibrações, que podem se partir a qualquer momento. Por isso não podemos enviá-las ao exterior para exposições. Obviamente esses fatores influenciaram a escolha das obras que estão sendo expostas hoje no Brasil.

Biografia

Fabienne Eggelhöfer nasceu em 1974 em Berna, Suíça. Estudou história da arte e línguas românicas nas universidades de Friburgo, Paris e Berna.

Em 2001 se tornou colaboradora científica do Centro Paul KleeLink externo. Em 2007, curadora. Em 2017, diretora e curadora-chefe do acervo.

O tema do doutorado foi o legado pedagógico de Paul Klee, um projeto financiado pelo Fundo Nacional Suíço de Pesquisas.

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