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Profissão cada vez mais importante à democracia

Para Daniela Pinheiro, diretora de redação da revista Época, a imprensa vive um momento de transição. "Os jornalistas devem aprender a separar o sério da besteira". Convidada a falar sobre o seu trabalho na swissinfo.ch, Pinheiro considera que a resposta à crise no setor é "continuar escrevendo, e principalmente manter a sanidade". Em Berna, trouxe na bagagem três reportagens premiadas de jornalistas brasileiros.

Este conteúdo foi publicado em 05. setembro 2019 - 10:51
Daniela Pinheiro (à dir.) conversando com uma participante do festival, em um programa intitulado "speed dating" com os convidados. swissinfo.ch

O espaço escolhido para receber alguns dos eventos programados no Festival Internacional de Jornalismo, ocorrido de 30 de agosto a 1o de setembro, tem um nome incomum. A "KäfigturmLink externo" (em português, Torre da Prisão), foi construída em 1256 como parte das muralhas da cidade e já serviu de prisão na Idade Média. Duas jornalistas brasileiras foram convidadas para uma discussão com o público, em um evento intitulado "O Trump brasileiroLink externo". Objetivo: explicar como um representante da extrema direita foi eleito no país mais populoso da América do Sul e as consequências da sua política.

Daniela Pinheiro não duvida. "Vivemos em tempos confusos", declarou a jornalista no início do debate, que contou com um público de aproximadamente sessenta pessoas. Ao revelar que a matéria de capa da ÉpocaLink externo na semana seria dedicada às queimadas na Amazônia, a jornalista lembrou que os números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (InpeLink externo) revelaram que o número de focos de incêndio nas matas do início do ano até o final de agosto havia aumentado 84%, em relação ao mesmo período no ano passado.

Quando os dados foram publicados, o presidente Jair Bolsonaro demitiu Ricardo Galvão, diretor do órgão, uma decisão que, segundo Daniela, serviu de estopim. "Com isso o presidente abriu uma caixa de Pandora, dando quase autorização aos autores dos crimes ambientais de fazer o que quiserem".

Ao seu lado, Amanda AudiLink externo referiu-se à coberturaLink externo dos vazamentos de conversas trocadas por membros da força-tarefa da "Lava-Jato" para afirmar que a maior operação contra corrupção na história da justiça brasileira tinha um encaminhamento político.

"A Lava-Jato definiu o rumo do país nos últimos anos. Havia um grande sentimento anticorrupção no país e Bolsonaro simbolizou ser o candidato que iria combatê-la", afirmou a repórter da agência de notícias Intercept Brasil. "Porém o julgamento de Lula não foi justo, como podemos descobrir através das afirmações de alguns juízes. E um deles, Sérgio Moro, se tornou a figura mais popular do governo de Bolsonaro."

Reagir menos e escrever mais

Na análise de Daniela Pinheiro, a eleição do ex-militar também pode ser explicada através da "luta de classes" no Brasil. "Entre outras razões, foi uma reação das classes alta e média contra a ascensão da classe baixa aos seus espaços". E como resultado, o governo de Bolsonaro defende o aprofundamento das reformas trabalhistas já introduzidas em 2017 pelo presidente Michael Temer. "Sem mexer na pensão dos militares, elas tirariam vários direitos dos trabalhadores", diz. A diretora da Época considera que há uma lógica por traz da política de Bolsonaro. "Sua agenda é destruir o que a esquerda fez", ressaltou a jornalista, lembrando a frase que escutou de um general que está no governo. "Vocês não podem imaginar que não estamos fazendo nada: destruir o que foi feito dá muito trabalho".

Com relação ao papel das mídias, Daniela ressaltou que o problema atual é saber discernir. "Reagimos imediatamente a qualquer twitter publicado por Bolsonaro ou Trump, e perdemos a perspectiva do noticiário", reflete Pinheiro. "Enquanto isso, os fatos relevantes ficam perdidos, como no caso do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, em que fomos pegos de surpresa e só publicamos um artigo no dia em que foi assinado. Toda a imprensa falhou nesse ponto", disse.

Visita à swissinfo.ch

Convidada para dar uma palestra a jornalistas da swissinfo.ch, Daniela Pinheiro se mostrou otimista em relação ao futuro do jornalismo. "Vivemos em um tempo de desinformação e caos, mas estou segura que é um momento que irá passar", diz a jornalista. "O importante é continuarmos a escrever, e manter a sanidade, pois a imprensa é importante para a democracia. Quando esse tumulto assentar, as pessoas irão saber como separar o que é sério do não sério". 

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Amanda Audi considera que o atual presidente brasileiro não vê com simpatia o trabalho dos jornalistas. "Existe hoje uma campanha anti-imprensa muito forte. Para Bolsonaro, ler jornais é se desinformar", conta ela, ressaltando também que foi bloqueada nas redes sociais pelo ex-militar e seus filhos. 

Ao mesmo tempo, recebe ameaças através de diversos canais e já toma até medidas de precaução. Porém não vê a liberdade de imprensa em risco no país. "Nós conseguimos fazer o nosso trabalho, especialmente graças à independência econômica do Intercept", lembrando que a agência é financiada por doadores e leitores - e bancada pelo bilionário americano Pierre Omidyar, criador do eBay.

Três reportagens premiadas

Ao discutir sobre as pressões, Daniela ressalta que a mudança na política de publicidade oficial por Bolsonaro trouxe dificuldades a vários órgãos. "Os anúncios públicos desapareceram, assim como foi abolida a obrigatoriedade da publicação de balanços de empresas, o que afetou a renda de muitas editoras". 

Com as mudanças vividas no espaço midiático, as empresas necessitam hoje buscar novas formas de financiamento. Porém, Pinheiro considera que a liberdade de imprensa ainda está garantida. "Em um ano e meio na Época nunca sofri nenhuma forma de restrição."

Como membro do júri do Festival Internacional de Jornalismo, a diretora da Época leu 90 artigos publicados pela imprensa em países de língua portuguesa. Deles, ajudou a selecionar três, que receberam menção honrosa: "Neymar S/A: a engrenagem por trás do maior jogador de futebol do BrasiLink externol", de Pedro Lopes; "O deputado 716%Link externo", de Amanda Audi; e "Chagas: a vida após o barbeiroLink externo", de Melquiades Junior.

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