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Fotógrafo e artista plástico revelam cumplicidade em Veneza

Pierre Casé e Marco D'Anna (à direita) na abertura da exposição, em Veneza. Pierre Casé

O fotógrafo Marco D’Anna revela o universo secreto do artista Pierre Casé depois do convívio de um ano.

Este conteúdo foi publicado em 14. abril 2004 - 10:53

Entrar no mundo do escultor foi como mergulhar na câmera escura de um laboratório fotográfico.

O fotógrafo Marco D’Anna revela o universo secreto do artista Pierre Casé depois do convívio de um ano. Entrar no mundo do escultor foi como mergulhar na
câmera escura de um laboratório fotográfico.

Não mereço um pedestal

O resultado está impresso em cinquenta fotografias. A exposição “O Retorno da Memória” mostra a essência da criação capturada em preto e branco. Mas para ter acesso ao “reino” do vale Maggia, no Cantão do Ticino (sul da Suíça) aonde o artista plástico mantém o seu atelier, era necessário obter no passaporte o carimbo da discrição.

“Sou um artista que ama a tranqüilidade, o estar sozinho, a reflexão no atelier, enfim...eu poderia me sentir mal com a presença de uma outra pessoa.

Produzo, penso, trabalho e não quero ser perturbado...só a idéia de ter alguém no meu pé (desculpe a expressão), uma pessoa que me fotografasse, já me incomodava”, contou Pierre Casé à swissinfo. “ Além disso, me exibir não é do meu caráter, não procuro a notoriedade e, sem falsa modéstia, acho que não mereço ser levado ao pedestal”, conclui o artista.

Marco D’Anna nasceu em 1964, no mesmo ano da primeira exposição de Pierre Casé, em Ascona, aos vinte anos de idade. Duas décadas depois os dois destinos se cruzariam entre os disparos do obturador de um em direção às pinceladas do outro.

Só depois de conhecer Marco D’Anna, ou a sua discreção, é que Pierre Casé aceitou o projeto. O fotógrafo praticamente se mudou para o lugar sagrado de Casé, o seu estúdio. E se mimetizou entre os cavaletes e bancadas, tintas e pincéis, a ponto de se tornar invisível.

Duas linguagens

O fato de quase passar desapercebido abriu espaço para registrar todas as etapas de criação de uma obra artística. “Uma vez, ao final de um dia de trabalho o procurei para oferecer um café e ele já tinha ido embora, sem que eu tivesse dado conta”, lembra Pierre Casé.

“Não foi uma estratégia formulada para este trabalho. Eu sou uma pessoa discreta no meu cotidiano. Procuro não ser incoveniente, isso atrapalha”, contou Marco D’Anna à swissinfo.

Assim, as duas linguagens diferentes dividiram um mesmo espaço. O olhar técnico, atento e sensível do fotógrafo procurava registrar os movimentos e interpretar a inspiração do artista plástico. E muitas vezes ela estava nos arredores do atelier, a poucos metros de distância.

Marco D’Anna encontrou nas rochas, na cachoeira, e na terra da natureza vizinha os desenhos, ou fragmentos de formas, utilizados por Pierre Casé, de forma inconsciente ou não. Esta foi a prova, preto no branco, da sintonia entre os dois. O elo de uma cumplicidade.

“Talvez Pierre não tenha visto aquilo que eu vi. A água que durante o inverno escorre pela pedra, se for fotografada de muito perto, em contra-luz se parece demais com a matéria de seus quadros”, conta D’Anna.

Dois artistas suíços

“Ele conseguiu criar uma simbiose com o meu trabalho. Ao final o resultado me parece bom, no sentido que sou eu, com os meus estados de alma: raiva, felicidade, nos meus momentos íntimos de diálogo com a minha obra”, comenta Pierre Casé ao se identificar até nas fotos em que não aparece de corpo inteiro. E esta conclusão é um sinal de rendição ao jogo de espelhos criado pelas lentes de Marco D’Anna.

A exposição também acompanha instantes das duas mostras do artista suíço em solo italiano, realizadas no ano passado. Uma em Milão e outra em Gênova. E agora, de forma indireta, em Veneza. “ O Retorno da Memória” está no Espaço Cultural da Suíça, no Palazzo Trevisan degli Ulivi, às margens da laguna.

“Como se trata de dois artistas suíços, um de Zurique e o outro de Locarno, que expuseram e trabalharam juntos na Itália no ano passado, agora, de qualquer forma, os dois completam uma viagem ítalo-suíça, hoje, aqui em Veneza...e sai desta aventura uma contribuição de grande interesse à relação entre os dois países que, mesmo sendo antiga e estreita, devemos sempre tentar consolidar e isso se faz muito bem com as atividades culturais”, disse o cônsul-geral da Suíça, Marco Cameroni.

Mostra em três partes

A mostra está dividida em três estilos distintos: fotos de reportagem, natureza e reflexão. As fotografias fundem numa só imagem o ponto de vista do artista e olhar do fotógrafo. E, como consequência, o espectador é convidado a participar deste “diálogo” proposto pelas obras e a entrar no reino mágico de Maggia.

Marco D’Anna revela não só a inspiração mas também a transpiração de Casé para realizaçao do seu trabalho.

E lá está o artista operário, exausto, concentrado e introspectivo, mas também o sorridente. Em algumas fotografias, Pierre Casé é reduzido à silhueta de um borrão, em outras à semelhança de um prisioneiro resignado e feliz da sua obra.

Para o público fica a sensação de ver a alma do artista revelada, mas não violada, pelo fotógrafo.

Guilherme Aquino, Veneza

Breves

- A exposição no Palazzo Trevisan degli Ulivi, em Veneza, vai até 16 de maio.

- O fotógrafo Marco d'Anna trabalhou um ano para fotografar o trabalho do artista plástico Pierre Casé.

- A mostra está dividida em três estilos distintos: fotos de reportagem, natureza e reflexão.

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