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Festival revela força do cinema latino-americano

Eliseo Subiela (à esquerda) e Josué Méndez comemoram em Fribourg.

Quatro prêmios para “Dias de Santiago” do peruano Josué Méndez, inclusive o Grand Prix. O do Júri para “La Mecha”, do argentino Raul Perrone. Sobrou pouco para outros concorrentes no Festival de Friburgo.

“Onde Anda Você” quase leva o Prêmio do Público.

Abertura com um filme apontando as causas da crise argentina, encerramento com um filme africano. Uma elogiada retrospectiva do cinema de países da Ásia Central. Uma programação que abordou desde transformações da sociedade chinesa e o drama israelo-palestino, passando pelo genocídio no Camboja, até hostilidades entre hindus e muçulmanos e mazelas da África e América Latina...

Em sua 18ª edição o festival de Friburgo projetou mais de cem filmes – “uma orgia cinematográfica”, como descreveu um crítico – com o objetivo de aproximar povos, romper barreiras do preconceito, mostrar que um outro cinema é possível, mesmo estando excluído dos grandes circuitos de distribuição.

Sucesso latino-americano

A julgar pela premiação do Festival Internacional de Filmes de Friburgo (FIFF), o cinema da América Latina vai bem. Dos 8 prêmios existentes, o primeiro longa-metragem de Josué Méndez levou 4, o Grand Prix, o prêmio do júri ecumênico, o da Fipresci (federação internacional da imprensa cinematográfica) e o prêmio do júri dos jovens.

“Dias de Santiago”, conta as dificuldades do jovem ex-soldado, Santiago, que depois de voltar da guerra, onde passou um período de 3 anos, enfrenta as dificuldades de reinserção na sociedade. Ao chegar no Peru verifica que dentro de casa existe também um ambiente de guerra.

A menção especial foi para “Ira Madiyama” (sol de agosto), do realizador Prasanna Vithanage, de Sri Lanka, considerada uma muita boa síntese da situação no país.

“La Mecha” conta as peripécias enfrentadas por um octogenário pobre em busca de uma peça (a mecha) para seu aquecedor. Mas a peça já não é mais fabricada... “Uma história simples e minimalista”, contada com delicadeza e ternura e que mereceu do júri o prêmio especial.

Resgate da memória

Memória é aliás uma palavra-chave para definir a 18ª edição do Festival, “porque foram projetados filmes que permitiram retraçar a história (ou fases da história) de países da África, Ásia ou América Latina”, lembra Rachel Bruhlhart, diretora do FIFF.

Outra palavra-chave é descoberta: “porque tentamos mostrar o trabalho realizado por jovens cineastas de 3 continentes”, diz Rachel.

Acresce que neste ano, não passou despercebido uma retrospectiva de 5 países da Ásia Central, mostrando obras completamente excluídas dos grandes circuitos ou mesmo censuradas no próprio país, como Noch Jeltogo Bika (noite do touro amarelo), de Mourad Aliev, do Turcomenistão.

Friburgo tem uma tradição de abertura ao mundo. Mostrou mais uma vez esta característica projetando Route 181 (rota 181), documentário em 3 partes, censurado recentemente na França, onde criou uma grande polêmica.

É uma obra importante para compreender o drama israelo-palestino. Dois cineastas, o israelense Eyal Sivan, e outro palestino, Michel Khleifi, viajaram pela Palestina de sul a norte, seguindo o traçado da resolução 181, do Conselho de Segurança da ONU, que estabelecia as fronteiras do estado de Israel, depois da Segunda Guerra Mundial.

O testemunho das pessoas entrevistadas permite uma melhor avaliação do eterno conflito entre israelenses e palestinos. Na avaliação de Martial Knaebel, diretor artístico do festival, “o filme permite entender profundamente uma situação”.

Prêmio do Público

“Cuentos de Guerra Saharaui”, do espanhol Pedro Pérez Rosado, foi contemplado com o não menos cobiçado Prêmio do Público. Mesmo sendo ficção, “Cuentos...” procura resgatar o drama dos saaráuis num território “mal descolonizado” pela Espanha, que “abandonou seus filhos” há 35 anos, na apreciação do cineasta.

Note-se que este prêmio, que indica o gosto do público, por pouco escapou ao filme “Onde Anda Você” – do carioca Sérgio Rezende – atualmente lançado no Brasil. É o que nos indicou representante do FIFF.

Mesmo não tendo conseguido essa recompensa, é sem precedentes o triunfo latino-americano nesse festival, aliás aberto com “Memoria del Saqueo” – de um outro latino-americano, o argentino Fernando Solanas – um filme incisivo que aponta as causas da crise atual na Argentina.

Mudar uma imagem

Vê-se que a política está bem presente no festival. Mas os organizadores sempre tiveram em mente “cambiar a imagem” que se tem do chamado “terceiro mundo”.

Criado muito modestamente em 1980 – no início era bienal, mas cresceu e aumentou seu orçamento 50% no últimos dois anos – quando foram projetados 7 filmes, o Festival Internacional de Filmes de Friburgo procura mostrar sempre uma imagem de um “terceiro mundo cultural e rico”.

Vinte e quatro anos atrás, segundo a fundadora do festival, Magda Bossy, de origem egípcia, a representação que se tinha dos países da África, Ásia e América Latina era de praia e coqueiros ou de miséria. Hoje os freqüentadores dos festivais tem uma opinião mais nuançada desses países. Graças, portanto, a esse festival.

O próxima edição está programada de 6 a 13 de março de 2005.

swissinfo, J.Gabriel Barbosa, de Friburgo.

Breves

- A 18ª edição do Festival de Filmes de Friburgo foi realizada de 21 a 28 de março.

- Reuniu 113 filmes, dos quais 13 longas e 10 curtas, em concurso.

- Foi muito elogiada a retrospectiva sobre 5 países da Ásia Central.

- Predominaram os filmes asiáticos. Mas na América Latina, a Argentina, particularmente, esteve bem representada. Aliás, até pelo filme de abertura (“Memoria del Saqueo”) é uma realização argentina, assinada por Fernando Solanas, respeitado militante de esquerda.

- O único filme brasileiro que competiu ao Grand Prix neste ano foi Onde Anda Você, de Sérgio Rezende, segundo colocado na preferência do público, depois de “Cuentos de la Guerra Saharaui”, do espanhol Pedro Perez Rosado.

- “Dias de Santiago” – primeiro longa-metragem do peruano Josué Méndez – que levou 4 prêmios surpreendeu pela qualidade o crítico do Jornal do Brasil, Nelson Hoineff, que presidiu o júri Fipresci.

- “É impressionante, diz Hoineff, que o filme seja realizado por um cineasta de 25-26 anos”

- Aludindo às questões abordadas no filme, o crítico carioca observa que o soldado Santiago descobre (ao voltar da guerra) que a verdadeira guerra está dentro de sua casa”.

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